LITERATURA. JACQUES ARLINDO DOS SANTOS APRESENTA O “FABULOSO MUNDO IÊTU”

A partir deste domingo, já num clima de aclamação a Viriato da Cruz, tal como referi no final da minha crónica do domingo passado, a minha coluna acolherá a prévia apresentação do meu último trabalho literário. Uma aventura mais, uma inédita fábula com nota introdutória de Luzia Moniz e ilustrações de Luísa Fresta a que a Kesongo dará tratamento editorial. Espero que vos venha a agradar.

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

FABULOSO MUNDU IÊTU

À memória do meu pai.

Também dos que partiram depois. 

A toda a gente que me estima. 

Começou a ser escrito na Conda, Kwanza-Sul, no dia 4 de Abril deste ano, no nosso Dia da Paz. Foi concluído em Luanda, no dia 25 de Abril deste mesmo ano, Dia da Revolução dos Cravos, da Libertação dos países africanos de língua portuguesa e aniversário da minha irmã Amélia. Coincidências…

Qualquer semelhança com a realidade, dos factos, nomes, locais descritos ou outros aspectos referidos, deverá ser observada também como mera coincidência.

Luanda, 27 Abril de 2023

O autor utilizou neste texto, para além de vários termos da gíria luandense, um conjunto de vocábulos da língua nacional Kimbundu, que não domina na perfeição. Na eventualidade de se detectarem erros de alguma natureza, antecipa-se no pedido de desculpas aos estudiosos, aos mestres da língua e, particularmente, ao leitores.

LUZIA MONIZ

Mwadyakimi Jacques,

Que doçura de fábula sobre esse Nosso Mundo onde se “sonha mentirosamente com processos de democratização da sociedade”

Um texto belo, elegante como a escultura de uma kianda, agradável e cativante que se lê num fôlego. 

Muito bem escrito, o Mundu iêtu, onde Maribondo e hienas definem o “retrato implacável da maldade” dessa sociedade totalitária, ao estilo de Louis XIV e o seu L’ Etat  c’est moi, mostra-nos que “ser chefe dá direito a ter sempre razão”

Na obra, a sensibilidade do autor perante dramas ou chagas sociais fica bem resumida nesta frase: “o horrível e temido homem era um indivíduo feio como a fome”. E tem razão, porque no Nosso Mundo de pornográficas riquezas nada pode ser mais feio do que a fome que condena injustamente à morte milhões de seres de todas as idades.

Por isso, a sociedade do Mundu iêtu precisa de instituir um “dia de clemência e do perdão” (qual Política de Clemência e Harmonização Nacional!?) consagrado ao pedido (verdadeiro) de desculpa. Um perdão também àqueles que o Mundu iêtu, assente em desigualdades, retirou o direito a ser parte de um Mundo próspero, ou seja, o direito a uma existência sadia e livre.

Neste fabuloso conto, a magistral tradução do kimbundu, sem parecer tradução, valoriza o recurso a expressões dessa língua nacional angolana.

Estas duas passagens: “Kuku ua bangue, kuku ua futa, – diz-se que aqui se faz, aqui se paga” e  “maji iá ndende”, o sagrado óleo de palma, produto essencial da dieta dos nativos…”, exemplificam um casamento perfeito de expressões em Kimbundu com o texto em português sem qualquer conflito e reforçando a compreensão da mensagem.

Obrigada pela oportunidade de me transportar para o imaginário dentro do real.

Tamujuntu!

Luzia Moniz

FABULOSO MUNDU IÊTU

PRÓLOGO

Era uma vez, na bwala de Katambi. A sanzala plantava-se longe, bem distante da de Tendungumba, o primeiro-ngana, o mais teimoso de todos os chefes adjuntos. Muito bem. Mas convém dizer primeiro, que estas e outras coisas que se pretendem contar aqui sobre a nação Wakangu, num modo não muito próprio nem muito fiel, aconteceram no antigamente da vida. 

