
Hoje resolvi partilhar um feito humanitário que, há muito reservo no lado triste da minha memória de longo prazo.
Fazíamos um voo rotineiro (eu e o colega Arão Costa), entre Capanda e Malanje, quando, de repente, reparamos que a coluna que transportava os trabalhadores saídos da área de construção da barragem para Malanje, estava a ser fortemente atacada e dizimada pela forte fumaça libertada das viaturas paradas.
No ar, viamos com bastante clareza o impacto dos projécteis a atingirem os autocarros dos civis indefesos e, nós, com um helicóptero civil, sem qualquer tipo de armamento nem mesmo pistolas pessoais, estávamos de mãos completamente atadas para defender a coluna. Por essa razão, decidimos comunicar a torre de Capanda e as operações da SONAIR, na esperança de comunicarem o batalhão de defesa do Projecto Capanda, para uma rápida e imediata acção em defesa dos trabalhadores inocentes que estavam sobre o fogo intenso.
A resposta que recebemos foi para regressarmos para a Base de Capanda para nossa segurança e, da mesma forma, do helicóptero.
Tivemos que arriscar uma decisão humana inadiável. Com o espírito de ex-militares da Força Aérea Angolana, decidimos por conta e risco e em nome das nossas mães Rosas (que já eram falecidas), entrar em acção imediata, para salvar ou morrer junto dos nossos irmãos indefesos.
Fizemos a nossa oração de despedida e, sobre protecção delas (mães), baixamos e entramos no cenário de guerra para resgatar quem não conhecíamos, inocentes, indefesos e pacatos trabalhadores angolanos. Era motivo mais que suficiente para arriscamos as nossas vidas sem pestanejar e, assim foi. Mergulhamos o helicóptero em auto- rotação (queda livre) e, sobre as copas das árvores, batiamos as pás fazendo um enorme barulho simulando bombardeamentos, num arrojado e perigoso vôo rasante, afugentamos os atacantes que meteram-se em fuga desordenada e desorientada, abandonando no terreno o material bélico que usaram para a ‘insaciável’ chacina dos seus próprios irmãos.
Aterramos a máquina em pleno cenário de guerra, o Arão no comando do aparelho e eu saí para transportar os feridos e todos os que pudesse levar para dentro do helicóptero. Lembro-me que, quando saí do helicóptero, senti o cheiro de pólvora no ar e o zumbir das balas tracejantes; vi a terra manchada de sangue e cheia de corpos espalhados por todos os lados; eu corria de um lado para outro, a procura dos que achava prioritário pela gravidade de ferimentos. Dei por mim completamente perdido, porque quase todos estavam muito graves, de cabeças abertas, peitos, joelhos e pernas desfeitas enfim… era o caos total. E no vai-vem das dezenas de vôos efectuados, transportamos cerca de 130 trabalhadores, entre feridos e mortos, para o hospital de Capanda e Cacuso.
Muitos acabaram por perder a vida nas minhas costas, e outros dentro do helicóptero com as mãos agarradas a minha. Só deixamos no terreno os mortos, no último vôo realizado já ao anoitecer, quando tivemos a certeza que só restavam cadáveres, porque fiz vistoria com uma pequena lanterna do kit de sobrevivência do helicóptero, tornando-me também alvo facil de ser abatido naquela escuridão. Mas, na altura não equacionei tal risco, porque entendi que o importante era ter a certeza que todos que respiravam, tinham sido salvos.
Assim, realizamos o último vôo para Cacuso transportando feridos e mortos. Foi o dia em que vi o inferno e o diabo em pessoa de mãos dadas, pois, se morresse naquele dia não senteria a morte. Depois de tudo que vi naquele cenário de campo de fuzilamento e cemitério aberto, aquela gente toda de cabeças, peitos, barrigas e pernas estoiradas, tornei-me completamente insignificante perante a vida. Os meus problemas eram insignificantes diante de tamanha crueldade humana. Percebi que nós não significamos absolutamente nada perante a incoerência, a arrogância, a estupidez, a ambição e a ganância do poder desmedido. Só Deus consegue inverter esse quadro, fazendo justiça merecedora aos criminosos que, certamente um dia irão pagar com a própria vida, por toda a maldade e crueldade perpetrada sem dó e sem piedade, contra os seus próprios irmãos, trabalhadores, desarmados, que não constituiam qualquer ameaça.
