
É inevitável perguntar, por que razão a solução para recuperar o nosso carapau deve vir precisamente de quem muitos associam à exploração excessiva dos nossos mares?
Segundo o jornal Valor Económico, citando a Rádio Nacional de Angola (RNA), a ministra das Pescas e Recursos Marinhos, Carmen do Sacramento Neto, manifestou interesse em implementar em Angola o modelo chinês de repovoamento de espécies marinhas, com particular destaque para o carapau.
A notícia não deixa de causar perplexidade. Durante anos, as águas angolanas foram intensamente “esfoladas” por frotas estrangeiras, incluindo embarcações chinesas e de outros países asiáticos, contribuindo para a redução de importantes recursos pesqueiros.
Na costa de Benguela, multiplicam-se há anos as denúncias públicas sobre a redução dos recursos pelágicos. Como consequência, muitas embarcações e operadores da pesca ao cerco foram obrigados a deslocar-se para as águas do Namibe, à procura de cardumes que outrora abundavam em franca escala na região.
Perante esse histórico, é inevitável perguntar, por que razão a solução para recuperar o nosso carapau deve vir precisamente de quem muitos associam à exploração excessiva dos nossos mares?
Quero acreditar que estamos perante uma narrativa mal explicada ou profundamente desfasada da realidade. Porque, se não for esse o caso, a proposta merece um escrutínio rigoroso por parte da sociedade angolana.
Ninguém questiona o valor da cooperação internacional ou da partilha de experiências bem-sucedidas. As nações prosperam através da combinação de conhecimento, investimento, trabalho e inovação. Mas cooperação não significa dependência nem aceitação automática de tudo o que vem de fora.
Os angolanos têm o direito de saber exactamente o que está em causa. Estamos a falar do repovoamento das espécies nativas dos nossos mares ou da introdução de modelos e práticas que podem não corresponder às nossas necessidades ecológicas e económicas? Quais são os custos do projecto? Quem ganha com ele? Que garantias existem de que o nosso património marinho será protegido?
Angola possui especialistas, investigadores, instituições de ensino, pescadores e técnicos com conhecimento suficiente para participar activamente nestas decisões. Antes de transformar a China numa referência incontornável, seria prudente ouvir mais a ciência angolana e as comunidades que vivem diariamente da pesca.
A pergunta que fica no ar é simples: trabalhamos para recuperar o nosso carapau ou para abrir caminho a mais um daqueles negócios apresentados como solução milagrosa, mas cujos benefícios reais acabam por ficar longe do interesse nacional?
Estou inclinado a acreditar que o seu chefe ainda não tomou conhecimento desta notícia divulgada pelo Jornal Valor Económico. Caso contrário, talvez a senhora ministra Carmen Neto já tivesse enfrentado o mesmo destino político da sua colega da Educação, Luísa Grilo. Recordamos que se apressou a promover serviços de Inteligência Artificial para todas as escolas do país, incluindo aquelas onde os alunos continuam a estudar debaixo de árvores, sem salas de aula condignas nem condições básicas de ensino.
Num país onde tantas prioridades continuam por resolver, os cidadãos merecem explicações claras e transparentes. Porque o carapau não é apenas um peixe. É parte da alimentação, da economia e da identidade de milhares de famílias angolanas.
Onde vai esta gente buscar tanto azedume quando se trata de pensar Angola?
Salvemos o nosso carapau.










