MEMORIAL ÀS VÍTIMAS DOS CONFLITOS POLÍTICOS: ONDE ESTÃO AS VÍTIMAS?

Não ignoro o valor simbólico da reconciliação. Angola precisa de continuar a construir pontes entre os seus filhos, reconhecer sofrimentos e ultrapassar as fracturas deixadas por décadas de violência política. Mas a reconciliação não pode ser confundida com o apagamento da história, nem a homenagem colectiva deve tornar anónimas as vítimas.

Não sou um tipo viajado. Mas, sempre que saio de Angola, visitas a museus, galerias e memoriais fazem parte, quase obrigatoriamente, do meu programa. 

Gosto de percorrer esses espaços, conhecer a história dos povos, perceber como preservam a sua memória e, sobretudo, como a transmitem às novas gerações.

Talvez por isso tenha ficado com uma sensação de desorientação, quando vi as primeiras imagens do Memorial às Vítimas dos Conflitos Políticos de Angola, inaugurado no passado dia 14 de Outubro. 

Vi uma construção imponente, espaços cenográficos, equipamentos tecnológicos e representações históricas. Mas dei comigo a perguntar: onde estão as vítimas?

Um Memorial é, antes de tudo, um lugar de memória, evocação e homenagem. E quando se destina às vítimas de conflitos políticos, são estas que devem ocupar o centro da sua narrativa. Os seus nomes, rostos, histórias, sofrimentos e as circunstâncias em que foram atingidas pela violência.

E o que nos diz a experiência internacional?

Mesmo estando em Luanda, resolvi fazer uma pequena viagem virtual. Comecei pelo Rwanda,  Memorial do Genocídio de Kigali, que acolhe os restos mortais de mais de 250 mil vítimas do genocídio de 1994. Documenta os acontecimentos, preserva testemunhos e desenvolve programas educativos para que as novas gerações compreendam como foi possível tamanha tragédia.

Do Rwanda segui para França, mais concretamente para Paris, ao Memorial da Shoah, onde se destaca o “Muro dos Nomes”, com cerca de 76 mil judeus deportados de França. Dispõe de arquivos, biblioteca, centro de documentação e investigação. Ali, a memória colectiva começa pela restituição da identidade individual às vítimas.

Atravessei o Atlântico e fui até Washington,  Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos. Reúne documentos, fotografias, objectos pessoais e testemunhos, o visitante não é apenas confrontado com a dimensão da tragédia. É convidado a compreender os mecanismos políticos, ideológicos e sociais que a tornaram possível.

Daí segui para o Chile, onde o Museu da Memória e dos Direitos Humanos preserva documentação sobre as violações cometidas durante a ditadura militar. E terminei a viagem na Bósnia-Herzegovina, no Memorial de Srebrenica, que prossegue, décadas depois do genocídio, o trabalho de identificação das vítimas.

São experiências diferentes, com linguagens arquitectónicas e museológicas distintas. Mas todas nos remetem para uma questão fundamental: preservar a memória exige mais do que erguer monumentos.

E, finalmente, depois de duas horas de viagem virtual, regressei a Luanda. Voltei às imagens do nosso Memorial: uma recriação de ambiente florestal, objectos tradicionais, exposições históricas e até uma sala de projecção imersiva com cadeiras semelhantes às de um avião. Não contesto, à partida, a pertinência destes recursos.  Gostaria, apenas,  de perceber a sua relação com a finalidade da instituição.

E volto a perguntar: onde estão os testemunhos das famílias? Os arquivos dos desaparecidos? As histórias dos sobreviventes? Os documentos que nos permitam compreender os acontecimentos, incluindo os episódios mais dolorosos e controversos da nossa história política?

Não afirmo que estejam ausentes de todo o Memorial, as fotografias não permitem semelhante conclusão. Mas a sua presença não é suficientemente perceptível nas imagens divulgadas. E daí as minhas interrogações.

Também não considero que a autoria artística ou arquitectónica constitua, por si só, um problema. Um artista pode conceber um excelente Memorial. Mas um projecto desta natureza exige uma equipa multidisciplinar de historiadores, museólogos, arquivistas, especialistas em património e, sobretudo, a participação das vítimas e dos seus familiares.

Gostaria, por isso, de conhecer o projecto museológico, a sua fundamentação científica, os critérios de selecção dos conteúdos e a composição da equipa responsável pela construção da narrativa histórica.

Não ignoro o valor simbólico da reconciliação. Angola precisa de continuar a construir pontes entre os seus filhos, reconhecer sofrimentos e ultrapassar as fracturas deixadas por décadas de violência política. Mas a reconciliação não pode ser confundida com o apagamento da história, nem a homenagem colectiva deve tornar anónimas as vítimas.

Um Memorial pode representar o abraço entre os angolanos. Mas esse abraço ganha outro significado, quando conhecemos as histórias daqueles que sofreram, daqueles que morreram e daqueles que continuam à espera de respostas.

Por isso volto à pergunta inicial: num Memorial dedicado às vítimas dos conflitos políticos de Angola, onde estão, afinal, as vítimas?

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