
João Lourenço ainda está e detém o poder de comando de um sistema, de uma máquina, que até pode ser que representa, mas não a comande. Mas os ponteiros do relógio político começaram já a marcar o seu fim. Quem sabe um dia, alguém lhe formule a pergunta: “Está a gostar de ser ex-Presidente? Se tivesse que iniciar agora o seu primeiro mandato, faria tudo igual”?
A história angolana sobre as sucessões presidenciais ainda é curta. Em 50 anos de independência, contamos apenas com três Presidentes da República: Agostinho Neto, José Eduardo dos Santos e agora, João Lourenço, em fim de mandato. Os dois primeiros já partiram e, por isso, essa história não nos permite estabelecer comparações, em condições normais, como seria a vida de um antigo Chefe de Estado angolano depois de deixar o Palácio Presidencial, com alguns dos países da região e de outros da comunidade que fala português.
Apesar de, a Constituição ser clara em relação ao exercício temporal dos nossos presidentes, na verdade, tudo ainda nos parece um embróglio. Porque quem está lá sabe que já não pode continuar, mas faz transparecer que, mesmo não podendo, do ponto de vista da Lei, ser o Presidente da República, não arreda o pé. Quer continuar com o poder. E é precisamente aqui, que começa a curiosidade em torno do futuro de João Lourenço.
O que acontecerá com ele quando deixar de ocupar esse lugar? Como será a transição de uma vida marcada pelo exercício do poder, para uma existência em que já não terá nas mãos os mesmos instrumentos de decisão?
Como se sabe, por imperativos constitucionais aproxima-se o fim do seu mandato à frente do Executivo. Mas há sinais claros que indicam que a sua saída da Presidência da República, não significará o afastamento da vida política activa. Pelo contrário, a sua candidatura à presidência do MPLA e todos os esquemas engendrados para aprovação no congresso previsto para Dezembro de 2026 indicam exactamente isso.
Mas, há uma pergunta incontornável, quase tão interessante quanto a própria sucessão política: como será a vida de João Lourenço depois da Presidência do Estado?
É uma pergunta legítima. Não necessariamente sobre o seu futuro político, mas do homem que, durante anos, está no centro da vida nacional. Porque uma coisa é ter influência e muitos contactos enquanto se está no poder. Outra, bem diferente, é saber quantos deles permanecerão fiéis ou estarão disponíveis para a mesma obediência ou serventia.
Mas também não precisamos de ser ingénuos. João Lourenço não parece estar a preparar-se para uma reforma política. Se for reconduzido na liderança do MPLA, como tudo indica, poderá continuar a ocupar um lugar central na engrenagem política do país.
O que se vai percebendo é João Lourenço poderá deixar de ser o Presidente da República, porque não tem como manter-se por lá sem alterar a Constituição, mas, deseja permanecer na liderança do seu partido, para manter relevante a sua presença na vida política nacional, transferindo o Palácio para a sede nacional do MPLA. O Palácio Presidencial até vai mudar de ocupante. Porém, quer manter o poder partidário como a principal ferramenta de mordaça do sistema e de domínio do Estado. Mas isso na perspectiva do MPLA vencer as eleições legislativas, o que para ele é certo, tendo em conta que, não tem sido o voto que determina a vitória. Só um ‘tshunami’, poderá gorar a sua estratégia de domínio do poder.
É aqui que o modelo russo talvez nos faça despertar para o que nos espera nas próximas eleições.
João Lourenço pertence a uma geração formada politica e militarmente sob forte influência soviética. Estudou na antiga União Soviética, entre 1978 e 1982, onde recebeu formação militar e concluiu, segundo diz, estudos superiores em Ciências Históricas.
Quem acompanha a vida política da Rússia, de Vladimir Putin e Dmitri Medvedev, recordará aquele arranjo de troca de cadeiras: Putin deixou temporariamente a Presidência para Medvedev, ficando com a chefia do Governo. Com essa jogada política, no fundo, o poder continou concentrado em Putin. E até ao seu regresso à Presidência da Rússia, não se conheceu qualquer instabilidade, até porque Medvedev regressou à primeira forma e tem sido um importante aliado de Putin, de novo, Presidente.
Será que João Lourenço não está a ensaiar a mesma jogada no seu tabaleiro de xadrez? Será que não tem a pretensão de se apresentar na lista do seu partido, como candidato à vice-presidente, para continuar a ser o dono da bola? Veremos!
Logicamente que, as circunstâncias, as instituições e as personagens da Rússia e de Angola são diferentes. Mas, a comparação é suficientemente provocadora para merecer reflexão. E porque não, se tudo se mantem ainda aberto?
A pergunta, portanto, talvez não seja apenas quem sucederá João Lourenço na Presidência da República. A pergunta mais interessante poderá ser: quem ocupará a cadeira presidencial e aceitará servir de marioneta de João Lourenço?