Em toda a região, vivia-se então com relativa calma. Naquele dia, a imensa nzámba estava a ser tocada por vento que soprava morno. Fraco e sereno, no seu jeito habitual. Era aragem de vento africano. Abanava, como carícia de namoro, as ramadas das árvores, as folhas das palmeiras e do imenso bananal, todo o capim e os muxitu no geral. Estremecia os arbustos e as flores silvestres. Enfim, mexia com as coisas daquele mundo inexplicável. Afagava de mansinho, devagar. Como tudo o resto que se fazia, assim procedia o vento. A vida acontecia sem kijila naqueles lugares. Aparentemente tranquila, com a mesma quietude do passar do vento. 

Mas, para falar a verdade, do ar chegava todos os dias um odor penetrante, característico de clima seco, dos resíduos de poeira levantada gratuitamente pelo vento e pelas pessoas. Apesar da calmaria daquele dia, as maka compareciam, estavam latentes, a provar que eram mesmo bwé na zona.Kanvwanza estava sempre lá, a toda hora. Rebentava só assim, aqui e ali, estrondava pra chegar nas lonjuras das cordilheiras que se vislumbravam nas teias do nevoeiro. Tanto nos kuakié dos amanheceres a romper magicamente névoas, como nos kuzéka de adormecer na sombra de entardeceres perdidos, na busca de segredos das escuridões misteriosas. 

Trungungu era vício, colava como visgo e amarrava a vida das pessoas. Inconstante como a vida do passarinho. Ora preso na gaiola, ora entalado no galho seco de um pau quebrado. Eventualmente impedido por tronco cambaio de podre, a pedir perdão. Suor e sangue sujavam, persistentes, o chão da grande kibela do território imenso, kinene mesmo, sem limite. Vigorava eterno contraste entre eventuais sinais de violência do tempo e a lassidão entranhada nos minguados pambu, nos mulundumais elevados ou nas tónga dos baixios de vegetação húmida e compacta. Realçava aquele verdejar antagónico da secura observada na planeza das savanas tropicais. O calor acampava nos penedos, nos mulundu iá matári, sinónimo de morro pedregoso, e o frio assentava nas mázanga das baixas alagadiças.

Boatos como mujimbu deixavam gente de beiço caído. Serpenteavam o ar e através deles sabia-se das coisas. Notícias verdadeiras, umas, exageradas e longe da verdade dos factos, muitas outras. Era necessária coragem para se viver, mas nenhum perigo fazia recuar os guerreiros, treinados na dureza da vida. Os muzangala nunca viraram costas à luta. Desde os começos da vida antiga que eram assim. Nas suas veias corria sangue quente de povo aguerrido, nascido não se sabia se ali mesmo, se aonde. Faziam jus da sua idiossincrasia intrépida e bravia. Nas disputas, de guerra ou de faz de conta, saía kibétu sério, lanças e azagaias apontadas, huxi violento de mão aberta facilmente zungulado. Havia diferenças entre adversário e desafecto. 

As cenas faziam parte do dia-a-dia da vida no sítio e na época do antigamente. Era uma vida selvagem, pode-se dizer hoje, própria de kiáma dos muxitu.

Os homens e mulheres, sem escolha, muári-iá-kimi ou kandengue, tinham em si um pouco de animal feroz. Contudo, não deixavam de admirar e venerar o infinito do céu, de saudar o sol mesmo antes do dia nascer; de louvar a profundeza da água dos rios e o nzébu grudado nas suas margens; de cultuar o milagre da sua espectacular descida em queda na apoteose das cataratas. 

Empolgavam-se perante a surpresa da chuva, ante a força da ventania e tremiam com o susto da trovoada. Arrebatavam-se face ao poder da Natureza, e todos agiam e reagiam por impulso imediato. Travavam pelejas entre si e a cada passo, por tudo e por nada. As pessoas, inclusive as não fadadas para guerras, defendiam-se bravamente, feriam e matavam irmãos. De resto, nunca souberam explicar a origem e natureza, a razão da violência. O porquê dos enfrentamentos.

Apesar do vento calmo e sereno, naquele dia de antigamente, aliás, como noutros que se anteciparam e se seguiram, sentia-se no ar o efeito de um clima de guerra. Sem hostilidades declaradas, essa guerra era mortífera como todas as guerras. Vivia-se, já se disse, época retrógrada com gente sem kilunji, distante da percepção dos elementos fundamentais da vida. Estava ali reunido um pedaço da humanidade nos limites da ignorância pura. A sabedoria seria paulatinamente transportada, no decurso dos séculos, até chegar como luz, ao conhecimento dos mais aproximados descendentes daquelas pessoas. Foram épocas de escuridão das mentes, nas quais se escreveram capítulos importantes da História dos Povos Africanos. 

