O que é ter saudades de Benguela…

Da autoria de João Sá Pinto

Saudades de quê …?
Do Velho “Calonger” da Água do Huche? Do Pimentel Ferro Velho, que ensacava algas para vender como medicamento? Do “Albaninha” que passeava de sapatinho branco e meia branca e aos saltinhos em frente ao Monumental de Benguela, antes do cinema de sábado à noite? Do Pereira da CMB, que punha a motorizada a trabalhar no quarto para matar os mosquitos? Do Joaquim da Benamor, que comia os tremoços e deitava as cascas para o chão? Do Góia, que passeava de bicicleta com de calções e meias altas brancas? Das velhas Pirolitas que fizeram queixa na Judiciária por lhes chamarem esse nome? Do Portinhas, que era examinador de cartas de condução e não tinha carta? Do Oliveira Maqueiro e do Pepino? Do Chimico, que morreu duas vezes? Do Matrindinde e do Picado, que andavam à chapada nos jogos de futebol da Lupral? 

Saudades de quê…?

Do “Leão da Metro”, que nadava todos os dias entre a ponte cais nova e a velha? Do Miau, do Portugal de Benguela? Do Isaías Pedroso da Silva, que punha os convidados na rua no meio dos almoços? Do Pimpão e do Zé Nabo? Do Dr. Espadarte, que dizia tinha na Equimina um filão de Aço? Do “Topa Tudo”, que foi para fiscal de caça? Do Fotocrime, que cortava as cabeças nas fotografias dos casamentos? Do Padre Galhano, que falava de futebol na missa? Do Velho Norton, que tinha mais de 50 filhos? Do Velho Antas que envenenava os cães da rua? Do Ginha Faro, que fazia máquinas de tirar finos com bombas de encher pneus? Do Julião, que pescava corvinas com um metro entre olhos nas pontes cais? Do Rei do Gesso e do Padre Horácio? Dos irmãos Xindiquto os maiores “blindados” de Benguela? Do polícia Rodrigues, que dava rebuçados aos putos! Do sempre vermelho polícia Teixeira? Da Maria das Corvinas que andava de Solex? Da Velha Cló, que foi professora de várias gerações? 

Saudades de quê…?

Do Camões, fotógrafo que mandava parar as procissões quando a máquina de filmar encravava? Do Emílio Marta, com o seu GT40 ou do Violacom o seu Lamborguini? Do António Freitas, que era sobrinho das Pirolitas e tinha a alcunha de ministro do Trabalho? Do “Pisa Bananas” que era caçador profissional? Do professor Calças que criava carneiros no Cavaco? Do Estanqueiro, que pilotava o velho avião “Piper” do Aeroclube de Benguela e que era também instrutor de condução? Do arquitecto Santiago Caximbeta? Do enfermeiro Mário Santos, que diziam que era maricas assim como o “Maria Albertina”? Do Alfaiate Sampaio, e as suas histórias das caçadas dos elefantes? Do Cabral, que ia buscar as filhas à porta do Liceu, por causa dos passarões? Do Eurico Lopes de Almeida com o seu Mini Cooper S? Do “Michelin” e o seu “Volvo Marreco”? Do Caldeira das bombas de gasolina que era pai da “esquimó”? Do Dr. Espinha, que dava consultas no Bar Tropical? Do Bar do Ferreira, que começava a assar sardinhas às 6 da manhã? 

Saudades de quê…?

Do Nogueira dos “Cafés Lima” que comeu 26 pregos, 6 quilos de gambas e bebeu 90 finos no Bar do Ferreira? Do Abel dos caixões, que quando passava por nós baixávamo-nos à sua passagem, para que não nos tirasse as medidas? Do Oliveira Maqueiro e do Mesquita Kodak? Do Padre Teixeira e das suas “Beatas”? Do Xicoamanga das suas “fífias” quando tocava? Do Fantasma do Asa Negra e da Mulher de Branco? Da Casa Assombrada do Aviário de Santa Filomena? Do Zé Mendonça, que dava pancada na polícia? Do Colaço, do Bar do Porta-aviões da Praia Morena, onde jogávamos matraquilhos? Do cabeleireiro Abrantes e do seu Cadillac? Do barbeiro Monteiro que nos ia cortar o cabelo a casa? Da Barbearia Montes, onde se punha as notícias em dia? Da Tabacaria Rex, onde comprávamos os cromos para as colecções? Da Diva da “Farmácia Nova” que concorreu a Miss Benguela? Do Dr. Azeredo, que comia charutos no Bar Guimarães? Do Pinto Candongueiro, que era o Jack Pallance de Benguela? Do Zé Bala que no Paraíso dos Macacos matou um “Catuiti” com uma lamesga? Do “Lenga-lenga”, que anunciava, por altifalante da sua carrinha, os produtos que vendia? 

