ÉTICA, MORAL E COMPETÊNCIA: O TRIPÉ QUE SUSTENTA (OU DESTRÓI) A GOVERNAÇÃO EM ANGOLA

POR JOAQUIM JAIME

A mudança começa hoje. E começa connosco. O diagnóstico já foi feito. As leis já foram escritas. Falta a acção. E a acção, ao contrário das leis e dos diagnósticos, depende de cada um de nós — cidadãos, governantes, juízes, administradores, professores, estudantes.

A corrupção em Angola “ganhou proporções alarmantes (…) tornou-se sistémica e chegou atingir níveis na sociedade angolana que podem ser considerados endémicos“. Esta não é uma afirmação de um cidadão comum frustrado com o estado do país, nem de uma organização não-governamental crítica ao governo. É o diagnóstico oficial, expresso no preâmbulo da Estratégia Nacional de Prevenção e Repressão da Corrupção 2024-2027, aprovada pelo próprio Governo angolano. O documento não hesita em reconhecer que a corrupção  contribuiu para adegradação social, privou os cidadãos do acesso a vários serviços, enfraqueceu as instituições, gerando uma desconfiança generalizada dos cidadãos, do ponto de vista do seu desempenho”.

Este diagnóstico oficial é um momento de viragem. Finalmente, assume-se, sem rodeios, que o problema é sistémico. Mas reconhecer o problema é apenas o primeiro passo. A questão crucial é: o que fazer? E mais ainda: que falhas estruturais permitiram que a corrupção se tornasse sistémica?

A resposta, sustento, reside na degradação de três pilares fundamentais da governação: a éticaa moral e a competência. Estes três elementos — quando presentes — sustentam uma gestão pública funcional, legítima e eficaz. Quando ausentes ou desarticulados, conduzem inexoravelmente ao colapso institucional e à miséria social.

O “porquê” e o “como”: o papel da ética e da moral

Comecemos pela distinção fundamental. A moral é o conjunto de valores partilhados por uma sociedade — aquilo que, num dado contexto cultural, se considera certo ou errado. A ética, por seu turno, é a reflexão racional e crítica sobre esses valores, a sua aplicação consciente e fundamentada no exercício do poder.

Um governo ético não é apenas um governo que cumpre a lei — embora isso seja o mínimo exigível. É um governo que age com transparência, que presta contas, que subordina os interesses privados ao bem comum. Como ensinou o filósofo Immanuel Kant no seu célebre princípio da publicidade, “são injustas todas as acções que se referem ao direito de outros homens, cujas máximas não se harmonizem com a publicidade”. Traduzindo: uma decisão que não pode ser tornada pública, que não resiste ao escrutínio da luz do dia, é, por definição, uma decisão injusta.

Quando a ética está presente na governação, a corrupção é contida, a confiança institucional é fortalecida e a cobrança de impostos flui melhor. Quando a ética está ausente — como reconhece a Estratégia Nacional —, os recursos públicos são desviados para bolsos privados, os serviços básicos entram em colapso e a desconfiança generaliza-se.

Mas há um perigo subtil que a doutrina contemporânea tem alertado: o da moral sem institucionalização ética. A constitucionalista brasileira Eneida Desiree Salgado descreve este fenómeno como populismo decisório: “os mecanismos de controlos recíprocos e a garantia de aplicação das regras jurídicas apresentam falhas, em franca negação à supremacia constitucional. Um novo agente de ataque ao constitucionalismo surge: o Poder Judiciário que actua segundo a moralidade subjectiva dos seus agentes”.

O que significa isto no contexto angolano? Significa que apelar à “moralidade social” ou à “vontade do povo” para justificar o desrespeito pela lei é tão perigoso quanto a corrupção descarada. O populismo — essa ideologia moralista, emocional e anti-intelectual — contorna as instituições, despreza os procedimentos e concentra poder em líderes que se arvoram em intérpretes exclusivos da consciência popular. E o resultado é o arbítrio, a instabilidade e, paradoxalmente, a erosão da própria legitimidade que se pretendia construir.

