REFLECTINDO SOBRE IDEIAS E COISAS DE LUÍS BERNARDINO

FERNANDO PACHECO
– CONVERSAS NA MULEMBA

A Angola que foi capturada por um partido que domina o Estado, incluindo o poder legislativo e os tribunais, as Forças Armadas e a comunicação social. E o grave é que esse partido deve ter uma percepção de quanto é impopular, a tal ponto que tudo tem feito, pelo menos nos últimos 16 anos, para impedir a institucionalização do poder local.

Há quase 30 anos, recebi do escritor Arnaldo Santos um convite surpreendente e imprevisto para fazer a apresentação do seu último – e para mim o mais importante – romance: A Casa Velha das Margens. A minha primeira reacção foi recusar de forma polida o honroso apelo por não me sentir capaz de cumprir a tarefa com a qualidade merecida. Mas Arnaldo soube convencer-me. Foi uma experiência que abriu a porta a quase duas dezenas de prefácios de livros sobre os temas mais diversos.

Em Maio passado, novo e inesperado convite. Para regressar ao papel de apresentador. Em poucos segundos o meu raciocínio foi imediato. Como poderia eu, apesar do trabalho profissional que tinha – e ainda tenho – em mãos, importante para dar sentido material à nossa pensão de reforma e, sobretudo, muito excitante por permitir uma longa convivência com agricultores, que tentam fazer aquilo que porque pugno desde a minha adolescência, como poderia eu, pois, negar tão honrosa solicitação, vinda de um médico de tão elevada craveira? 

Médicos e agrónomos são profissionais de elevado compromisso social. Angola tem muitos exemplos.

Quando comecei a ler o livro, dei-me conta da enorme responsabilidade que havia assumido. Faz lá coragem, camarada!

E aqui estou, Mussunda amigo.

Vamos por partes.

Em 1945, dos 51 países fundadores da ONU, apenas quatro eram africanos. No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética afirmava-se como líder de um bloco internacional em expansão. Enquanto o liberalismo era associado aos impérios coloniais, que se desfaziam, o socialismo apresentava-se como o farol para os novos países e para os movimentos revolucionários.

Os acontecimentos começaram a precipitar-se. Os anos 60 foram a década decisiva para os direitos civis dos negros norte americanos. Em 1962, James Meredith foi o primeiro negro a entrar na Universidade de Mississipi; em 1964, foi aprovada a lei que acabou com a segregação racial legal; em 1965, a lei que permitia aos negros votarem e, em 1968, 11 dias apenas após o assassinato de Martin Luther King, a lei que acabou com a discriminação no aluguer e na venda de habitações. Em 1970, já havia 127 países independentes e, em 1976, entrou em vigor o Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais, que representava, claramente, uma vitória do bloco socialista. Aos elogios da virtualidade do mundo liberal opunha-se o sarcástico lema de que nesse mundo “toda a gente era livre de morrer à fome”.

A onda de contestação à ordem liberal atingiu o seu ponto mais alto, em 1968, com protestos, principalmente de estudantes, em quase todo o mundo ocidental. A contestação maior ocorreu em Maio de 68, em França, quando o poder político se sentiu ameaçado e os ricos chegaram a temer a guilhotina. Foi a época da libertação da mulher e da afirmação dos seus direitos, do sexo livre e do feminismo. Em 1975, o mundo liberal sofreu a sua mais humilhante

derrota, no Vietname, no Laos e no Cambodja. O futuro parecia ser socialista.

Nos anos 80, porém, a onda mudou. Apesar dos sobressaltos que atingiram o liberalismo, o mundo científico e tecnológico registava progressos com a energia nuclear, a biotecnologia e os computadores. Na Europa, o Estado Social havia proporcionado aos cidadãos conquistas inéditas. Menos de uma década e meia depois da humilhante derrota na Indochina, o liberalismo voltou a conquistar o mundo e venceu a Guerra Fria, com o fim da União Soviética. O futuro afigurava-se novamente liberal. Fukuyama vaticinou o fim da história. Como foi isso possível? E será que era verdadeiro esse idílio duradouro com o progresso?

Num texto, que seria muito interessante ver incluído neste livro, com o título A Ilha Comunista (2026), escrito quando este já estava no prelo, Luís Bernardino exalta o modo como o regime implementado por Fidel e seus companheiros, desde 1959, combateu a pobreza histórica do povo cubano e fez desabrochar as suas virtualidades, promovendo um igualitarismo que permitiu acesso generalizado à Saúde, à Educação e à Universidade, que resultou em admiráveis progressos sociais de nível mundial ao longo de decénios.

