KAPULULU: CAMPO DE MORTE ONDE A FOME NÃO É RELATIVA

Por Ramiro Aleixo

Entramos em mais um ano, que na certa será igual ou pior aos anteriores dessa nova era lourencista. E enquanto no alto da cidade há uma família que arrota bife, queijo e os melhores vinhos franceses adquiridos com recursos que a todos nós pertence, mesmo às portas da cidade de Benguela, tida como o segundo centro económico do país, há compatriotas que morrem porque não fazem uma refeição, nem têm um copo de água para beber. São os excluídos do Sistema instalados em Kapululu, para quem o drama da fome não é relativa, nem decorre do pouco poder de compra, como sustentou o presidente do MPLA, que também é presidente da República.

Como vimos assistindo ao longo de quatro anos, o presidente do MPLA, que também é presidente da República, tem grande dificuldade de concertação das suas ideias quando fala de improviso. Empolga-se facilmente, perde-se no discurso e essa sua debilidade só não tem consequências mais gravosas para atestar a sua incapacidade de se relacionar de forma harmoniosa com a sociedade, porque conta com os préstimos de uma nova espécie de lavandaria política, que se apropriou dos meios de comunicação públicos e é dominado por analistas e comentaristas transformados em linha da frente da sua idolatria.

E foi embevecido por todo esse ambiente de fantasia política, que animado pelo suculento prato de irregularidades carnavalescas servido no congresso do seu partido – em que entrou e saiu como presidente sem que alguma vez se sentisse que era candidato – subiu ao palanque no comício e protagonizou a sua última descoberta do ano que agora encerra, ao declarar que em Angola “a fome é relativa”. São suas e na íntegra, as palavras que proferiu, que transcrevemos tal e qual, para não se dizer que desvirtuamos o seu sentido:        

“Fala-se de fome. Os nossos adversários hoje acordam de manhã e põem-se a cantar uma música: fome… fome… fome… A fome é sempre relativa. O país já tem muita produção de bens alimentares. Talvez por conveniência própria, por conveniência política, convenha-lhes repetir incessantemente a palavra fome. Mas eu diria que o grande problema de Angola, se quisermos ser mais precisos, é o pouco poder de compra dos nossos cidadãos. Pouco poder de compra pelos altos índices de desemprego fruto de um conjunto de factores, mas sobretudo fruto da Covid-19”.

EU VI E SENTI A FOME. Era 24 de Dezembro, véspera de Natal, ou Dia da Família. Após contacto com um grupo de jovens engajados em acções de solidariedade para com os mais desfavorecidos – que adoptou a sigla “Unidos Por uma Causa Justa” – sigo para a periferia da cidade de Benguela em direcção a um bairro, nascido, tal como a maioria, com a ocupação de terras não infraestruturadas, localizado para lá do mercado da Caponte, seguindo em direcção às Bimbas. E percorridos mais meia dúzia de quilómetros para lá do asfalto, numa marcha lenta e envolto por uma enorme nuvem de poeira, atravesso primeiro um vasto campo que, facilmente, percebo tratar-se de um cemitério. Imobilizo a viatura, aguardo até que a poeira se extingue, olho para a imensidão daquele campo já meio coberto por catos (piteiras), e distingo centenas de sepulturas, a maior parte delas meio cobertas por aquela vegetação e por ajuntamentos de pedras. Não têm qualquer tipo de identificação, certamente não fazem parte das estatísticas porque não têm qualquer registo de óbito pelas entidades administrativas, e não acredito que os próprios familiares se recordem mais delas. E pelas dimensões, não mais de um por meio metro, facilmente concluo que aquele cemitério recebeu maior número de cadáveres de crianças do que de adultos, sepultados sem terem direito a um caixão.

