A RELAÇÃO QUE ESTABELECEMOS COM O MUNDO VIRTUAL

RECADOS DA CESALTINA ABREU (101)

Sabe a diferença entre o virtual e a vida? Um deles é real.

O mundo virtual é uma representação, uma extensão da nossa realidade mediada por tecnologias, enquanto a vida – o mundo físico – é a experiência sensorial, táctil e directa que vivenciamos no momento presente.

Entendo que a principal diferença entre ambos reside na fisicalidade e nas consequências dos nossos actos:

•⁠  ⁠A Vida (o Real) : é feita de matéria, de tempo linear e de consequências irreversíveis. Envolve plenamente os nossos cinco sentidos — visão, audição, paladar, olfato e tacto. É o olhar, o som, o toque, o sabor, o calor do sol e a presença física das pessoas ao nosso redor. É também o espaço onde construímos o nosso legado e cultivamos as relações mais profundas;

•⁠  ⁠O Virtual: é construído por dados, códigos e ecrãs. Permite-nos ultrapassar barreiras geográficas e temporais, conectar instantaneamente com pessoas distantes, e aceder a uma quantidade praticamente infinita de informação. Contudo, por mais imersivo que seja – como nas experiências de realidade virtual ou no metaverso – carece da materialidade do mundo real. Além disso, proporciona frequentemente uma sensação de controlo e de distanciamento que a vida concreta não oferece.

Nesta perspectiva, e no momento actual, a fronteira entre os dois mundos torna-se cada vez mais ténue. Ainda assim, a essência permanece: o virtual é uma ferramenta e um espaço para onde levamos a nossa imaginação; a vida é o palco principal da nossa existência.

Contudo, há quem pense de forma diferente. O filósofo, cientista e escritor australiano David Chalmers, autor de Reality+, gerou acaloradas discussões nos dois mundos – o real e o digital – ao questionar o que é, afinal, real e o que é virtual, defendendo que é possível viver vidas plenas e significativas num universo inteiramente digital. Segundo ele: “Não há diferença entre realidade física e virtual. Quem garante que já não estamos a viver no metaverso?”.

O título Reality+ (2022) remete precisamente para a ideia de múltiplas realidades, todas potencialmente válidas. Chalmers tornou-se conhecido pelos seus estudos sobre a consciência, apresentados em The Conscious Mind, e pelo seu trabalho no Centro da Mente, Cérebro e Consciência da New York University, onde também lecciona. A sua notoriedade cresceu quando passou a aplicar o pensamento filosófico à compreensão das novas tecnologias, numa abordagem que designa por tecnofilosofia . Como afirmou numa entrevista à revista Época Negócios (15 de Agosto de 2022): “É uma via de mão dupla. Com as ferramentas da filosofia, consigo enxergar as novas tecnologias com um olhar totalmente novo, enquanto a tecnologia fornece instrumentos para pensar temas fundamentais da existência humana”.

Pessoalmente, acredito que a vida real é muito mais do que aquilo que mostramos ou fazemos nas redes sociais . Subscrevo a reflexão de Zygmunt Bauman: “Tudo é mais fácil na vida virtual, mas perdemos a arte das relações sociais e da amizade”. Embora dedique uma parte significativa do meu tempo à pesquisa em plataformas digitais e recorra a diversas ferramentas tecnológicas, procuro evitar a dependência e preservar o equilíbrio.

Desejando saúde, cuidados e coragem nesta quinta-feira, atrevo-me a sugerir que avaliemos qual destas dimensões tem consumido mais o nosso tempo, ultimamente. E como nos sentimos em relação à resposta? O que essa resposta nos diz sobre a vida que estamos a construir?

Não se trata de escolher entre o real e o virtual, mas de perceber se estamos a usar a tecnologia ou se, sem nos darmos conta, ela está a usar o nosso tempo. Não é uma simples oposição entre “vida real boa” e “mundo virtual mau”. A questão não é a tecnologia em si – ela é extraordinária e indispensável em muitos aspectos da nossa vida. A questão é a relação que estabelecemos com ela. Estamos a usar as ferramentas digitais para enriquecer a nossa vida ou estamos a deixar que elas determinem a forma como vivemos o nosso tempo, a nossa atenção e as nossas relações?

O irónico, é que esta troca de ideias acontece precisamente através das tecnologias que nos conectam. O problema não é estar no mundo virtual; é esquecer-nos de regressar ao mundo onde o sol aquece a pele, os amigos têm rosto e as escolhas têm consequências.

O desafio do nosso tempo talvez não seja escolher entre o real e o virtual, mas não perder a capacidade de distinguir qual deles está a orientar a nossa vida

Kandando daqui!

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