Mas Luís Bernardino aponta também algumas razões que, no seu entender, levaram ao colapso de 1989. Entre elas, encontra-se, talvez, aquela que parece ser a mais determinante. Nos processos de construção do socialismo, genericamente, a concepção estática de igualdade foi afectando a liberdade e foi cerceando a possibilidade de contribuição das ideias de cada um, devido ao receio de uma fractura cultural e social que conduzisse à criação de classes e à desigualdade. Contudo, aconteceu um efeito perverso. Na revolução russa, esquecido o ensaio de democracia participativa com os sovietes, a ditadura do proletariado, assumida por Marx como necessária, mas transitória, evoluiu para uma ditadura do partido único – que para Marx também não poderia ser permanente – exercida por uma classe social burocrática que havia emergido. O centralismo democrático – que alguém considerou ter sido concebido para homens “puros”, como se isso fosse possível – eliminou práticas participativas, a cidadania foi obliterada e o debate de ideias foi impedido pela censura comunicacional.

Ao opor-se ao fluxo de informações e discussão sobre o que acontecia no Mundo, em favor de dogmas equiparados a religiões, o sistema socialista destruiu o sentido do desafio lançado por Nikita Khrushchov, em 1956, ao Ocidente liberal: “Gostem ou não, a História está do nosso lado. Enterrar-vos-emos!”. É que a realidade era bem diferente. O mundo socialista foi-se afastando do estudo científico da natureza, criando um abismo, do ponto de vista tecnológico, em relação ao mundo capitalista. O colapso em 1989 era inevitável. Vale a pena escutar o que nos diz o historiador israelita Yuval Noah Harare em Homo Deus – História Breve do Amanhã (2015): O socialismo, que há 100 anos estava muito actualizado, não conseguiu acompanhar o ritmo da tecnologia. Leonid Brejnev e Fidel Castro agarraram-se às ideias formuladas por Marx e Lenine na era do vapor e não compreenderam o poder da informática e da biotecnologia. Ouvi de um amigo cubano, professor universitário, algo que lhe poderia ter custado pesada sanção se, na mesma ocasião, Fidel não tivesse dito algo semelhante sobre a disputa, no campo da tecnologia, entre países socialistas e capitalistas. O atraso tecnológico, aliado à degradação das forças morais, não permitia suster as investidas do liberalismo (ou do imperialismo).

Essa investida foi fulgurante. Tirando partido dos erros do socialismo, Reagan e Thatcher lideraram uma contra-revolução ideológica, cultural e intelectual, denominada neoliberal na sua vertente económica, que deslegitimou o Estado social e a planificação. O neoliberalismo içou a bandeira da redução do papel do Estado, das privatizações, do mercado e dos cortes em gastos sociais. Essa ofensiva não foi apenas ideológica, no sentido de entregar às massas uma explicação falsa do mundo, para as submeter ao sistema. A batalha das ideias foi vencida também no campo do pensamento teórico, do discurso emancipatório e da conformação dos movimentos sociais e partidos de esquerda.

E o que trouxe o neoliberalismo, afinal?

À medida que o capital e as grandes empresas se globalizaram e se tornaram mais lucrativas, os salários e os direitos dos trabalhadores foram prejudicados. O acesso aos serviços públicos das populações pobres ou com menos recursos ficou muito reduzido. A riqueza concentrou-se e as desigualdades sociais e de rendimentos acentuaram-se. O neoliberalismo pode favorecer o crescimento económico, mas o crescimento não garante uma distribuição mais justa da riqueza.

Para o Prof. Michael Hudson, professor emérito de pesquisa em economia na Universidade de Missouri, num artigo intitulado Colapso do Ocidente, assiste-se a uma transformação estrutural do capitalismo, em que o sistema financeiro deixou progressivamente de estar ao serviço da economia produtiva (agricultura e indústria, investimento e emprego) e passou a extrair rendimento dela através de juros, dívida, rendas imobiliárias, monopólios e valorização de activos. É esse extractivismo, que caracteriza o mundo de hoje, que permite as estratosféricas concentrações de poder e a pauperização das classes médias e populares.

Os resultados desta cupidez insensata explicam o declínio do Ocidente que já não se consegue esconder. Por ironia, está a perder no campo tecnológico, exactamente aquele que permitiu a sua vitória na Guerra Fria. Se a esta realidade juntarmos a degradação dos valores humanistas e solidários, bem como as mágoas do passado, não nos surpreendemos com a contestação às democracias liberais que vai ganhando adeptos em todo o mundo. Cito Samuel Huntington: O Ocidente ganhou o mundo não pela superioridade das suas ideias, ou valores ou religião… mas pela sua superioridade na aplicação da violência organizada. Os ocidentais esquecem frequentemente esse facto; mas os não ocidentais nunca esquecerão. Não terá chegado, então, o tempo de se perceber a razão da ascensão das extremas-direitas em quase todo o mundo ocidental, sendo o caso alemão o mais preocupante apenas por ser o mais recente?

A explanação deste contexto, de grande perplexidade e inquietação, parece-me necessária para se entender as motivações e os fundamentos da primeira parte do conjunto de textos oferecidos por Luís Bernardino neste As Ideias e as Coisas(Chiadobooks, 2026).

