Talvez seja necessário adaptar o lema à realidade nacional: os autocarros ardem, as estradas matam, a inflação aperta, o desemprego sufoca, a pobreza aumenta e o cidadão continua à espera de respostas.

A forma como o Executivo tem encarado, com aparente indiferença, a sucessão de incêndios envolvendo autocarros de grande parte das operadoras “oficiais” de transporte de passageiros no país, constitui um sério erro político e, sobretudo, uma questão de responsabilidade pública que não deveria ser tratada como um simples episódio ocasional. Quando veículos destinados ao transporte colectivo de cidadãos se transformam repetidamente em verdadeiras armadilhas sobre rodas, colocando em risco a vida de centenas de passageiros, não estamos perante uma mera questão empresarial ou mecânica. Estamos diante de um problema de segurança pública, de fiscalização e de protecção da vida humana.
Este Executivo já acumulou ao longo dos anos um número considerável de decisões controversas, e parece agora disposto a acrescentar mais um “pino” à longa lista, particularmente com a crescente utilização da modalidade dos ajustes directos, que suscita legítimas interrogações sobre a transparência e a gestão dos recursos públicos. Enquanto isso, permanece a sensação de que o Estado demonstra maior preocupação com grandes projectos, anúncios e obras de visibilidade política, do que com problemas concretos que afectam diariamente o cidadão comum. O “forno” parece ter mudado de lugar. Já não está apenas nas cozinhas, mas também em determinados autocarros que circulam pelas estradas nacionais, transportando pessoas que não têm outra alternativa para chegar ao trabalho, ao mercado, à escola ou às suas famílias.
Os casos envolvendo autocarros de empresas como a Macon, Huambo Express e outras operadoras deveriam merecer uma resposta firme das autoridades competentes. Não basta lamentar depois de cada tragédia. É necessário investigar, apurar responsabilidades e verificar as condições técnicas dos veículos, os planos de manutenção, a fiscalização realizada pelas entidades públicas e o cumprimento das normas de segurança. Quando vidas humanas são perdidas e, posteriormente, tudo parece regressar à normalidade? Cria-se no cidadão a perigosa percepção de que a vida humana passou a valer menos do que a continuidade de um serviço, ou os interesses económicos de determinadas empresas.
Os angolanos, entretanto, continuam obrigados a utilizar estes meios de transporte. Não porque confiem cegamente na qualidade dos autocarros, mas porque, para muitos, simplesmente não existe alternativa. A dureza da vida económica empurra diariamente milhares de cidadãos para estradas e transportes colectivos em busca do sustento. A inflação reduz o poder de compra das famílias, os salários perdem valor perante o aumento constante dos preços e muitos agregados familiares, chegam ao fim do mês já sem saber como transformar o pouco rendimento disponível em comida, transporte, medicamentos e educação.
A falta de emprego agrava ainda mais esta realidade. Há cidadãos que são obrigados a percorrer longas distâncias até às zonas rurais, para adquirir produtos que depois revendem nos centros urbanos, numa verdadeira economia de sobrevivência. Fazem-no não por espírito aventureiro, mas porque precisam de colocar alguma coisa na mesa. Viajam em condições difíceis, enfrentam estradas degradadas e dependem de meios de transporte cuja segurança deveria ser uma obrigação elementar do Estado e das empresas concessionárias.
É precisamente por isso que o Executivo deveria ‘ganhar juízo’ e adoptar uma política mais rigorosa, de fiscalização das operadoras de transporte colectivo. Os proprietários das empresas devem ser obrigados a investir seriamente na manutenção e renovação das suas frotas. Não pode prevalecer a lógica segundo a qual um autocarro continua a circular, enquanto ainda conseguir transportar passageiros e gerar receita. Transporte público não é apenas um negócio. Envolve vidas humanas.