O “fazer acontecer”: a competência como condição de eficácia

Tráfico de combustível na fronteira norte. Um caso que continua por esclarecer, apesar de colocado directamente ao Presidente da República, que criou uma comissão mas, decorrido quase um ano após a denúncia, apesar da redução, continua por esclarecer.

Não basta ser honesto. É preciso saber gerir.

Um governo pode ter a melhor das intenções, pode ser irrepreensível do ponto de vista ético, mas se não tiver competência técnica para transformar intenções em resultados, o povo continuará a sofrer com hospitais sem medicamentos, escolas sem professores e estradas intransitáveis.

A incompetência administrativa assume múltiplas formas. A imperícia — a falta de técnica para realizar determinada actividade. A negligência — o desleixo, o descuido, a omissão no cumprimento do dever. A imprudência — a falta de cautela, a incapacidade de antecipar o mal que se deveria prever.

Estes vícios da acção administrativa não são menos prejudiciais do que a corrupção. Um gestor incompetente desperdiça recursos públicos, atrasa projectos, compromete a qualidade dos serviços. Na prática, o impacto negativo sobre a população é equivalente — ou até superior — ao da corrupção, porque a incompetência, ao contrário da corrupção, muitas vezes não é punida. É tolerada como “falta de capacidade” ou “falta de experiência”.

A doutrina da administração pública tem alertado para este problema há mais de um século. Woodrow Wilson, um dos fundadores da ciência da administração pública, defendeu que a administração deve ser profissional, eficiente e baseada em critérios técnicos. A abordagem da Nova Gestão Pública, desenvolvida a partir dos anos 1980, reforçou a necessidade de orientação para resultados, avaliação de desempenho e responsabilização.

Em Angola, temos um quadro normativo que, pelo menos no papel, promove a competência. A Lei de Bases da Função Pública (Lei n.º 26/22) estabelece o mérito e a competência como critérios estruturantes do acesso e progressão na função pública. O Código do Procedimento Administrativo (Lei n.º 31/22) impõe o dever de boa administração. Mas entre a norma e a prática vai uma distância enorme.

A falta de um dos pilares e o desmoronamento

A experiência nacional e internacional ensina-nos que os três pilares são interdependentes.

Ética sem competência gera um governo de “boas intenções”, mas inoperante. As promessas são sinceras, mas os problemas concretos — saúde, educação, desemprego, habitação e segurança — não são resolvidos. Como advertiu Sócrates, analisado por Louis-André Dorion“o conhecimento que garante a felicidade individual e colectiva não é o saber técnico, que pode, no máximo, garantir a prosperidade material, mas o saber moral”. Contudo, o mesmo Sócrates rejeitava “a perspectiva de uma cidade tecnocrática, onde o único imperativo que preside à actividade técnica é o da competência”. Nem só de virtude se faz a boa governação; é preciso também saber fazer.

Competência sem ética gera um governo tecnocrata ou autoritário. Pode haver crescimento económico, obras faraónicas, indicadores macro-económicos favoráveis — mas a um custo humano alto, com injustiça social, repressão e falta de transparência. Max Weber alertou para este perigo: quem faz política aspira ao poder, e o poder sem responsabilização ética degenera em abuso.

Moral sem institucionalização ética — o populismo decisório — gera instabilidade e arbítrio. As decisões são tomadas com base em apelos emocionais, contornando os procedimentos legalmente estabelecidos. O jurista brasileiro Emerson Gabardo alerta para os “perigos do moralismo político” e a necessidade de “defesa do direito posto na Constituição”. Porque, quando cada governante decide segundo a sua própria “moralidade subjectiva”, o Estado de Direito deixa de existir.