Goste-se ou não do arranjo, o passado de João Lourenço agrega participações na guerra, na transição, no multipartidarismo, na paz, na reconstrução e na transformação do próprio MPLA. Não se conhece grande expressão na sua experiência militar. Mas o seu envolvimento na política iniciou nas forças armadas, foi governador, deputado, ministro da Defesa, e, finalmente, Presidente da República e do MPLA. Conhece, portanto, por dentro, os jogos de poder, as subtilezas da política, as alianças, as rupturas e aquilo que, numa só expressão, se pode chamar de cabalas palacianas.
Quantas histórias de bastidores levará consigo? Quantas decisões tomadas longe dos holofotes? Quantas conversas reservadas, disputas internas, alianças improváveis e episódios que nunca chegaram ao conhecimento público?
Talvez seja precisamente aí que esteja um dos capítulos mais interessantes das memórias de João Lourenço: não apenas aquilo que o país viu, mas, sobretudo, aquilo que acontece nos corredores e nos bastidores do poder e que o país nunca chegou a conhecer.
Existe ainda uma imagem curiosa associada ao Presidente: a de um homem que, segundo relatos públicos, gostava de deslocar-se muito cedo para a sua fazenda. Se a política um dia ficar para trás, talvez o campo seja uma espécie refúgio de segunda vida. Entre a terra, os animais, a lavoura e o silêncio, poderá encontrar uma rotina completamente diferente daquela do Palácio. Seria o desejável, mas, infelizmente, João Lourenço vai deixar um passivo que está a tornar-se a cada dia mais complicado. Inclusive, para a sua família, podendo terminar os seus dias, também no exílio.
Por outro lado, há também uma questão mais humana. Quantos amigos dos que cultivou ao longo da vida, continuarão próximos? O poder, por regra, isola, porque à volta do Presidente da República montou-se uma cortina que transmite uma imagem de uma família pouco dada, inclusive à amplos convivios com a sua família, preferindo os muito restritos. Embora se fale de uma reaproximação nos últimos tempos com algumas figuras postas de lado, como aconteceu recentemente, por ocasião do aniversário de casamento do casal.
Não falamos de amigos institucionais, de camaradas de ocasião ou daqueles que aparecem enquanto há poder e benesses para partilhar ou distribuir. Falamos de amigos com quem faziam troca de telefonemas, simplesmente para perguntar: “Como estás?” Dos que apareciam sem marcar audiência. Dos que se sentavam à mesma mesa para conversar sobre futebol, agricultura, sobre música, fazer um jogo de xadrez, sobre as famílias, ou, simplesmente, sobre as coisas banais que também preenchem a vida…
Essa talvez seja uma das provas mas difícies, para quem tem todo o poder e depois vê-se despido dele. Porque o poder produz multidões, impõe maior respeito e até medo. Produz silêncio e isolamento. Para muitos, a reforma dificilmente representa o regresso ao ponto de partida, onde quase ninguém dos abandonados aguarda com a mesma empatia, quem saiu, quem se elevou e quem se auto-enclausurou. A reforma quando não é bem gerida (e isso depende do passado que se contruiu) representa o princípio do fim, o definhamento, as mazelas da idade a dobrar e depois a…
João Lourenço poderá continuar na política activa através do MPLA, sim. Mas, para além da política partidária, amarrou o Estado à uma grande incerteza que não é saudável para a democracia. O projecto político pessoal que está a construir só tem um objectivo: continuar a ser o dono-disto-tudo. Mas, a eventualidade de não conseguir concretizá-lo, poderá complicar a sua vida como o cidadão comum ex-Presidente.
É nisso que, por sua culpa, estamos mal. Angola precisa também de aprender a imaginar os seus antigos presidentes como cidadãos. Como homens que deixam o poder, envelhecem, cultivam amizades, escrevem memórias, contam histórias, andam pelas ruas sem receios. E, sobretudo, que deixam para trás o lugar que ocuparam como legado para uma nova geração dar continuidade no processo regenerativo da construção do Estado, que garante a felicidade e o bem-estar dos seus cidadãos. Um processo constituído por cilos normais, que não devem ser interrompidos pelo ego de um Presidente. Com a saída de José Eduardo dos Santos, acendeu-se essa luz no fundo do túnel dessa normalidade. Mas, reconheçamos, João Lourenço complicou e agora tem medo de que possa beber da mesma experiência, que conduziu ao exílio, ao abandono e a morte do seu antecessor.
Quem sabe um dia, quando já não houver escolta, protocolo, discursos nem reuniões do Conselho de Ministros, alguém lhe formule a pergunta: “Está a gostar de ser ex-Presidente? Se tivesse que iniciar agora o seu primeiro mandato, faria tudo igual”?