Mas a responsabilidade não termina nas empresas. O Estado também tem a sua quota-parte de responsabilidade. Estradas em más condições, sinalização deficiente, iluminação insuficiente em determinados troços, fiscalização irregular e uma manutenção rodoviária que muitas vezes não acompanha as necessidades do país, contribuem para aumentar os riscos. Não se pode exigir segurança aos transportadores, quando o próprio Estado não consegue garantir, de forma satisfatória, as condições técnicas e de segurança da rede rodoviária.
E aqui surge uma questão inevitável: quais são, afinal, as prioridades do país? Enquanto milhares de angolanos lutam diariamente contra a pobreza, o desemprego, a inflação e a precariedade dos serviços básicos, continuam a surgir projectos de grande dimensão e elevado custo, que levantam dúvidas quanto à sua urgência e utilidade social. É legítimo questionar se a construção de determinados “mamarrachos”, como o Palácio de Convenções da Chicala, deve merecer prioridade num país onde ainda existem enormes dificuldades no acesso a serviços essenciais.
Não se trata de ser contra o desenvolvimento, contra as grandes obras ou contra a modernização de Luanda e de outras cidades. Trata-se de perguntar, se o desenvolvimento deve começar pelo que dá mais fotografia, ou se pelo que resolve os problemas mais urgentes da população. Um país não se desenvolve apenas com edifícios monumentais, centros de convenções e cerimónias de inauguração. Desenvolve-se sobretudo quando o cidadão consegue viver com dignidade, quando há emprego, quando existe comida à mesa, quando as estradas são transitáveis, quando os hospitais funcionam e quando entrar num autocarro, não representa uma preocupação adicional para quem já enfrenta uma vida suficientemente difícil.
O combate à pobreza deveria ocupar o centro das prioridades nacionais. O cerco à miséria económica aperta todos os dias e, perante esta realidade, torna-se difícil compreender determinadas opções políticas e orçamentais. O cidadão comum não vive de discursos nem de inaugurações. Vive de salário, de pequenos negócios, da agricultura, do comércio informal e, muitas vezes, da solidariedade familiar. Quando essas fontes de rendimento não chegam, a pobreza deixa de ser uma estatística e transforma-se numa realidade concreta dentro de cada casa.
É necessário mais competência, mais fiscalização, mais transparência, mais humildade e, sobretudo, maior capacidade de ouvir aquilo que o cidadão está a dizer nas ruas.
O actual modelo de governação, sofrível em vários aspectos, parece encontrar enormes dificuldades para responder à dimensão da tragédia social que se vai instalando silenciosamente. A indignação popular cresce porque as pessoas sentem que os seus problemas se repetem, sem respostas suficientemente eficazes. Quando um autocarro incendeia, lamenta-se. Quando outro acidente acontece, promete-se investigar. Quando uma estrada provoca mais uma tragédia, anuncia-se intervenção. E depois, muitas vezes, tudo fica ou volta ao mesmo.
É precisamente nesta repetição que reside o perigo político. O povo pode tolerar dificuldades durante algum tempo, mas, dificilmente tolera indefinidamente a sensação de abandono, de injustiça e de ausência de respostas. A irritação social cresce quando o cidadão vê grandes investimentos públicos, enquanto continua a enfrentar dificuldades elementares para sobreviver.
Falta, portanto, inteligência política para antecipar os problemas, competência administrativa para resolvê-los, fiscalização para responsabilizar quem falha e humildade para reconhecer que nem tudo está bem. O povo está cada vez mais irado e intolerante com o despautério governativo. E quando a indignação se acumula, não deve ser confundida com simples ruído das redes sociais ou com uma manifestação passageira de descontentamento. É um sinal político que qualquer Executivo responsável deveria saber interpretar.
No meio de tudo isto, resta-nos quase recorrer ao famoso lema: “Hakuna Matata!” não há problemas! A expressão, popularizada mundialmente pelo filme O Rei Leão, transmite a ideia de deixar as preocupações para trás e seguir a vida.
Só que, em Angola, talvez seja necessário adaptar o lema à realidade nacional: os autocarros ardem, as estradas matam, a inflação aperta, o desemprego sufoca, a pobreza aumenta e o cidadão continua à espera de respostas.
Hakuna Matata!