Quando um governo alinha os três pilares — actua com integridade ética, respeito pelos valores sociais e competênciatécnica —, o resultado é o desenvolvimento sustentável. A competência garante que os recursos cheguem onde são necessários; a ética garante que esses recursos sejam usados para o bem comum; a moral assegura a legitimidade social das opções políticas. O impacto positivo manifesta-se na estabilidade social, na redução da polarização e no aumento da qualidade de vida.

Angola tem as leis — falta a cultura, a vontade e a pedagogia

Se consultarmos o ordenamento jurídico angolano, encontramos um quadro normativo razoavelmente robusto. A Constituição de 2010 consagra, no seu artigo 198.º, os princípios da igualdade, legalidade, justiça, proporcionalidade, imparcialidade, responsabilidade, probidade administrativa e respeito pelos bens públicos.

Resolução n.º 27/94 aprovou o Código de Ética e a Pauta Deontológica do Serviço Público, focando-se na integridade, eficiência e interesse público. A Lei de Bases da Função Pública (Lei n.º 26/22) estabelece o mérito como critério estruturante. O Código do Procedimento Administrativo (Lei n.º 31/22) impõe o dever de boa administração. O Código Penal (Lei n.º 38/20, alterado pela Lei n.º 12/24) tipifica os crimes de corrupção, peculato e abuso de poder.

Temos as leis. O que nos falta é a cultura de aplicação e a vontade política de as fazer cumprir.

O jurista angolano Carlos Feijó tem defendido consistentemente a implementação de regras normativas de compliance no sector público angolano, como mecanismo para o fortalecimento da boa governação e da transparência administrativa. Feijó afirma que “é essencial estruturar o Public Compliance como instrumento de boa administração, prevenindo irregularidades e fortalecendo a legalidade na gestão pública”. Mas o compliance não é apenas um conjunto de procedimentos burocráticos. É, antes de mais, uma mudança cultural.

Há, contudo, vozes que têm apostado nessa mudança. António Pitra Neto, jurista e antigo titular da pasta da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, tem desenvolvido uma intensa actividade na promoção da ética e deontologia. Na sua obra “Resumos sobre Matérias de Direito Administrativo”, o autor afirma que o seu propósito é introduzir os estudantes no estudo da cadeira de Direito Administrativo e posicioná-los com certa clareza sobre os fundamentos em que se alicerçam os principais vectores desse domínio do saber jurídico. Reconhecendo a complexidade da matéria, Pitra Neto admite que “para quem toma contacto pela primeira vez com o estudo da Direito Administrativo, nem sempre se apresenta pouco fácil apreender o embrião principal deste quadrante do saber jurídico”.

Enquanto governante, Pitra Neto apostou na pedagogia social e no civismo. O Ministério apresentou manuais práticos sobre civismo e contributos sobre ética e deontologia. O governante expressou a esperança de que “os destinatários principais dos manuais possam delas colher o melhor proveito para o aperfeiçoamento constante que todos são chamados a promover, quer no plano pessoal, quer no domínio colectivo”.

Esta é, talvez, a chave mais importante para a transformação sustentável. Porque a ética e a competência não se decretam. Não se impõem por portaria ou por lei penal, por mais severa que seja. Constróem-se através da educação, da formação contínua, da pedagogia social, da criação de uma cultura de integridade que começa nas escolas e se prolonga ao longo de toda a vida profissional.

Os desafios 

Apesar dos avanços normativos e das iniciativas de pedagogia social, Angola enfrenta desafios estruturais significativos.

Corrupção generalizada e impunidade: o diagnóstico oficial é claro. A corrupção é sistémica. E, o que é pior, a percepção generalizada de impunidade para os actos de corrupção de alta escala compromete a confiança nas instituições. Os casos mediáticos — de altos funcionários da Direcção Nacional do Património do Estado (DNPE), em alegado conluio com elementos da Direcção de Investigação de Ilícitos Penais (DIIP), acusados de usar indevidamente o nome do Presidente da República, João Lourenço, para promover a desapropriação de residências privadas em vários condomínios da província de Luanda, em nome do Estado angolano — são a ponta do icebergue.

