A VIOLÊNCIA NO FUTEBOL MODERNO

Quando a arbitragem protege o agressor e pune a vítima

AUTOR: ALBÉRICO LUPITO

A violência sistémica no “desporto-rei”

O futebol moderno consolidou-se como o maior espectáculo desportivo do planeta, movimentando anualmente milhares de milhões de euros. Entretanto, sob a superfície reluzente dos relvados impecáveis e dos contratos milionários, persiste uma realidade sombria que raramente é abordada com a seriedade que merece: a violência sistémica contra os jogadores, frequentemente legitimada, normalizada e, o que é mais grave, recompensada pela estrutura disciplinar e de arbitragem do próprio desporto.

Se outrora a violência no futebol era explícita e amplamente condenada, hoje assume formas subtis que escapam ao escrutínio público. O carrinho assassino por trás, a entrada com os pitões na canela ou no joelho, a cotovelada “involuntária” dentro da área: todos estes actos são, com demasiada frequência, tratados como “lances normais do jogo” ou “parte integrante do futebol de contacto”. Esta normalização constitui a mais perversa forma de violência: aquela que não precisa de se esconder porque é aceite como inevitável.

A lógica perversa da arbitragem contemporânea

O árbitro como cúmplice involuntário (ou não)

A figura do árbitro deveria ser a de guardião da integridade física dos jogadores. Porém, na prática, assistimos repetidamente a decisões que não só falham em proteger a vítima, como activamente beneficiam o agressor. Esta dinâmica não é acidental: é estrutural.

Exemplo 1:

O carrinho por trás e o amarelo “pedagógico”

Imaginemos a cena tantas vezes repetida: um atacante parte em velocidade, deixando o defensor para trás. Incapaz de o acompanhar, o defensor opta pela solução mais cobarde, um carrinho por trás, sem qualquer intenção de disputar a bola, visando exclusivamente derrubar o adversário. O atacante cai violentamente, torce o tornozelo, grita de dor.

O árbitro apita. Falta clara. Desde que não vá isolado em direcção à baliza, qual é a sanção?

– Cartão amarelo, na melhor das hipóteses.

– Muitas vezes, apenas falta, com o árbitro a gesticular “jogou a bola, jogou a bola”quando claramente não o fez.

O agressor permanece em campo. A vítima é obrigada a sair para receber assistência. Durante os minutos em que está fora (e são frequentemente dois, três, quatro minutos) a sua equipa joga com menos um. O agressor, entretanto, reposiciona-se, organiza a defesa, beneficia da vantagem numérica que conquistou através da violência.

O sistema recompensa a agressão e pune a vítima.

Este não é um caso isolado. É o modus operandi do futebol moderno.

A impunidade selectiva e a memória curta do sistema disciplinar

Um jogador pode cometer múltiplas faltas violentas ao longo de uma temporada. Se cada uma for “apenas” um cartão amarelo, ele termina cada partida e começa a seguinte com a mesma liberdade para agredir. A memória disciplinar é curta; o corpo do adversário, não.

Exemplo 2:

O “jogador duro” e a medalha de honra da violência

Consideremos um defensor que, ao longo de uma época, comete sistematicamente entradas violentas. Acumula amarelos, cumpre suspensões de um jogo, regressa, e repete. Os comentadores desportivos (esses “ignobilmente ignorantes” que confundem violência com competência) elogiam-no: “É um jogador duro”, “Não dá espaço”, “Faz-se respeitar”.

Entretanto, os adversários que sofreram as suas entradas acumulam lesões: entorses de tornozelo, fracturas de perónio, roturas de ligamentos… Perdem jogos, perdem espaço na equipa, perdem valorização, perdem convocatórias para as selecções, perdem patrocínios. O agressor, em contrapartida, ganha o rótulo de “firme”: uma medalha de honra ao mérito da violência.

Casos concretos:

Quando a arbitragem falha intencionalmente

Caso 1:

A entrada de Pepe sobre Dani Alves (2011)

Num clássico Real Madrid-Barcelona, Pepe executou uma entrada com o pé em riste sobre a canela de Dani Alves. A imagem é inequívoca: pitões expostos, velocidade excessiva, intenção clara de atingir o adversário. O árbitro, entretanto, mostrou apenas cartão amarelo. O VAR não existia na época, mas mesmo hoje, decisões semelhantes continuam a ocorrer.

Dani Alves saiu lesionado. Pepe permaneceu em campo. O Real Madrid beneficiou da vantagem numérica temporária enquanto o brasileiro era tratado. A violência foi recompensada.

Caso 2:

O “kung-fu” de Nigel de Jong sobre Xabi Alonso (2010)

Na final do Campeonato do Mundo de 2010, Nigel de Jong aplicou uma entrada que ficou conhecida como “kung-fu” sobre o peito de Xabi Alonso. O árbitro Howard Webb mostrou apenas cartão amarelo. A entrada era passível de expulsão directa e, em qualquer tribunal criminal, seria classificada como agressão física grave.

Xabi Alonso continuou o jogo com dores. De Jong permaneceu em campo. A Holanda beneficiou da impunidade do seu jogador mais violento. A FIFA, posteriormente, não aplicou qualquer sanção retroactiva.

