EUA.DOIS MIL E QUINHENTOS JORNALISTAS DE BOCA ABERTA

Quando a violência atinge cidadãos anónimos, o silêncio instala-se. Quando toca o poder, transforma-se em espetáculo mediático.

O texto seguinte é da autoria de uma jornalista presente no banquete promovido pela que, l Associação de Correspondentes da Casa Branca, no hotel Washington Hilton, na capital norte-americana, interrompido por um atentado, supostamente contra o Presidente Donald Trump e funcionários do alto escalão do governo, no passado dia 25 de Abril. 

Verdadeiro ou encenação? Como demonstra a autora do texto transcrito pelo internauta João Gomes na sua página do Facebook, persistem as dúvidas, porque na preparação do evento, não foram tidos:

“Comecemos com uma pergunta simples: foi falso?

Pode soar excessivo. Pode até parecer provocação. Mas, na verdade, é uma das perguntas mais racionais que muitos americanos fazem hoje. E o simples facto de ter de ser feita diz muito sobre o estado actual da nação.

O chamado Jantar dos Correspondentes da Casa Branca deveria ser, acima de tudo, um momento de celebração do jornalismo. Um espaço simbólico onde a imprensa reafirma o seu papel: questionar o poder, expor a verdade, defender a liberdade de expressão. Era isso que estava em causa.

Mas não foi isso que aconteceu.

Quando os tiros ecoaram na sala, o pensamento imediato não foi para os políticos presentes, nem para as figuras de Estado. Foi para os jornalistas. Para aqueles que, repetidamente, têm sido descritos como “inimigos do Estado”. Para aqueles que, naquela noite, deveriam ser homenageados — e acabaram no centro do medo.

Não se trata de afirmar que tudo foi encenado. Trata-se de reconhecer que a dúvida, hoje, é inevitável.

Vivemos num tempo em que a confiança se desgastou. Em que líderes moldam narrativas, ampliam ameaças e exploram momentos de crise para consolidar apoio. Já vimos esse padrão antes. E, por isso, já não é possível aceitar tudo de forma automática.

Quando um evento com o presidente, vice-presidente, primeira-dama e altos responsáveis decorre sem medidas básicas de segurança — sem sequer detectores de metais — a pergunta não é exagerada. É necessária.

E há mais.

A noite deveria ter sido também de reconhecimento. Prémios de jornalismo estavam previstos, incluindo distinções pelo trabalho sobre os ficheiros de Jeffrey Epstein — uma das histórias mais sensíveis e incómodas da atualidade.

Esses prémios não foram entregues. O evento foi interrompido. O foco mudou. E fica no ar uma questão desconfortável: quem beneficia? Quem ganha com uma noite dominada pelo caos, em vez da atenção ao jornalismo e à responsabilização?

Ao mesmo tempo, há um contraste difícil de ignorar. Dias antes, um tiroteio em massa fez vítimas no país — e passou quase despercebido. Sem discursos, sem comoção prolongada, sem mobilização política.

Quando a violência atinge cidadãos anónimos, o silêncio instala-se. Quando toca o poder, transforma-se em espetáculo mediático.

E isso levanta uma pergunta inevitável: onde estava esta urgência antes? A cobertura mediática seguiu o guião habitual: dramatização intensa, atenção total, reverência implícita. Mas, mais uma vez, falhou no essencial — fazer perguntas difíceis. A imprensa, que deveria ser protagonista, acabou por ser figurante.

Ainda assim, nem tudo está perdido. O jornalismo independente continua a existir. Há quem questione, quem insista, quem recuse aceitar versões convenientes sem escrutínio. E talvez seja isso que mais importa agora.

Porque, quando a confiança desaparece, resta a vigilância. Quando as respostas falham, restam as perguntas. E quando algo parece não bater certo, talvez seja precisamente esse desconforto o ponto de partida.

Continuar a perguntar pode não dar respostas imediatas. Mas é, quase sempre, o primeiro passo para encontrá-las”.

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