Armando Kamuenho, meu acompanhante nessa jornada, é um dos activistas dessa brigada constituída por jovens que deixam o conforto dos seus lares, para recolher e distribuir as poucas doações de alimentos que conseguem e que, por vezes, não passam de pacotes de massa esparguete e que repartem uma embalagem para duas famílias. Ali, ao contrário do que disse o presidente do MPLA, que também é Presidente da República, não são os seus “adversários que acordam de manhã e põem-se a cantar uma música: fome… fome… fome…”. Ali, a fome também não é “relativa”. Ali, a fome é certeza sem fim à vista; é a miséria estampada no rosto de cada um dos 3.450 adultos e das cerca de 800 crianças com quem convivi durante quase quatro horas.


Ali, não se vê, não se sente, nem sequer em miragem, que o “país já tem muita produção de bens alimentares”. Ali tudo é seco, tudo é areia, tudo é poeira. “O grande problema de Angola”, que levou aquela população a escolher aquele local para fixar residência, não é, como disse de forma “mais precisa” o presidente do MPLA, que também é Presidente da República, “pouco poder de compra dos nossos cidadãos”. Ali, há cidadãos angolanos que estão desprovidos de tudo. Ali, no dia 24 de Dezembro, véspera de Natal e do Dia da Família, vi excluídos, boa parte crianças que hoje, ao fazer essa descrição, não sei se ainda estão vivas.

À medida que vamos penetrando no povoado de casas rudimentares dispersas num raio de cerca de um quilómetro (ou talvez mais), Armando Kamuenho percebe a minha tristeza, a minha indignação e, talvez, também revolta apesar de não exteriorizar. E enquanto avançamos, numa marcha lenta, transpondo ladeiras e valas escavadas pela água da chuva que a muito não cai, diz-me que quando o seu grupo chegou àquele calvário instalado às portas do vale agrícola do Cavaco, havia cadáveres de crianças e adultos à porta de algumas casas. As famílias não tinham sequer forças para enterrá-los. A causa da elevada mortalidade, ali, é a fome estampada no rosto de uma mãe que chora ao amamentar o seu filho esquelético com uma mama onde o leite já secou porque ela própria não se alimenta, no país cujo Presidente diz que “a fome é relativa” e “canção” de adversários políticos.

A cada metro percorrido, fui visualizando esse filme de terror da realidade daquela população, até chegarmos ao centro de Kapululu para fazer a entrega de alguns bens alimentares àquela população carente de tudo, tocados por uma reportagem feita pela equipa do núcleo da Rádio Eclésia em Benguela, dirigida pelo jornalista José Manuel. Levamos pouca coisa a que se juntou outra doação de jovens católicos, que no mesmo dia se uniram à causa justa de defesa da vida e da dignidade daqueles excluídos. Esse pouco, terá dado para alimentar aquelas famílias famintas por apenas cerca de dois dias. Foi pouco, mas foi o possível.

CUMPLICIDADE CRIMINOSA. É intrigante o silêncio e a ocultação do que se assiste em Kapululu pelos órgãos de comunicação públicos, eventualmente para não contrariar a mensagem discursiva do presidente do MPLA, que também é da República. Silêncio, que também pode ser interpretado como cumplicidade na prática de um crime, de genocídio, porque não ajuda a mobilização de apoio solidário para essas populações. Por força desse silêncio criminoso, a maior parte da sociedade benguelense não tem conhecimento do que está a ocorrer à porta da sua própria casa. Essa sociedade que também se mobilizou para apoiar as vítimas da fome de outras paragens bem mais longínquas, está agora amordaçada pelo Sistema e, consequentemente, condicionada no seu apoio solidário, àqueles que em busca de melhores condições de vida se deslocam do interior para o litoral. E não encontra o mínimo de apoio, a assistência necessária para que se possa organizar e viver com dignidade.

