ANGOLA NÃO TEM DONO!

SAMPAIO JÚNIOR

Há momentos em que as palavras já não colam. O povo quer liderança com coragem, visão e compromisso sério com o básico. Sejamos pragmáticos: o valor de um líder vê-se nos resultados reais que entrega ao cidadão, e não no tamanho dos seus discursos. O problema é que, em Angola, podes armar o maior telescópio do mundo que, ainda assim, os resultados que impactam na melhoria da condição de vida e no dia-a-dia do cidadão, continuam quase que invisíveis ao olho humano.

Diariamente, a comunicação social do Estado transmite spots com excertos da apresentação do Estado da Nação feita pelo Presidente João Lourenço. É uma estratégia de comunicação que parece ignorar um detalhe fundamental: o cidadão não se revê no discurso presidencial, quando a realidade da sua vida contradiz aquilo que ouve. Tudo devido as incessantes machadadas que atingem este povo.

Quando muito, esses excertos poderão servir de material de estudo nos CAP do MPLA, onde os militantes têm a obrigação partidária de conhecer o conteúdo. Mas, para o cidadão que luta diariamente para colocar comida na mesa, pagar medicamentos e garantir o mínimo de dignidade à família, a repetição de palavras constitui tortura psicologica. Enjoa!

É precisamente aqui que reside o problema: a governação angolana está envolvida numa profunda mácula reputacional. Trata-se de uma mancha na imagem, no bom nome e na credibilidade das instituições perante uma sociedade cada vez mais confrontada com a distância entre as promessas políticas e a realidade.

Os angolanos querem saber por que razão o salário não chega ao fim do mês. Querem compreender, por que motivo tantas famílias vivem permanentemente no limite das suas possibilidades, divididas entre a compra de alimentos, a aquisição de medicamentos, o pagamento dos transportes e outras necessidades básicas. O Presidente da República não sabe disto?

A inflação continua a fazer penar o orçamento familiar. Enquanto alguns membros do Executivo procuram transmitir uma mensagem de alívio económico, anunciando a redução da inflação e a descida dos preços de determinados produtos. Quais produtos, porque os que chegam às nossas mesas não?

Uma redução da taxa de inflação não significa, necessariamente, que os preços tenham baixado. Significa, em termos simples, que podem continuar a subir, embora a um ritmo menor. E é precisamente essa diferença que importa explicar aos cidadãos, em vez de se alimentar expectativas que a realidade quotidiana não confirma.

Não se pode governar apenas com estatísticas quando a fome se mede no prato vazio e a pobreza se senta à mesa com as famílias.

Vamos, por favor, falar com seriedade. O país não pode continuar refém de uma comunicação política que procura vender optimismo, onde a população experimenta dificuldades. O que se passa em Angola é preocupante e, para milhões de cidadãos, profundamente deprimente. Simples assim, Senhor Presidente!

Mas há um detalhe que alguns servidores públicos e políticos parecem esquecer: todo o poder político emana do povo e é exercido nos termos da Constituição.

O poder não é propriedade particular de quem governa. Não pertence a uma família, a um partido, a uma elite económica ou a um grupo de dirigentes que se julgue insubstituível. Angola não tem dono. Angola pertence aos angolanos!

A soberba política pode levar alguns a acreditar que são invencíveis. A arrogância pode fazê-los esquecer que o poder é passageiro. E a falta de humildade pode impedi-los de compreender que nenhuma liderança está acima da vontade popular expressa por meios democráticos.

Por isso, à medida que nos aproximamos das eleições gerais de 2027, importa que os angolanos exerçam o seu direito de voto com consciência, liberdade e sentido de responsabilidade.

Não se trata de alimentar o ódio contra quem pensa diferente, nem de transformar adversários políticos em inimigos. Trata-se de defender o pluralismo, a tolerância, a Constituição e o direito de cada cidadão escolher livremente quem considera capaz de governar melhor.

A democracia não se esgota no voto, mas o voto continua a ser uma das suas mais poderosas expressões.

Defender a democracia significa também exigir transparência, combater a corrupção, rejeitar a intimidação política, respeitar os direitos fundamentais e cobrar resultados a quem exerce funções públicas.

Quem confunde o exercício do poder com a posse do país, precisa de compreender que governar é servir, não dominar; prestar contas, não exigir submissão; ouvir os cidadãos, não procurar silenciar as suas inquietações.

O povo não precisa de governantes que se limitem a repetir que tudo está a melhorar. Precisa de governantes capazes de demonstrar, com resultados verificáveis, que a vida está efectivamente a melhorar.

Senhor Presidente, a pergunta é simples: o cidadão comum reconhece-se no retrato que o Executivo fez do país, na apresentação do Estado da Nação?

Se a percepção for negativa, não será a repetição de spots televisivos que recuperará a confiança perdida. Será necessário reconhecer os problemas, corrigir os erros e apresentar soluções que produzam efeitos concretos na vida das pessoas.

Angola não tem dono!

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