ANGOLA: O TRIBUNAL DA OPINIÃO PÚBLICA

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

Enquanto o Tribunal da Opinião Pública continuar a funcionar nas esquinas, nos kandongueiros, nos mercados, nos salões de cabeleireiro, nos campos de futebol improvisados e nos infinitos grupos de WhatsApp, Angola continuará a produzir diariamente aquilo que tem de melhor: um povo capaz de transformar dificuldades em gargalhadas e problemas em histórias.

Em Angola existe um tribunal muito mais rápido que qualquer instância judicial, mais eficiente que qualquer procuradoria, mais barulhento que um gerador de bairro durante um corte de energia e mais temido que uma auditoria surpresa. Chama-se Tribunal da Opinião Pública.

Este tribunal não tem juízes de toga nem martelos de madeira. Os magistrados trabalham sentados em cadeiras de plástico nos quintais, nos táxis azuis e brancos, nas filas dos bancos, nas esplanadas, nos grupos de WhatsApp e nas barracas onde se vende desde peixe seco até previsões políticas para os próximos cinquenta anos.

O processo começa normalmente às seis da manhã. Basta alguém espirrar em Talatona, para que às sete horas já exista uma teoria completa no Rocha Pinto, uma investigação paralela no Sambizanga e uma sentença definitiva no Cazenga. E o acusado nem sequer sabe que está a ser julgado.

O povo já sabe. Aliás, o povo sabe sempre.

Em Angola, o cidadão comum consegue descobrir a origem de uma fortuna, o resultado de uma eleição, a composição de um governo, a identidade de um amante secreto e o vencedor do Girabola, antes mesmo dos protagonistas tomarem conhecimento.

A acusação é simples:

— Ouvi dizer…

E quando a acusação começa com “ouvi dizer”, já ninguém escapa. As testemunhas aparecem imediatamente.

— O primo do meu cunhado trabalha lá.

— O sobrinho da vizinha viu tudo.

— Tenho uma fonte segura.

A fonte segura normalmente é um amigo que conhece outro amigo, que ouviu um áudio de alguém que recebeu uma mensagem de uma pessoa cuja identidade permanece um mistério nacional. Mas isso pouco importa. O tribunal já está reunido.

As redes sociais transformaram-se no Supremo Tribunal Popular da República dos Comentários.

Ali, encontramos especialistas em economia que nunca abriram uma conta-poupança. Especialistas em petróleo, que confundem barril com bidão. Especialistas em futebol, que exigem a convocação de jogadores reformados há dez anos. E especialistas em política, capazes de formar um governo completo entre o intervalo do almoço e a hora do café.

No Palanca, no Hoji-ya-Henda, no Rangel, no Golf 2 ou no Lubango, todos possuem uma solução milagrosa para os problemas do país. O curioso é que essas soluções desaparecem imediatamente quando alguém pergunta:

— Então, camarada, como se faz?

A resposta costuma ser:

— Isso já é outro assunto…

Mas o verdadeiro espetáculo começa durante as campanhas eleitorais.

É nessa altura que o Tribunal da Opinião Pública entra em funcionamento permanente. As sessões decorrem vinte e quatro horas por dia. Os especialistas multiplicam-se como cogumelos depois da chuva. Cada cidadão transforma-se simultaneamente em juiz, procurador, advogado, perito, comentador e correspondente internacional.

O resultado é uma autêntica maratona nacional de palpites. Há quem vê conspiração em tudo. Se faltar água, é conspiração. Se chover demasiado, é conspiração. Se não chover, é uma conspiração ainda maior.

Se um político sorri, desconfia-se. Se não sorri, desconfia-se mais ainda. Até os mosquitos são suspeitos de pertencer a uma organização secreta. Entretanto, os verdadeiros problemas continuam sentados num canto a observar o espetáculo.

O desemprego passa. A inflação passa. Os buracos nas estradas passam. Ou melhor, não passam, porque os carros continuam a cair neles.

Mas a atenção colectiva permanece concentrada na mais recente novela nacional produzida pelo Tribunal da Opinião Pública.

E que dizer dos grupos de WhatsApp? Ah, os grupos de WhatsApp… São as sucursais digitais deste grande tribunal. Ali circulam documentos sem autor, fotografias sem origem, estatísticas sem números e notícias sem factos.

