QUEM MANDA NA EUROPA?

MARIA LUÍSA ABRANTES 

O Estado e as empresas alemãs estão  a endividar-se  a níveis nunca vistos, mas a riqueza acumulada no passado ainda funciona como um amortecedor. A Alemanha continua a ser um credor global.

A União Europeia aparentemente subjugou-se aos desígnios políticos do Presidente Trump e está a pagar a “fatura”. Países  do G7 como a Alemanha e a França, estão a sofrer as consequências econômicas e sociais indesejáveis. A Alemanha está a perder o espaço que lhe pertencia indiscutivelmente   como o “motor” da economia europeia, devido a uma combinação de estagnação, crise industrial e mudanças geopolíticas globais.

O Presidente Trump, durante uma fase de instabilidade econômica, impôs a União Europeia a compra de combustível mais caro aos Estados Unidos, em detrimento da aquisição de produtos energéticos da vizinha Rússia, a preços mais acessíveis. Usou como pretexto o pacote de sanções aplicadas à Rússia, por não ceder as suas propostas, relativamente ao cessar fogo na guerra contra a Ucrânia. 

⁠A forma de actuação  também usada pelo Presidente Trump na aplicação das tarifas alfandegárias,  para tentar enfraquecer economicamente a concorrência de grandes potências, tais como a China, a Rússia, a própria União Europeia, etc., (recuando sempre que a situação econômica interna assim  exigia), tem beneficiado  a curto prazo a economia americana. Isto é, se os Estados Unidos são os primeiros e se possível os únicos a beneficiar do preço baixo do petróleo russo, sem prevenir antecipadamente os seus vizinhos, somente os aliados sairão a perder. 

⁠Na União Europeia, à excepção  do Primeiro Ministro de Espanha , começando pela Presidente da União Europeia Ursula von der Leyen, os Estados membros deixaram-se intimidar pelo Presidente Trump, incluindo o governo Alemão. Cederam inclusive, à exigência de aumentar a contribuição anual para os gastos da NATO para 5%. Os países membros da UE acordaram uma percentagem intermédia de 3,5%/ano e atingir os 5% até 2035. 

⁠Com o aumento do preço do petróleo e do gás, das contribuições para suportar a guerra Russia/Ucrânia, do número de imigrantes ilegais, entre outros, a Europa está a atravessar uma crise sócio-económica de extrema gravidade. Enquanto na crise de 2008/2009, a Alemanha  actuou como a “âncora financeira” da Zona Euro, capitalizando os seus bancos para resgatar economias periféricas, no biénio 2025/2026 o país tem enfrentado um endividamento sem precedentes e estagnação económica.

Em 2008, o modelo alemão baseava-se em energia barata, pela aquisição do gás russo e exportações para a China. Actualmente, o governo alemão vê-se obrigado a financiar-se externamente para responder as suas obrigações financeiras, econômicas e sociais internas. 

⁠Devido  a conjuntura geopolítica em que se subordinam as imposições do Presidente Trump, a Alemanha aprovou despesas militares elevadíssimas, no valor de 83 mil milhões de euros em 2026, para além dos  fundos extra-orçamentais, financiados inteiramente por emissão de dívida.

O governo alemão contornou as regras fiscais, criando um Fundo de Infraestruturas e Clima de 500 mil milhões de euros. 

⁠A Alemanha perdeu a  competitividade da indústria automóvel para a China, onde a AUDI fez parceria com a empresa chinesa estatal SAIC e, os custos de energia arrastaram o país para o seu sétimo ano de estagnação económica.

Todavia, pese embora os números alarmantes da dívida externa, o que impede a Alemanha da insolvência imediata é a posição do seu Investimento Internacional Líquido (IIP). Já a França e os outros países membros da UE não têm essa almofada. 

A verdade é que a Alemanha continua a ser um credor líquido global.  O país possui activos no estrangeiro de cerca de 15,2 trilhões de euros, superando as suas obrigações, no valor de cerca de 11,1 trilhões  de euros.

⁠A dívida externa alemã  é de cerca de 7,28 trilhões de euros (cerca de 8,14 mil milhões/bilhões de dólares USD), no primeiro trimestre de 2026, o que representa cerca de 149,6% do PIB do país. 

⁠O Estado e as empresas alemãs estão  a endividar-se  a níveis nunca vistos, mas a riqueza acumulada no passado ainda funciona como um amortecedor. A Alemanha continua a ser um credor global. O governo alemão está a investir no melhoramento das suas infraestruturas básicas, proporcionando  emprego, revitalização da prestação de serviços e consumo que aquece a sua economia, mas não o suficiente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PROCURAR