Até hoje, em momentos de solidão, ouço as vozes e revejo o olhar daqueles inocentes que pediam-me e clamavam com fervor, para não os deixar morrer, como se eu fôsse a última esperança e o Deus todo poderoso e salvador.
Foi muito doloroso e horrível não podermos fazer mais e melhor, além das nossas capacidades, pelas limitações que se impunham, por conta da tecnologia mecânica do aparelho que pilotavamos. O que mais doeu e reside na minha mente até hoje, foi ver dezenas de feridos que conseguiam chegar rastejando até ao helicóptero, com os corpos cravados com balas, agarrarem-se nos patins do helicóptero por desespero e medo de ficarem naquele inferno. Mas, a lotação do helicóptero era de 8 passageiros e nós, estávamos a transportar cerca de 20 feridos amontoados em cada descolagem, violando todas as regras. O que importava e estava em jogo era salvar aquela gente toda, tirarar-lhes daquela matança e daquele inferno. E ponto final.
Infelizmente, tinhamos limitação de peso e o Arão Costa, com toda a experiência que possuía, fazia transição lenta para ganhar velocidade e ganhar altitude. Eu, de coração já destroçado pelos gritos e pelos olhares desesperados, ainda tinha de lutar com os feridos para abrir as mãos serradas nos patins do helicóptero. Meu Deus… eles completamente desesperados, só lhes restava acreditar nas minhas promessas de regresso imediato para resgatar os que ficavam. Não tinham outra saída senão acreditar nas minhas palavras. Todos choravamos sem parar, eles mordiam-me as mãos e rezavam nos meus olhos em rios de lágrimas, suplicavam-me com palavras bíblicas, chamavam-me de pai, papá, rogando para não os deixar ali: “Por favor, por favor meu Deus do céu, senhor comandante pelo amor de Deus meu irmão, rogo-te imploro-te, não faz isso”.
Praguejavam-nos pelas prioridades que se impunham ( os mais graves primeiro) e, sobre o meu olhar fixo no olhar daqueles que ficavam, o Arão descolava a toda a velocidade e eu acenava com toda a convicção, dando-lhes a garantia do imediato regresso. E assim voavamos sem observar parâmetros e manuais. A nossa determinação concentrava-se na promessa do vôo de regresso, para salvar os que deixamos naquela angústia e naquele sofrimento, sem a certeza de poder honrar com a promessa de resgate feita.
Lembro-me que não tinhamos tempo para conversar ou fazer acertos de vôo. Era simplesmente ele a pilotar e eu, com a minha farda branca completamente ensopada de sangue, a acalmar os feridos, dando-lhes as minhas mãos, o meu ombro, o colo e o abraço que podia. Felizmente conseguimos afugentar todos os atacantes que alvejavam tudo o que se mexia.
Realço aqui que a emissora radiofónica do grupo atacante, neste mesmo dia, no noticiário das 20 horas, relatou o feito com agradecimentos, por termos salvo os civis alegando que, pensavam ser militares. Consideraram-nos “valentes e loucos”, por termos arriscado as nossas vidas com um helicóptero civil.
A direcção do Projeto Capanda também agradeceu-nos pelas vidas que salvamos, com honroso registo no livro de ocorrências. Recebemos muitos calorosos e emocionantes abraços da direcção, da administração e os agradecimentos pela bravura da heróica missão de busca e salvamento.
Em contrapartida, a direcção da SONAIR, empresa a qual estavamos vinculados e prestávamos serviço, simplesmente ignorou essa demonstração do elevado sentido patriótico. Foi a atitude desses novos e modernos administradores. Incrível!