Tudo acompanhado pela frase mais poderosa da República:

— Confirmado!

Confirmado por quem?

Ninguém sabe.

Mas está confirmado. E ponto final.

Ainda assim, seria injusto não reconhecer o lado positivo desta instituição informal.

Apesar dos exageros, dos boatos, dos palpites e das sentenças instantâneas, ela revela algo profundamente angolano: a paixão do povo pelo debate, pela participação e pela vigilância constante da vida nacional. O angolano comenta porque se importa. Critica porque espera. Ri porque resiste. E satiriza porque, muitas vezes, o humor é o último refúgio da esperança.

Por isso, enquanto o Tribunal da Opinião Pública continuar a funcionar nas esquinas, nos kandongueiros, nos mercados, nos salões de cabeleireiro, nos campos de futebol improvisados e nos infinitos grupos de WhatsApp, Angola continuará a produzir diariamente aquilo que tem de melhor: um povo capaz de transformar dificuldades em gargalhadas e problemas em histórias.

Porque, no fim das contas, neste grande julgamento nacional, todos somos simultaneamente réus, advogados, juízes e espectadores.

E a sentença mais comum continua a ser a mesma:

— Vamos ver no que dá…

Mas há um detalhe que distingue o Tribunal da Opinião Pública de qualquer outro tribunal do mundo: as suas sentenças são quase sempre acompanhadas de palpites. Aliás, em Angola, o palpite é uma ciência não reconhecida pelas universidades, mas amplamente praticada pela população.

Neste tribunal, as sentenças raramente terminam apenas com um veredicto. Elas vêm acompanhadas de previsões, profecias e adivinhações…

— Eu já sabia que isso ia acontecer!

— Esperem só mais três meses e vão ver…

— Ainda não viram nada!

— Guardem bem as minhas palavras!

— Escrevam o que estou a dizer!

— Daqui a pouco vão perceber…

— Conheço bem este filme!

São sentenças pronunciadas com uma convicção tão impressionante, que fariam inveja aos antigos adivinhos dos reinos do Kongo, da Matamba, do Ndongo e do Cuanhama.

O mais extraordinário é que, quando os acontecimentos seguem um rumo completamente diferente, ninguém é responsabilizado.

O profeta do bairro simplesmente produz uma nova profecia.

E o tribunal continua o seu trabalho normalmente. No fundo, este grande tribunal nacional funciona como um gigantesco espelho da sociedade angolana: exagera, inventa, critica, ri, suspeita, comenta e volta a rir.

Às vezes erra. Muitas vezes exagera. Frequentemente dramatiza. Mas, raramente fica indiferente. E talvez seja precisamente aí que reside a sua maior virtude. Porque um povo que debate, comenta e participa continua vivo. Continua atento. Continua a acreditar que pode influenciar o seu destino.

Quem sabe se, um dia, o Tribunal da Opinião Pública deixará de ser apenas uma fábrica de palpites, mujimbos e fofocas para se transformar numa verdadeira escola de cidadania, consciência crítica e participação responsável?

Quem sabe se os mesmos cidadãos que hoje distribuem sentenças nas esquinas do Cazenga, nos passeios da Mutamba, nos cafés de Talatona, nos mercados do Asa Branca, do Catinton ou do São Paulo, não acabarão por ajudar a construir soluções concretas para os desafios nacionais?

Até lá, o tribunal continuará aberto vinte e quatro horas por dia, sem férias judiciais, sem interrupções e sem necessidade de convocatória oficial.

Mas fica a esperança de que os seus mujimbos sejam cada vez mais leves do que venenosos, as suas fofocas mais engraçadas do que destrutivas e as suas sentenças mais inspiradoras do que condenatórias.

E que, pouco a pouco, este imenso Tribunal da Opinião Pública ajude a transformar Angola num verdadeiro oásis de boa convivência, onde os mujimbos provoquem apenas gargalhadas, as fofocas terminem em abraços e as divergências produzam soluções.

Porque um país onde as pessoas ainda conseguem rir juntas é um país que ainda acredita no futuro. E talvez seja exactamente nesse sorriso teimoso que insiste em aparecer nos lábios dos angolanos, que resida a mais bela sentença já pronunciada pelo Tribunal da Opinião Pública: “Angola ainda tem concerto… e o espetáculo continua”.

Bom fim de semana… 

*Menga-Ma-Kimfumu

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