CAPÍTULO 1

A narrativa busca o momento em que a terra africana acolhia gente estranha, oriunda de várias latitudes. Fundamentalmente de continentes onde o barro que produziu o homem não era preto. Vinham de longínquas paragens. Pareciam cair das alturas, como bandos de pássaros que nada tinham a ver com os kánzonzo que enchiam os céus, nem com qualquer outro kánjila habitante da terra afro. As novas figuras assemelhavam-se a aves de rapina famintas, movidas pelo interesse bárbaro de se apoderarem de território e dos seus pertences. Desalmadas, mostravam sofreguidão pela ocupação e exploração da terra alheia. 

Com os tempos antigos a decorrer, as desconfianças surgiram. As desavenças com os de fora eclodiram. Estrondaram e fixaram-se. As maka foram avolumando no tempo, sempre movidas pela locomotiva do ódio. Descobriram-se diferenças, e os antepassados do homem dito culto lembraram-se de baptizá-las, muito mais tarde, de étnicas e raciais. Contudo, as contradições representavam muito mais do que isso. Tudo e nada servia para justificar, sem mais nem porquê, o acontecer das coisas. Mas a naturalização dos conflitos estava ali, ao saltar da vista. Foi assim, desde o princípio, que os domínios do espírito, com o feitiço, os feiticeiros e suas farsas a imporem-se, sobressaíram no panorama africano. As relações indesejadas e as renúncias de vária índole tornaram-se reflexo desses conflitos. 

Marcava-se impiedosamente o destino dos animais. De todos os animais sem excepção. Dos selvagens e dos de estimação, dos racionais nascidos e criados sob o signo da fatalidade. Pendiam sobre eles os propósitos do uánga e dos seus antídotos. Mas a par da desgraça imposta pelo destino, naquele antigamente da vida também se sorria por dádivas de felicidade. Todas as pessoas, no seu modo animalesco de viver, descobriam motivos de alegria, guiadas pela inspiração recebida como dote. A despeito de terem a cabeça pequena, homens e mulheres festejavam vitórias e amargavam derrotas. Eram raros os habilitados a topar as luzes do horizonte, mas ainda assim, existiam visionários. Houve sempre os que se destacaram dos demais. Foram, por essas razões e circunstâncias, naquele antigamente da vida, protagonizados cenários ciumentos, em que as pessoas e os bichos passaram, na medida do que lhes ditava o tino e o instinto, a incentivar a ganância e a avidez. Começaram então a agredir-se e a defender-se, a confundir-se nas atitudes. 

Naquele tempo, apesar de simples, o mundo já era um sítio complicado para se viver. Recorde-se a aproximação das pessoas aos mais diversos kiáma. Difícil de imaginar. Sentir a presença do imponente nzamba, do incontestado rei elefante e do feroz hóji, do príncipe leão, senhor de vastas anharas, a disputar majestade com onças, hipopótamos e muitos outros animais ferozes. Ver os céus a encherem-se de pássaros de toda a espécie, gaviões e kilombelombe no comando, uma empolgação. Emocionante observar nos matos a passearem-se, répteis e os mais diversos insectos. As cobras, jibóias, lagartos, sapos, sardões, camaleões e mais rastejantes, a exemplo de outros seres, eram vistos à distância, mas sempre com um certo respeito. Faziam-se, inclusivamente, cultos em louvor de alguns deles.

O pessoal daquela nzámba apreciava os domésticos como bois, galinhas, cães e gatos, entre outros, mas também tinha apreço pelo machismo dos grilos. Pela insólita intervenção das asas nos seus cânticos cortantes. Também amava as abelhas, estas por diferentes razões. Sobretudo pelas virtudes do mel que produziam. 

