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Na televisão, como no cinema, na Rádio, como na política, as escolhas adequam-se. Os que estão talhados para os papéis de bandidos, de vilões levam dianteira sobre os ingénuos que se limitam a ser boa gente. Seguem simplesmente a voz e a vontade dos donos disto tudo.
Dentro de pouco tempo completo trinta anos no desempenho do papel de cronista. Três décadas de fidelidade a um género narrativo que consegui adaptar ao meu estilo pouco ortodoxo. Trinta anos procurando incutir nos meus fiéis leitores — conto alguns e bons, felizmente — o esforço de fazer da crónica um elemento de contestação social, a perseguir, dificilmente, bons costumes num país cheio de maus hábitos.
Os meus leitores estão por dentro do que faço. Apercebem-se da regularidade com que introduzo nas peças que assino, questões do desporto, do cinema, da televisão. Da cultura, de um modo geral. Umas a encaixarem melhor que outras na moldura dos textos. Não desisto da ideia. Dou consistência à vontade que me anima e me leva a boas sensações e melhores palpites. Na verdade, servem para mostrar quem eu sou realmente.
Cheguei há uns dias de Angola. Foram dois meses de estadia. Escrevi oito crónicas sobre o que vi. Curti a terra amada, a nossa Angola, sempre propícia a descobertas. Boas, algumas, más, muitas, horríveis, algumas delas.
Apreciei as ideias, as crenças e as atitudes. Não me admirei ao dar-me conta da ideologia da mata que regressou. Veio com o homem inculto, de origem duvidosa, do tipo arrogante. Também pude observar a ideologia do homem do mato, do oportunista, do que vindo dos maquis se julga dono disto tudo. Ganhou poder e usa-o sem regra, sem respeito, a seu bel-prazer. Deu para notar, naturalmente, que existem diferenças entre o homem da mata e o homem do mato. Mas ambos são diferentes do cidadão normal com quem também convivi, o responsável, educado, aprumado e digno.
Não fugi à tentação de lembrar o Brasil e o “capitão do mato”. Símbolo ideológico, o perseguidor de negros fugidos dos quilombos, figura que fez escola percorrendo os ecrãs do cinema e da televisão. Pensei nos que, entre nós, deixando de ser perseguidos, assumiram o triste papel do “capitão do mato”, o tipo que persegue outros homens e mulheres, inimigos e opositores. São indivíduos que praticam maldades, algumas só ao nível das que se faziam no tempo do cangaço.
Donde veio esta gente?
Num contexto literário, daqueles que se costumam adaptar à novela brasileira, pode-se inventar qualquer proveniência. Num dia que há de vir, quando a comunicação angolana alcançar outra sabedoria, quando produzirmos novelas, talvez possamos esclarecer dúvidas, ao se enquadrar esse tipo de personagem nos seus devidos papéis. Na nossa terra estão a desenrolar-se umas estórias que dariam certamente umas boas novelas! Daria para explorar, por exemplo, o estigma colonial. Aproveitar momentos da vida, em que certas pessoas se vêm a interpretar muito bem os mais esquisitos papéis.
Qualquer bom figurante, medíocre mesmo, pode desempenhar um personagem que lhe seja confiado pela estrutura. Pela estrutura do cinema ou pela da televisão. A estrutura política é muito mais complexa. Exige muito talento aos seus figurantes. Mais até que aos figurantes do teatro e do cinema. Não é para qualquer um chegar lá acima, aos lugares reservados aos bons protagonistas.
Hás papéis no cinema e na televisão que proporcionam prémios. De prestígio e de reconhecimento. Quando se interpreta bem a figura do bandido, do larápio ou do miserável. Os papéis de bom cidadão, de honesto e incorruptível não oferecem tantas vantagens. Daí o aumento da plêiade dos que se atiram decididamente aos papéis mais nojentos, aos mórbidos, difíceis de interpretar. Refiro-me àqueles onde cabem também os dos gloriosos coveiros insensíveis.