Caso 3:

As múltiplas entradas de Sérgio Ramos

Sérgio Ramos, defensor do Real Madrid durante 16 anos, acumulou um historial de entradas violentas que, em muitos casos, resultaram em lesões graves para os adversários. Mohamed Salah, na final da Liga dos Campeões de 2018, foi vítima de uma entrada que lhe deslocou o ombro. Ramos não foi sequer advertido. O mesmo aconteceu com Bah, muito recentemente e ninguém fala deste caso.

O padrão é claro: jogadores com reputação de “duros” beneficiam de uma tolerância da arbitragem que lhes permite continuar a agredir impunemente. As vítimas, entretanto, sofrem as consequências físicas e profissionais.

Caso 4:

A arbitragem caseira e a protecção dos “Grandes”

Em ligas onde os interesses comerciais se sobrepõem à integridade desportiva, é frequente observar-se arbitragens que protegem sistematicamente os jogadores das equipas mais poderosas. Uma entrada violenta de um jogador de um clube grande sobre um adversário de um clube pequeno é frequentemente minimizada; o inverso resulta em expulsão imediata.

Esta disparidade não é coincidência. É a manifestação de um sistema que valoriza o espectáculo e o lucro acima da justiça e da segurança.

O VAR:

A ferramenta que devia proteger e acaba por complicar

O VAR (Video Assistant Referee) foi introduzido com a promessa de reduzir erros de arbitragem e aumentar a justiça no futebol. Na prática, tornou-se uma ferramenta selectiva, usada para decisões milimétricas de fora-de-jogo, mas raramente para corrigir entradas violentas que o árbitro “não viu bem”.

Exemplo 3:

O VAR e a selectividade das revisões

Um jogador comete uma entrada assassina. O árbitro não vê, ou finge não ver. O VAR, que deveria intervir em casos de “erro claro e evidente”, mantém-se em silêncio. Minutos depois, o mesmo VAR analisa durante três minutos uma possível posição de fora-de-jogo por milímetros.

A mensagem é clara: a violência não é prioritária. O espectáculo medieval, sim.

A normalização da violência pelos comentadores desportivos

Os comentadores desportivos, especialmente os “ignobilmente ignorantes”,desempenham um papel crucial na legitimação da violência. As suas frases tornaram-se clichés:

– “Foi com força, mas ele foi à bola.” Mesmo quando o pé do agressor aterrou na canela do adversário.

– “É futebol de contacto, tem de aguentar.” Como se um tornozelo fracturado fosse “contacto natural”.

– “Ele é muito fraco, devia ter ficado em pé.” Enquanto o jogador manca com o pé inchado.

Estes comentadores não são meros observadores: são agentes activos na normalização da violência. Ao tratarem agressões como “lances normais”, validam a impunidade e desencorajam qualquer tentativa de reforma.

As consequências: o corpo como custo operacional

Lesões musculares, fracturas, entorses de tornozelo e traumatismos cranianos ou outros são tratados como “custos operacionais” do espectáculo (medieval). O jogador lesionado perde espaço, perde valorização, perde o lugar na selecção, perde patrocínios. O agressor, em contrapartida, ganha o rótulo de “jogador duro” ou “firme”.

Exemplo 4:

A carreira destruída de Marco van Basten

Marco van Basten, um dos melhores avançados da história, viu a sua carreira terminar prematuramente aos 28 anos devido a lesões no tornozelo, muitas delas agravadas por entradas violentas que nunca foram devidamente punidas. O sistema não protegeu van Basten. Protegeu os seus agressores.

As instituições gestoras: omissão cúmplice

A FIFA, as confederações continentais e as ligas nacionais falam muito em “fair play” e “respeito pelo adversário” em campanhas de marketing, sempre com imagens bonitas e crianças a sorrir. Na prática, pouco ou nada mudam.

– O VAR é usado para milímetros de fora-de-jogo, mas raramente para reavaliar uma entrada assassina.

– O tempo de acréscimo é calculado por substituições e celebrações de golo, mas não compensa o tempo em que a vítima ficou fora a ser tratada. Deveria compensar.

– As suspensões são ridículas: três jogos por uma entrada que pode destruir uma carreira. O agressor cumpre a pena, volta, e repete.

Se o mercado trata o jogador como um activo financeiro de milhões, por que a sua integridade física é tratada com tamanha negligência? Resposta: porque o espectáculo não pode parar.

Perder 30 segundos para avaliar uma entrada com calma? Não, que a audiência pode mudar de canal. É melhor manter o jogo a fluir, e o corpo que se lixe.

A violência televisionada e tolerada

A diferença entre a violência do passado e a do presente? O escravo não tinha câmaras a filmar o seu sofrimento; o jogador tem, e o mundo vê e, ainda assim, nada muda.

O que é mais perturbador: a violência escondida ou a violência televisionada e tolerada?

No futebol moderno, a rima é em euros, e o refrão é o som de uma canela a estalar sob aplausos. A arbitragem, frequentemente má ou intencionalmente conivente, protege o agressor e pune a vítima. Os comentadores normalizam a violência. As instituições omitem-se. E os jogadores continuam a ser, ao mesmo tempo, deuses no estádio e números em estatísticas e, por vezes, vítimas em macas, substituídos como quem troca uma peça defeituosa.

A história não se repete, mas rima. No futebol, a rima é em euros, e o refrão é o som de uma canela a estalar sob aplausos.

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