Termino a minha jornada e em breves palavras despeço-me dos seus representantes, o soba e integrantes da equipa de coordenação da gestão do Kapululu, pedindo-lhes que sejam unidos na defesa da sua causa, recordando um filósofo que defendeu que “o propósito do homem é viver e não lutar para sobreviver”. Não prometi que voltarei, mas, qualquer coisa cá dentro me cutuca dizendo que sim, que deverei fazer um pouco mais, para ajudar a diminuir o sofrimento daquela população. Numa rápida reflexão, identifico que é preciso, primeiro, melhorar as vias de acesso, colocar pelo menos quatro tanques de água de cinco mil litros cada, assegurar o seu abastecimento duas vezes por semana e construir uma cozinha comunitária. Não me parece “missão impossível”.

Regresso à casa contagiado por aquele ambiente de tristeza e de abandono. Dispo a roupa empoeirada e sinto-me mentalmente mal comigo mesmo, porque tenho ao meu dispor uma casa de banho com todo o conforto onde posso sentir o efeito renovador provocado pela água a jorrar pelo corpo, quando para trás deixei um local onde há quem não tem um litro para beber. E eu próprio, mesmo com sede, não me permiti ir ao carro buscar a garrafa de água de mesa que levava, para beber diante das dezenas de crianças que nos circundavam, de certeza, também cheias de sede. E entre elas, a pequena Ana, esquelética, que carregava às costas o seu irmão João, também ele esquelético, que separados do grupo, com um olhar de profunda desilusão acompanhavam a distribuição da comida. Dirigi-me a ela, perguntei-lhe porque não se juntava aos outros. Segredou-me que não tinha forças, que estavam sozinhos porque a mãe foi a cidade à procura de comida. Pedi à equipa de apoio um pouco mais do que cabia a cada família e acrescentei uma coxa de frango. E com o apoio de uma jovem residente, encaminhei-os para a sua casa, lá mais para o fundo, numa elevação. Quer o rosto da Ana quer o do João apresentavam uma espessa camada de sujidade, numa mistura de suor e de poeira que a falta de água impedia de lavar.

Após a higienização, sentei-me a mesa e conto à família a experiência da dura realidade que acabará de viver. Confesso que, pela primeira vez, a comida confecionada e servida em minha própria casa me soube mal. E quando estava a terminar este texto, nem mais, um amigo enviou-me a seguinte mensagem como pensamento do dia: “Quando se tem vontade de partilhar, com pouco se faz muito. Quando não se tem, o muito nunca é suficiente”. É exactamente o que transpareceu no festival de Natal cheio de pompa e de fartura, servido às crianças de Luanda pelo casal residente no Palácio da Cidade Alta. Para mim, reflectiu, no fundo, o comportamento, o verdadeiro carácter de uma família que se transformou na única beneficiária da mudança: que come e viaja de borla; que faz consultas e compras de borla, quando antes, porque pagava do seu próprio bolso, era comedido até na compra de uma escova de dentes.

A propósito: o mandato do presidente está quase no fim. Alguém conhece um acto de solidariedade praticado pelos seus filhos em Luanda ou na aldeia mais próxima da fazenda dos pais? Eu não! E isso tem um significado, que deixo para vossa reflexão, porque ninguém dá o que não recebe, ninguém dá o que não aprendeu a praticar.

Desejo que 2022 seja de facto melhor para todos! Que a Covid-19 se vá embora! Que o nosso futuro seja reflexo do voto consciente, para que 2023 seja corolário de mudanças e não de mais instabilidade!  

NR: Comente, partilhe e participe no debate livre de ideias em prol de uma Angola inclusiva. Contribua para o aprofundamento do exercício de cidadania.

2 Comments
  1. Realmente, a situação no Kapululu é alarmante, por isso numa primeira fase fizemos um estudo de campo.
    Nós Jovens Unidos vamos continuar a trabalhar neste sentido, e contar sempre com ajuda de outros parceiros.
    Nós agrademos imenso o apoio dado pelo sr Ramiro Aleixo.

  2. “a caridade… é o ópio do privilégio”
    Chinua Achebe
    tb se depositaram esperanças de boa administração na troca de governadores em Benguela
    FORÇA & CORAGEM

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PROCURAR