Perdi as dúvidas. Os artistas que representam bem esses papéis, são ajudados, não apenas pelo seu carácter, mau por natureza, mas também pela sua fisionomia. Os rostos, os narizes, as bocas e os olhos, principalmente, não conseguem enganar, quanto àquilo que os move. A força e o poder da bufunfa, do kumbú, do kitári, do dinheiro!
Ainda uma outra questão que brota da representação. Tendo em conta que a gente do mato é frequentemente retratada a viver em isolamento e penúria, refletindo uma visão ideológica que desvaloriza o seu modo de vida, torna-se necessário recordar, novamente, as diferenças entre o homem do mato e o homem da mata. Continuo a pensar que podem dar bons filmes ou novelas.
Vou buscar, nessa visão e contexto, o colono antigo, o verdadeiro homem do mato do outro tempo. Fixou-se em Angola, no mato, pelos factos e nas condições sobejamente conhecidas. Só visitava a metrópole de sete em sete anos, onde ia mostrar na santa terrinha o fruto das suas economias, a riqueza acumulada. Não tinha nada a ver com as fabulosas fortunas que se ostentam hoje. Os novos homens do mato, que desbravam a terra a partir da cidade grande, evoluíram, tornaram-se homens mais espertos. Visitam a Tuga e outros pontos do mundo de três em três meses, talvez em maior frequência. E também mostram a sua riqueza, borrifando-se para quem é pobre. Que culpa têm eles? Nenhuma. O tempo e as estruturas permitiram que se montassem a preceito os diversos cenários para se exibirem os protagonistas. Que se lixe, pois, quem é pobre!
Acompanho as novelas da Globo há bastante tempo. Desde que “Gabriela” mexeu com os nossos brandos costumes. Tenho duas ou três novelas eleitas, por temporada. Acompanho-as e ganho um pouco com isso. Entendo melhor o mundo e as pessoas. Aprecio melhor as estruturas e comparo o fabuloso conjunto de protagonistas, a fina flor da dramaturgia brasileira, com os figurantes que podem surgir das novelas que se produzirão em Angola, um dia se Deus quiser. Para atingirmos a grandeza cultural do país-irmão.
É por esta via que sou levado, de novo, à questão da estrutura. A Globo está bem estruturada. As estruturas são essenciais para a conquista do poder. As culturais, as desportivas, as políticas, as do Estado. Há muitas semelhanças entre todas elas. Na estrutura política costumam surgir talentos, tal como na dramaturgia. Transformam-se novatos figurantes em astros e estrelas cintilantes. Destacam-se os melhores, ganham estatuto e alcançam prémios. Contratos longos, escolhas criteriosas, o futuro expresso no ansiado status. Na política, oferecem-se cargos ministeriais no Governo, nos Bancos, nas embaixadas. Connosco poderia pensar-se no Bureau Político e no Comité Central no Partido Eterno, onde os caloiros vão espreitando oportunidades nos Comités. Na televisão, como no cinema, na Rádio, como na política, as escolhas adequam-se. Os que estão talhados para os papéis de bandidos, de vilões levam dianteira sobre os ingénuos que se limitam a ser boa gente. Seguem simplesmente a voz e a vontade dos donos disto tudo. E é isso.
Despeço-me dos meus leitores, dos familiares, dos amigos, companheiros de luta e amigos. Espero todos, no próximo domingo, à hora do matabicho.
Forte da Casa, Portugal, 17 de Maio de 2026
P.S.
1 – Ontem, faleceram Conceição Lima, em São Tomé e Nanutu, em Lisboa. Enormes, cada um na sua arte. Conheci-os, dei-me bem com eles. Estou triste e lamento a sua partida. Que descansem em paz!
2 – Hoje, 17 de Maio, completaria 106 anos de idade, o senhor Manuel Joaquim dos Santos, meu querido e saudoso pai. Devo-lhe tudo o que sou hoje. A saudade não tem fim.