Equipa do Portugal (Nacional de Benguela) 1960/65

Saudades de quê…?

Da onça do Jaquelino ou do Chimpanzé do “Tanque Humano”, que quando abria a porta de casa, afastava-se para que os espíritos que andavam com ele entrassem em primeiro lugar? Das alemãs do colégio alemão, que nunca nos ligavam puto? Do VCC, na Rua 5 de Outubro, onde eu, o Rafael, o Joca e o João Espinha nos reuníamos ao fim da tarde? Do “Tan-Tan”, onde o José Alberto Machado tomava o seu galão a meio da tarde? Do Colégio das Madres, onde fazíamos o concurso de quem conseguia entrar e dar a volta à estátua e sair sem ser apanhados? Da “Casa das Pechinchas”, do Agripino Fonseca, onde havia sempre troco? Do Bombeiro Esperança, que salvou muitas vidas e nunca foi reconhecido? Do Orlandini que dava espectáculos em play-back no cine Monumental? Do Adriano, que vendia lotaria? Dos gelados “Cá e Lá”, onde íamos mais vezes, por causa de quem lá trabalhava, do que propriamente dos gelados? Da Pastelaria Castália, onde paravam as melhores miúdas de Benguela? 

Saudades de quê…?

Do Rodrigues Cambuta da Epal, que dizimou as cabras de rabo de leque? Do Cine Esplanada Kalunga onde, quando não tínhamos dinheiro para o bilhete, víamos os filmes empoleirados nas árvores? Do Fialho do Café Porto e do seu papagaio malcriado? Do “King of Petróleos” que tinha 10 fatos Saratoga? Do toureiro “Cardozito” que fugia dos touros? Das festas da Nossa Senhora da Graça do pessoal de Manteigas e da festa da Nossa Senhora dos Navegantes, dos madeirenses da Mampeza? Da “Docélia”, o restaurante em frente ao Cine-Benguela que fazia aos domingos “frango à cafreal”? Do Quim Zé da Binga, que encontrou a avioneta perdida com os dois ocupantes já falecidos? Do chefe da polícia Menezes que andava sempre com uma “chibata”? Do Dinis da “Redil”, que vendia calças “La Finesse”? Do Guerra, que se vestia de escocês, para fazer apostas nos torneios de tiro aos pratos? Do Nuno de Menezes, com as suas crónicas no Rádio Clube de Benguela? Do padre Manuel da Casa do Gaiato? Do “Cabo Submarino” onde fiz exame de admissão à Escola Industrial de Benguela? Do “Paraíso dos Macacos”e os seus motoqueiros? Do campo da “Companhia Indígena”, o nosso Wembley, onde jogávamos futebol? Do “Kapuita” e do “Castendo” que vendiam roupa de Macau? Dos amigos, colegas de Escola e de Liceu? Dos meus alunos?

Ter saudades de BENGUELA, são saudades de tudo isto e do tempo que lá vivi…!

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2 Comments
  1. Sou a Amanda Ribeiro, e quero parabenizar você pelo seu
    artigo escrito, muito bom vou acompanhar o seus artigos.

    Visite meu site lá tem muito conteúdo, que vai lhe ajudar.

  2. Linda História que nos faz recordar a Benguela do nosso tempo.
    Mas Benguela não era só a zona urbana. Tbm havia vida e figuras típicas nas zonas suburbanas ( Bairro Benfica S.Joao, Peça, Clássico, Massangarala , Cotel ). Zonas com muitas histórias que tbm devem ser contadas.

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