ASSINALAR O 1.º DE MAIO EM TEMPOS DE RECUOS MÚLTIPLOS

RECADOS DA CESALTINA ABREU (82)

A continuação das lutas de Maio — da trabalhista de 1886 à estudantil e social de 1968 — não é apenas memória: é necessidade. Em 2026, acumulam-se sinais de recuo democrático, erosão das liberdades e precarização do trabalho, ecoando as condições que deram origem a essas lutas.

Porquê lembrar hoje? Porque os problemas persistem — e regressam com novas formas.

Em 1886, em Chicago, lutava-se pela jornada de 8 horas, pelo descanso e contra a exploração extrema. Hoje, a “uberização” e a fragilização das leis laborais recriam insegurança e jornadas difusas. A luta pelo trabalho digno não terminou — apenas mudou de forma.

Em 1968, estudantes e trabalhadores uniram-se contra o autoritarismo e o conformismo, exigindo liberdade e novos modos de vida. Hoje, perante a despolitização dos espaços educativos, a polarização e as restrições à organização colectiva, esse legado mantém-se аctual: defender a educação pública, o pensamento crítico e a liberdade de expressão.

Mas 2026 não é apenas repetição — é também ampliação. Às lutas herdadas somam-se novas frentes: justiça social e climática, combate às desigualdades, defesa da ciência e da liberdade académica. Em todas elas, a acção colectiva continua a ser decisiva.

Em suma, as lutas de Maio não são celebração — são convocatórias.

Importa, por isso, lembrar a História: aos direitos civis seguiram-se os políticos e, depois, os sociais, económicos e culturais — não como complemento, mas como condição para que os primeiros deixem de ser promessa e passem a ser realidade.

Mas estes direitos vivem em tensão. Uns pedem menos Estado; outros não existem sem ele. E é nesse equilíbrio instável que se decide, todos os dias, se os direitos são reais — ou apenas retórica.

Essa tensão não se resolve sozinha. Resolve-se com cidadania activa. Não com silêncio, nem com a ilusão de irreversibilidade.

Os direitos não se mantêm por inércia. Mantêm-se por vigilância, participação e, quando necessário, confronto democrático.

Quando o diálogo falha, a rua deixa de ser opção — volta a ser necessidade.

A História não engana: quando os direitos recuam, quem fica parado recua com eles.

Celebrar o 1.º de Maio é, por isso, mais do que recordar — é recusar o recuo.

Kandando daqui! 

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