É de realçar que o batalhão militar de defesa posicionado em Capanda, somente chegou ao palco do ‘show’ dos atacantes cinco dias depois, para recolha dos cadáveres que deixamos.
Nós, estivemos lá na hora e no minuto como se estivéssemos dopados e cegos, pois éramos somente dois pilotos desarmados a lutar contra militares fortemente armados, que disparavam sem dó e sem piedade contra os seus próprios irmãos.
Não saí da minha memória o cheiro a pólvora e o zumbir das balas no ar, quando saí do helicóptero e vi aquela carnificina. Autêntico horror, montes de angolanos indefesos, mortos inocentes de forma tão cruel. Meu Deus, trabalhadores civis, pais e mães em busca do pão da família, barbaramente assassinados. Malanje entrou em óbito geral, foi muito triste, chocante e marcante. Naquele dia, ficamos totalmente perdidos no silêncio diante daquelas pessoas inocentes mas, apesar de não podermos ter feito mais e melhor, sentimos que cumprimos o nosso dever.
Sobre esse dia, há mil coisas que não consigo escrever, e outras mil que até hoje não encontrei respostas. Teria de escrever vários episódios para ilustrar com mais clareza, o valor da vida em um minuto, o que de facto nós valemos.
Tivemos muitos constrangimentos para o desempenho dessa missão. Por exemplo, a discussão com a direcção de Capanda quando realizamos o primeiro vôo. Eles já não autorizaram a nossa saída para os voos seguintes. Tivemos de sair a revelia, com os olhos a ferver de raiva e com vontade de ‘fuzilar’ todos os que impediam a nossa saída.
A retirada dos feridos e mortos da helicóptero em Cacuso, porque aquele posto médico não tinha nem pessoal nem condições para receber a quantidade de feridos e mortos que transportavamos. E tudo tinha que ser arracado com gritos e palavrões, porque tinhamos urgência em descolar para cumprir com a promessa de apanhar os que tinham ficado no inferno, e só encontravamos barreiras.
A intimidação do comandante do batalhão de tropas estacionado em Capanda, a atribuir total responsabilidade a nós, porque estavamos a fazer um trabalho de risco por conta própria e que, não nos competia. Mas em nenhum momento, nem o comandante nem ninguém, ofereceram-se para acompanhar-nos para ao menos conhecerem o sítio onde estava aquela gente toda entregue à sua sorte. Por essa razão, segredei ao Arão Costa que ele estava com medo e para não perdermos mais tempo, porque já estava a escurecer muito rápido. “Baza, baza mano”, dizia eu ao Arão, “isso é blá… blá… blá… ele esta cheio de medo”. E descolamos para o ultimo vôo, sozinhos a conta e risco mas, com a certeza que Deus e as mães Rosa estavam a proteger-nos.
E conseguimos tirar do inferno todos os feridos cumprindo a promessa e a palavra dada aos que ficavam no quadro do atendimento prioritário aos mais graves. E no final, com os corpos e as mãos trêmulas por começar a encarar a realidade, abraçamo-nos com tanta força. Mesmo fragilizados e com balas cravadas nos corpos, aqueles que socorremos choravam aos gritos de agradecimentos, pela oportunidade da segunda chance de vida dada por Deus a todos os que sobreviveram, com a nossa contribuição e voluntariedade.
Meu Deus , muito obrigado, muito obrigado, muito obrigado em nome de todos e da vida pois, sei que se não tivesse a tua protecção, os meus filhos hoje estariam abandonados, sem condições de vida normal. Estariam como outros, cada um por sua conta ou em orfanatos pela ausência do pai, o pilar da família que sempre lutou para não faltar o pão de cada dia. Assim foi esse dia que ficará gravado na minha memória para o resto de toda minha vida.
*Piloto de helicóptero











