
Introdução
No ano de 2006, durante a troca do pároco da igreja do Sacramento, na vila de Itaparica, na Bahia, o que ia sair pediu para que dona Clara se desfizesse de tudo o que estava guardado num quartinho dos fundos da casa paroquial que, com pena de deitar fora, pediu para levar para sua casa, principalmente as revistas. Aproveitou para levar uma pilha de papéis para que o seu filhote de 6 anos pudesse desenhar no lado não escrito das folhas. A pilha de papéis manuscritos, já amarelados pelo tempo, redigidos em português arcaico, mas salpicados de expressões iorubás e palavras de origem africana cuja grafia denunciava uma oralidade ainda viva. A letra, firme e miudinha, pertencia a uma mulher que se apresentava como Kehinde, nascida no reino de Daomé, arrancada da sua terra ainda menina, ao lado da sua irmã gémea, Taiwo, e da avó.
Kehinde e Taiwo, as duas metades de um mesmo ser, segundo a crença iorubá que as unia desde o ventre materno, eram mais do que irmãs: eram o espelho uma da outra, a complementaridade perfeita que a filosofia nagô consagra no conceito de ibêji. A sua captura, narrada com minúcia dolorosa nas primeiras folhas, não foi apenas um acto de violência física, mas um golpe desferido contra a própria ordem cósmica que as regia. Taiwo, a mais velha e a mais audaz, pereceu durante a travessia do Atlântico, vítima da fome e das doenças que assolavam o porão do navio negreiro. A avó, guardiã da memória e dos segredos da linhagem, foi atirada ao mar como lastro inútil, poucos dias antes de aportarem em terras brasileiras. Kehinde, a sobrevivente, carregou para o resto da vida o peso de ter sido despojada da sua outra metade, e foi esse peso que a levou a pegar na pena, já nos anos de liberdade, para registar a história que as máquinas do esquecimento teimavam em apagar.
O diário de Kehinde, descoberto por um feliz acaso, é um documento de resistência e de denúncia. Nele, a ex-escrava não se limita a narrar as sevícias e os tormentos que sofreu nas mãos dos senhores de engenho; ela desmonta, com uma lucidez impressionante, a lógica perversa que sustentava todo o sistema esclavagista. A sua escrita revela como os seus algozes a tratavam não como ser humano, mas como peça de um mecanismo de produção, como gado para o trabalho, como corpo para a procriação e como objecto para o prazer. Ao fazê-lo, Kehinde legou-nos, sem saber, uma chave para descortinar as estruturas de poder que, séculos depois, continuam a operar sob novas formas, mantendo as antigas colónias africanas e latino-americanas reféns de um sistema económico e político que as explora, as subalterniza e as silencia, tal como outrora o senhor esclavagista explorava, subalternizava e silenciava as manas gémeas e a sua avó.
Exorcizando o espectro do colonialismo
Quando as manas gémeas Kehinde e Taiwo, acompanhadas pela avó, são violentamente arrancadas do solo iorubá[1] e atiradas para o porão infecto do navio negreiro, a sua humanidade é reduzida a uma mera cotação no mercado de almas. O olhar do senhor esclavagista, frio e calculista, não vê nelas parentesco, memória ou divindade; vê apenas força bruta para a moenda, carne para o tráfico, um número no livro de registo. Este olhar, que eu aqui me proponho exorcizar, não morreu com a abolição. Transfigurado, persiste nos corredores do Fundo Monetário Internacional, nas salas de reuniões das multinacionais e nas estratégias geopolíticas do Norte Global, que mantêm as ex-colónias africanas e latino-americanas reféns de uma grilheta dourada.A partir do diário deixado por Kehinde, Ana Maria Gonçalves, em “Um defeito de cor”, descreve a captura de Taiwo e da sua avó como símbolo do momento zero da coisificação. A avó, por ser velha e resistente, é eliminada ainda na travessia: o seu corpo é atirado ao mar como lastro inútil. Taiwo, a outra metade do ibêji[2], morre de desgosto e fome, separada da irmã. O senhor esclavagista não se importa com a morte delas; importa-se apenas com a quebra do carregamento. Do mesmo modo, o Norte Global trata as nações do Sul como fornecedoras de matéria-prima e mão-de-obra barata, descartando-as quando a extracção deixa de ser óptima para o seu interesse. A dívida externa, imposta com juros usurários, funciona como a corrente de ferro que imobilizava as gémeas. Quando um país africano ou latino-americano tenta respirar, as agências de rating e os credores internacionais apertam o garrote, forçando políticas de austeridade que ceifam vidas e esperanças, tal como o capataz cortava os mais fracos com o seu chicote.
A violência não se restringe ao físico. O senhor esclavagista impunha o baptismo forçado, roubava os nomes e proibia as línguas maternas, num acto de profunda extinção cultural. Hoje, o Norte Global exerce a mesma violência simbólica: impõe a sua visão única de desenvolvimento, despreza os saberes endógenos, e dita os modelos económicos e educativos que servem os seus interesses, não as necessidades locais.
A exploração do lítio na Bolívia, do coltan no Congo, ou do petróleo na Nigéria, repete a lógica das plantações: extrai-se a riqueza, devolvendo-se a miséria e a instabilidade. As ex-colónias são mantidas na dependência tecnológica e alimentar, condenadas a exportar o que têm de mais precioso e a importar o supérfluo, num ciclo perverso que perpetua a fragmentação social e política: a mesma fragmentação que dilacerou a alma de Kehinde ao perder a sua irmã gémea.
Exorcizar estes comportamentos exige que chamemos os demónios pelo nome. O senhor esclavagista do século XXI veste fato e gravata, mas a sua essência é a mesma: acredita que a vida no Sul Global vale menos, que o sofrimento alheio é um custo aceitável para a manutenção do seu conforto. A guerra por procuração, o financiamento de golpes de Estado e a imposição de barreiras alfandegárias que asfixiam as economias emergentes são a versão moderna do navio tumbeiro[3], que transportam, não corpos, mas a soberania e a dignidade dos povos.Contudo, Kehinde ensina-nos que a resistência é inerente à condição humana. Ela sobrevive, compra a sua alforria e constrói uma vida de riqueza e influência, desafiando todas as previsões do sistema esclavagista. Da mesma forma, os povos africanos e latino-americanos têm resistido, erguendo blocos de cooperação Sul-Sul, renegociando dívidas e resgatando as suas narrativas históricas. Para que o exorcismo seja completo, é imperativo que o Norte Global reconheça que a sua opulência foi edificada sobre os ossos de Taiwo e da sua avó, e que a única forma de quebrar o cativeiro neocolonial é a reparação integral: histórica, económica e moral.
Não basta libertar as correntes físicas; é necessário libertar a mentalidade que as forjou. Enquanto o mundo aceitar, tácita ou explicitamente, que uma ex-colónia deva ser gerida como um recurso e não como uma nação irmã, o fantasma do senhor esclavagista continuará a pairar sobre os nossos dias.
Exorcizemo-lo, pois, com a verdade, a memória e a acção colectiva, para que Kehinde e Taiwo, finalmente, possam descansar em paz, e para que o Sul Global ocupe, por direito próprio, o lugar que lhe foi negado durante séculos.
[1] Também conhecidos como “nagô”, é um grupo étnico da África Ocidental, com mais de 30 milhões de pessoas, concentrados principalmente na Nigéria, Benim e Togo.
[2] É o orixá duplo da mitologia iorubá, que rege os gémeos.
[3] Negreiro.