Sem noção da escolha ou preferência, veneravam os enxames de zangões chamados de marimbóndo, uns parentes não muito afastados das abelhas. De características diferentes no tamanho e nos instintos. Donos de temível ferrão, sempre bem dissimulado na sua farda, tal como era a sua real maldade. Justificavam a fama do seu carácter de voador afável mas mentiroso. Pertenciam a uma classe de insectos simpáticos, bem aceites pela população. Responsáveis pela polinização das plantas que enfeitavam a mbánza, espalhavam nos seus voos e outras andanças terrenas, os cheiros que exalavam ao passar. Uns fortes e agradáveis perfumes com que era mimoseada e enganada a classe feminina dos bichos, principalmente essa, que se deixava seduzir pelos seus múltiplos encantos e zumbidos, tão ternas quanto mansos eram as suas falas e sussurros.

O povo olhava com bons sentimentos para as xixikinha, as incansáveis formiguinhas. Mas sempre detestou os kisónde e os nzeu, formigas de maior tamanho, avermelhadas, as primeiras, e negras as outras. Ambas eram bravas e de mordedura dolorosa. 

Fixemo-nos no tempo em que homens e mulheres comunicavam grunhindo, no jeito dos porcos e doskiômbo. Escavavam o chão com as unhas compridas e comiam do mesmo jeito animal. Acasalavam e reproduziam-se porcamente. Cresciam desse modo insano e de igual maneira morriam, sempre levados por impulsos que os aproximavam dos seus próprios dejectos. 

Foi nesse tempo que os humanos mostravam comportamento de kiáma, que em certos animais selvagens se descobriram habilidades raras. Uns ndungue comparáveis aos praticados, por exemplo, pelo descomunal rato mbuiji ou pela irrequieta séxi, além dos protagonizados pelo veloz mbambi. Eram truques de extraordinário valor, iguais a fontes permanentes de energia e de renovadas hipóteses de sobrevivência. 

Foi, pois, nesse antigamente da vida, que as coisas aconteceram. Quando se passou a sentir mais medo das atitudes do homem branco. Um ser original, chegado de algures, não se sabia de onde. Na verdade, o branco suscitava mais angústia que os kiáma mais bravos. Foi então nesse período, a perturbar o panorama do quotidiano gentílico, que surgiu um grupo novo de bicho, muito estranho, a mostrar o quanto tinha de astuto e trapaceiro. Comunidades inteiras, burgos imensos, mostraram espanto. Caramba! Os bichos imitavam sons saídos das bocas humanas. Caçadores veteranos começaram a acreditar que as vozes anunciavam rancores ocultos. Propagavam actos vingativos, terríveis. Era fantástico o masóxi chorado em pranto agourento, caído fartamente dos olhos raivosos em momentos de óbito. Sugeriam a dramatização de cenas captadas nos rescaldos de batalhas. Sobre mbilas de cadáveres saídos das tumbas e tornados andantes, os bichos, no melhor desempenho humano, pranteavam e praguejavam de modo singular, muito sensível. Ameaçavam vinganças, soltavam lúgubres risadas, competiam com danças típicas das bwala e com sons vindos dos cerrados matagais. 

Entrava em campo a imaginação da mentira dos homens. Apontavam inopinadamente dedos aos bichos. “São muito ambiciosos”, queixavam-se. “Querem tudo para eles”, reclamavam. Os ngana que mandavam já eram estúpidos nesse tempo, percebe-se. Tentavam, da maneira mais soez, dizer ao povo que os animais dos muxitu eram pretensiosos. Explicavam que queriam supremacia, ambicionavam o domínio dos solos, das árvores e dos rios. Exactamente aquilo que, escondido sob a manta do seu imenso desejo, queriam só seu. 

Provavelmente terá nascido desse modo irracional o fomento do absolutismo, a teoria que viria a influenciar inúmeras gerações em todo o mundo. Almejavam para si com o espírito egoísta conhecido, tudo o que a Natureza produzia, o que brotava do chão, do céu e da água. 

Em face desses acontecimentos, pode-se hoje afirmar que não surgiu por acaso a afirmação avulsa segundo a qual, a luta entre homens e animais havia começado no momento em que se estava a conhecer, na verdade, a existência da vida e do mundo. Ideias semelhantes intensificaram-se na mente humana e, com o passar do tempo, mostraram também, pouco a pouco e com outro realismo, o ódio e a violência existentes no íntimo dos seres vivos. Aliás, esses sentimentos estamparam-se para todo o sempre nas expressões e nas atitudes de todos eles.

Continua no próximo domingo…

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