Fragilidade institucional: as instituições de controlo — Tribunal de ContasProcuradoria-Geral da República, Inspeção-Geral da Administração do Estado — enfrentam desafios de capacidade técnica, independência e recursos. A desorientação política gerada pela incompetência administrativa produz um “vazio ideológico” onde o Estado não consegue dar respostas céleres aos problemas quotidianos.

Défices de capacidade técnica: a administração pública angolana enfrenta défices significativos de capacidade técnica, manifestados na dificuldade de formulação e implementação de políticas públicas complexas, na gestão ineficiente de recursos e na burocracia excessiva.

Desalinhamento entre norma e prática: existe frequentemente um desfasamento entre o quadro normativo formal e as práticas efectivas da administração pública. Este desalinhamento gera crises de confiança, protestos e erosão da autoridade política.

A construção da estrada que liga Benguela a Moçâmedes, passando pela Lucira, que reduz a distância entre as duas províncias, já leva mais de duas décadas e está ainda longe da conclusão, apesar dos elevados recursos já consumidos.

que fazer? Um roteiro para a mudança

Não bastou reconhecer oficialmente que a corrupção é sistémica. É preciso agir. Proponho, em conclusão, um roteiro minimalista mas estruturante:

Primeiro: reforçar a formação técnica dos quadros da administração pública. Combater a imperícia, a negligência e a imprudência através de programas exigentes de qualificação profissional e avaliação de desempenho.

Segundo: fortalecer as instituições de controlo, dotando-as de independência efectiva, recursos adequados e competências reforçadas. Sem instituições fortes, as leis são letra morta.

Terceiro: promover uma cultura de ética pública, mediante programas de educação e sensibilização que internalizem os valores da integridade e transparência. A pedagogia social iniciada por Pitra Neto deve ser expandida e aprofundada.

Quarto: consolidar o sistema de justiça, assegurando a responsabilização efectiva dos agentes públicos por actos ilícitos. A impunidade é o maior incentivo à corrupção.

Quinto: criar mecanismos de participação cidadã no controlo da gestão pública, reforçando a accountability social. A transparência não é apenas um dever do Estado — é também um direito do cidadão.

Conclusão

A ética, a moral e a competência não são princípios abstratos ou adornos retóricos. São a espinha dorsal de um governo que funcione, que sirva o povo e que mereça a sua confiança.

Em Angola, temos o diagnóstico — e é corajoso. Temos as leis — e são, na sua maioria, adequadas. Falta-nos, em larga medida, a implementação efectiva, a cultura de integridade e a vontade política inflexível de fazer cumprir.

Como ensinou Immanuel Kant“são injustas todas as acções que se referem ao direito de outros homens, cujas máximas não se harmonizem com a publicidade”. Como afirmou António Pitra Neto, o aperfeiçoamento é um processo constante, a que todos são chamados a promover, “quer no plano pessoal, quer no domínio colectivo”.

O futuro de Angola — a qualidade de vida dos seus cidadãos, a estabilidade das suas instituições, a legitimidade dos seus governantes — depende da nossa capacidade colectiva de construir uma governação que seja, simultaneamente, ética, moralmente legítima e tecnicamente competente.

A escolha, no fundo, é simples: ou construímos este tripé, ou continuaremos a assistir ao colapso anunciado. O diagnóstico já foi feito. As leis já foram escritas. Falta a acção. E a acção, ao contrário das leis e dos diagnósticos, depende de cada um de nós — cidadãos, governantes, juízes, administradores, professores, estudantes.

A mudança começa hoje. E começa connosco.

Legenda (foto de abertura): A construção do Centro de Convenções da Chicala é um im investimento que não se enquadra nas prioridades que a Nação tem. E constituição uma exemplo de falta de ética e de má aplicação de recursos públicos, diante de tantas prioridades que o país tem.

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