GUINÉ-BISSAU. SISSOCO NA SUA AGONIA POLÍTICA

XAVIER DE FIGUEIREDO

Esfumou-se o sentido de dever que o homem esperava dos que, na sequência do golpe engendrado, deixou como firmes guardiães do seu poder e prontos a estender-lhe uma passadeira vermelha no momento do seu regresso – triunfal como o queria. Mas fecharam-lhe a porta, alegando razões “securitárias”.

Não havia nada a saber. Ante tão convincentes perspectivas de uma derrota eleitoral (era o que os primeiros resultados demonstravam), mandou parar/sabotar o processo de contagem de votos. A seguir engendrou um imaginoso golpe de Estado contra si próprio, no rescaldo do qual partiu para um pretenso exílio.  Em seu lugar, no “comando do país”, deixou dúzias de indefectíveis “preparados” para lhe devolverem o poder quando decidisse regressar do seu exílio.

Umaru Sissoco Embaló, o General-Presidente da Guiné-Bissau, é o sujeito da trama aqui apincelada. Ver o céu cair-lhe na cabeça quando lhe vieram comunicar que “ia perder as eleições” foi coisa a que não terá sido estranho o excesso de confiança com que se abalançara às eleições presidenciais de Novembro de 2025. Afinal de pouco servira a manipulação a que sujeitou a campanha eleitoral, incluindo o regime de exclusão política imposto ao seu principal adversário – Domingos Simões Pereira.

Os seus prosaicos instrumentos de poder – o mais importante deles o dinheiro, o nepotismo e a repressão política – também não lhe serviram de tanto assim. E a magreza da votação por ele de facto alcançada também revelava que não era levado a sério (se era não passava de fingimento) quando, ufanante, se fazia passar por alguém cujos méritos e prodígios superavam os de todos que antes de si haviam governado o país. 

O excesso de confiança que levou Sissoco a não esperar senão uma esmagadora vitória eleitoral também não lhe permitiu ver (se viu, deu de barato) alguns “pequenos problemas” práticos: 

– A máquina eleitoral da Guiné-Bissau continuava a não estar viciada.

– Os balantas, maioritários e senhores de um forte espírito de grupo, não se reconheciam nele, mas sim no seu adversário, Fernando Dias, um balanta como eles.

– Conotar-se tão ostensivamente com o islamismo (turbante na cabeça ao longo de toda a campanha) não era coisa avisada num país onde animistas e cristãos, juntos, são maioritários; identificado como mais próximo dos fulas, perdeu/limitou assim o apoio dos seus rivais mandingas 

Da torre de marfim da qual mirava o seu país também nunca deve ter conseguido olhar para a sua legião de indefectíveis como uma minoria sociológica, não tão influente como a considerava. Além de que o “interesseirismo” presente na história de vida de muitos deles, talvez ainda se mantivesse intacto, ou seja, que em chegando a hora, haveriam de revelar que apreciavam muito o dinheiro e as mordomias que Sissoco lhes proporcionava, mas não o respeitavam como devia ser.   

Faz alguns meses, talvez cinco, que se começaram a manifestar na conduta de alguns daqueles que Sissoco deixara no poder, sinais de que estava a esmorecer o sentido de dever que o homem esperava deles, como firmes guardiães do seu poder e por isso prontos a estender-lhe uma passadeira vermelha no momento do seu regresso – triunfal como o queria.  Consultavam-no cada vez menos, nem sempre lhe atendiam os telefonemas que lhes fazia e foram-se desabituando de considerar sacrossantas as “orientações” que lhes dava. 

Em tempos do presente, a evolução de tais sinais começou mesmo a dar lugar a uma crescente erosão da predisposição ou da vontade de o “aceitar de volta” por parte daqueles que há um ano deixara em Bissau feitos seus obedientes pró-cônsules políticos. Conhecida a data escolhida por Sissoco para o seu regresso a Bissau, 4 de Outubro, eis que lhe impuseram “restrições”, entre elas a de não se instalar numa moradia sua perto do palácio do palácio presidencial. 

