ADMITAM QUE FALHARAM NO AEROPORTO DA CATUMBELA

SAMPAIO JÚNIOR

Aeroporto Internacional da Catumbela corre o sério risco de ficar obsoleto antes mesmo de cumprir, em pleno, a sua missão internacional. Seria talvez sensato que o ministro dos Transportes, Ricardo Viegas D’Abreu, que trabalhou esta terça-feira (19) em Benguela, começasse por pedir desculpas à Nação pelo estado quase terminal de uma infraestrutura que caminha para o empobrecimento acelerado, enquanto o discurso oficial continua a vender ilusões confortáveis sobre um suposto “hub” estratégico do Corredor do Lobito.

Porque uma coisa é sonhar alto, outra é tentar transformar um aeroporto às escuras, numa unidade aeroportuária internacional. 

O Aeroporto da Catumbela é, sem dúvida, um património importante, daqueles que poderiam dar muito ao país se houvesse visão “fora da caixa” e uma gestão minimamente prudente. Mas, por cá, parece que o plano estratégico sempre foi outro: primeiro inaugura-se com pompa; depois improvisa-se com geradores, e por fim, entrega-se tudo à misericórdia divina e ao bidão de gasóleo.

Durante anos, a infraestrutura funcionou à base de geradores eléctricos, numa solução “alternativa” que a antiga gestão da ex-ENANA encontrou para manter o aeroporto operacional. Era a  forma de meter alguns nos bolsos. Quando a torneira secou, já na era do Presidente João Lourenço, ligaram, finalmente, o aeroporto à rede pública de energia. 

Só que, agora, ironia das ironias, uma avaria no sistema de alimentação deixou novamente as instalações às escuras. Nos últimos dias, os actuais gestores têm sido vistos numa verdadeira maratona logística, de cima para baixo com bidons para alimentar os geradores. Parece mais um pit stop do Dakar do que a gestão de um aeroporto internacional.

E é neste cenário ‘cinematográfico’ que se fala em voos para Joanesburgo, Cidade do Cabo e até charter para a Europa. A este ritmo, o primeiro voo internacional poderá sair, mas com os passageiros a levarem ventoinhas de casa para a sala de embarque. O sistema de refrigeração pifou.

As mangas também já não funcionam, situação que se arrasta alguns anos.  Há portas que simplesmente desistiram da vida pública, e fecharam-se definitivamente. A manutenção desapareceu.

Mesmo assim, durante a reunião técnica realizada no dia 19 de Maio entre o governador provincial de Benguela, Manuel Nunes Júnior, e o ministro Ricardo D’Abreu, discutiram-se projectos ambiciosos ligados à dinamização do Aeroporto Internacional Paulo Teixeira Jorge, e ao desenvolvimento estratégico do Corredor do Lobito.

Entre as grandes promessas, destacam-se novas rotas internacionais para a África do Sul, no trajecto Luanda–Catumbela–Joanesburgo e Cidade do Cabo, além de estudos para voos charter rumo à Europa. Estamos aqui para ver com estes olhos, porque os ouvidos já ouviram de tudo.

O velho, Paulo Teixeira Jorge, cujo nome baptiza o aeroporto, deve andar aos tombos na tumba ao ver o estado da obra. Deram-lhe o nome, mas esqueceram-se de honrar o legado.

Fala-se de uma plataforma regional integrada de mobilidade, turismo e logística, articulada com o Corredor do Lobito. O discurso é bonito, cheio de palavras modernas, “conectividade”, “integração económica”, “desenvolvimento sustentável”. 

É verdade que Benguela possui enorme potencial turístico, uma vasta rede hoteleira e atractivos naturais, culturais e gastronómicos capazes de atrair visitantes. Mas, turismo também exige credibilidade, organização e infraestruturas minimamente funcionais. Não basta anunciar voos internacionais enquanto os passageiros fazem sauna involuntária na sala de embarque.

A reunião também defendeu maior articulação entre Benguela, Huíla, Namibe, Cunene, Huambo, Bié, Cubango e Cuando, além da criação de um Programa Regional de Rotas. A ideia até faz sentido. O problema é que, antes de sonhar com integração regional, talvez fosse prudente garantir que as luzes do aeroporto não dependam de um funcionário carregando bidons de combustível.

Porque, no fim das contas, há muito marketing aéreo para pouca pista operacional. Muito “hub” para pouca lâmpada.

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