Pior ainda. A sua Guarda Presidencial, coisa em tudo parecida com uma guarda pretoriana, mas que devido à sua estrutura (efectivos, equipamento e missões) se confundia mais com um exército privado, dotado de um estado-maior privativo e de um serviço de informações próprio, começou a ser desmantelada. O desconforto há muito patente nas Forças Armadas em razão do tratamento superior dado por Sissoco à sua horda, facilitou a tarefa da sua desintegração. 

De caminho, muitos dos incondicionais que Sissoco passara a vida a espalhar pela administração pública, pelo sector judicial e até pela comunicação social, começaram a ver as suas mordomias ameaçadas. Safaram-se os que, de certeza levados pelo velhíssimo sentimento do oportunismo, se prestaram a mudar de campo. 

Ilídio Vieira Té foi, entre quem Sissoco confiara a missão de o receber, aquele que mais cedo terá começado a vacilar. A ele, homem de sua consabida confiança, deixara-o à frente do governo, acumulando a pasta das Finanças, de que já era titular. Em fins de Setembro, o que um acalorado telefonema entre Vieira Té, então em Nova Iorque, e Sissoco, ele no seu exilio de Casablanca, revelou foi uma clara ruptura entre ambos. Criou entretanto um partido (Partido Popular da Guiné) e corre que tem em mente candidatar-se a presidente da República.

O general Horta Int-a, deixado por Sissoco como presidente de Transição, esse foi aquele que mais tempo levou a romper com aquele de quem fora um fiel guarda-costas. Numa reunião de um órgão “de cúpula” com o pomposo nome de Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança Nacional e Ordem Pública, que se estendeu por todo o dia 1 de Outubro, Horta Int-a viria, porém a alinhar com a maioria dos membros – fechando a porta a um regresso de Sissoco, por razões “securitárias”, foi feito constar.

Nas nuvens em que viveu o seu exílio marroquino e continuando a olhar para si mesmo como um “iluminatti” ou um predestinado com direito e perenes venerações, nunca deve assaltado a Sissocô (pronuncia-se assim) o pressentimento de que aqueles que deixou em seu lugar tenderiam a apegar-se ao poder e por via disso a alimentar ambições políticas e/ou de poder. Foi o que manifestamente se passou, a par do surgimento entre eles de dúvidas de que um regresso de Sissoco ao poder fosse benéfico para o país. 

Não goza de aceitação ou de popularidade interna – especialmente entre os balantas e os papéis de Bissau, mas sobretudo nas Forças Armadas, estas muito influenciadas por alguém reverencialmente escutado no seu corpo de oficiais: o general António Indjai, antigo CEMGFA.  A má reputação de Sissoco, vinda de trás, mas consideravelmente agravada pelo seu fantástico auto-golpe de Estado, “queimou-o” na região e internacionalmente, é o que dizem aqueles que agora o querem ver pelas costas. 

O presidente da Nigéria, o país mais poderoso da região, não quer ouvir falar dele, nisso rompendo com a linha complacente em relação a Sissoco que fora a do seu antecessor. E Maki Saal, tratou de o “dispensar” da tarefa de coordenador da sua campanha para o cargo de SG da ONU. Enquanto presidente do Senegal passara a vida a “apaparicar” Sissoco, embora parecendo que o fazia como simples forma de lhe afagar o ego, para dessa maneira obter vantagens para o seu país. 

O ambiente de festa, exuberante festa, com que o anúncio do não regresso de Sissoco foi acolhido pela população de Bissau e em influentes meios da sociedade, deve ter levado aqueles que lhe fecharam as portas a dar por acertada a sua decisão. Assim se criando uma dinâmica da qual a esperar o fim da sua vida política. O desmantelamento do Estado paralelo por ele criado, incluindo a purga dos “seus”, contribuirá para isso.  

O que virá a seguir a Sissoco é uma incógnita. A lógica que até agora seguiram as grandes mudanças políticas na Guiné-Bissau – a uma situação má seguiu-se outra pior – recomenda prudência. A ideia de que com Sissoco o país bateu no fundo dos fundos, (não há mais fundo para bater) permite, todavia, acalentar alguma esperança. As ruindades que lhe apontam – aventureirismo político, tráfico de influências, inépcia governativa e o mais – não parece que se reproduzam em mais ninguém.   

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