Essa primeira parte começa com uma problematização de ordem filosófica que está na origem do título do livro: é através das ideias que conhecemos as coisas, como afirmam os filósofos do idealismo ao longo da história, ou é através das coisas que chegamos às ideias, como defendem os materialistas? LB argumenta, com base na neurociência e em autoridades como o português António Damásio e a sua “construção do cérebro consciente”, que não são as ideias (a filosofia) a fonte maior da descoberta e do conhecimento. São as coisas (o mundo revelado pela ciência) que o fazem e inspiram a formulação das ideias e teorias da filosofia. Afinal é através das coisas que chegamos às ideias, escreveu LB a 11 de Julho de 2025, ao mesmo tempo que recorda um conhecido escrito de Karl Marx: Não é a consciência do homem que determina a sua existência, é a existência social que lhe determina a sua consciência.

Nessa primeira parte, o autor, com suporte de cientistas políticos de craveira, da actualidade, como John Mearsheimer, Jeffrey Sachs ou Emmanuel Todd, desenvolve a sua leitura político- ideológica do mundo contemporâneo. Ao “cheirinho de Filosofia” que sempre o acompanhou desde o Liceu Diogo Cão, no Lubango – e que revela uma memória fecunda para livros, autores, até editoras – associa-se uma sólida cultura de história e análise política, que não impediu que LB prosseguisse a sua brilhante carreira profissional. Sem qualquer tipo de dogmatismo ou contemporização. Ao apresentar Emmanuel Todd, por exemplo, no texto A Derrota do Ocidente (2024), evoca uma publicação do também historiador e sociólogo francês, datada de 1976, quando fez a previsão da queda da União Soviética, baseando-se, nomeadamente, no aumento da mortalidade infantil. E como é através das coisas que chegamos às ideias, LB recorre a nova citação de Todd para expor o seu posicionamento político: A verdade é que a Rússia, com uma população decrescente e uma superfície de 17 milhões de quilómetros quadrados, longe de querer conquistar novos territórios, pergunta-se sobretudo como vai continuar a ocupar os territórios que já possui… Depois de Cartas que Ninguém Leu (2017), onde critica o papel dos EUA nos acontecimentos de 2014, na Ucrânia, LB posiciona-se claramente a favor de uma solução negociada para a guerra naquele país, tal como fazem os autores citados, e também Lula da Silva, não deixando este, contudo, de condenar a invasão russa.

Apesar do seu posicionamento ideológico, o autor mostra a sua abertura democrática ao reconhecer as virtudes do liberalismo como uma força em defesa dos direitos individuais, de cidadania e de igualdade política numa determinada fase da História, ainda que, nos seus primórdios, este mesmo liberalismo discriminasse as mulheres e, de forma mais prolongada no tempo, as pessoas de outra cor ou raça. Valores que vaticinam direitos tão importantes como os direitos económicos e sociais. Acontece, porém, que o liberalismo, associado ao capitalismo, tende a considerar a sua posição como universal e a procurar impor o seu modelo de modo pacífico ou violento.

De acordo com John Mearsheimer, por quem LB não esconde a sua simpatia, o realismo é uma política que afasta as possibilidades de guerra em vez de as promover. Foi a chave da manutenção da paz durante a Guerra Fria e permitiu que Kissinger tivesse convencido Nixon a fazer um acordo de paz com a República Popular da China. Em oposição a este realismo estão os defensores da hegemonia liberal que permitiram catástrofes que vão desde a guerra no Vietname até às intervenções no Iraque e noutros países, depois da Guerra Fria, que se saldaram em fracassos para os EUA, em milhões de mortos e na destruição do tecido social de vários países e povos. Contudo, LB não deixa de denunciar o oportunismo dos realistas do liberalismo quando estes apoiaram governos autoritários e corruptos em vários continentes, em nome da defesa dos interesses dos EUA. São os valores ocidentais que só se revestem de roupagem universal quando os tais interesses não estão ameaçados de algum modo. Não por acaso, Todd sustenta que um dos indicadores da derrota do Ocidente em curso é o facto de os seus líderes estarem a falar de valores nos quais nem eles próprios acreditam.

Mas é de valores universais que LB trata na primeira parte do livro. Exalta a teoria da evolução das espécies de Darwin, apesar das limitações dos estudos genéticos da época, e chama a atenção para como a competição fomenta a desigualdade. Se Adam Smith explicou que o mercado faz funcionar a economia, Darwin antecipou que a sociedade de mercado seria injusta.

Não hesita, de igual modo, em tratar o sempre delicado tema das identidades e do racismo na nossa sociedade. No primeiro caso, traz para nossa reflexão a atitude da cantora Tyla Water, uma mestiça sul-africana que reclama o direito de assumir a sua miscigenação cultural sem qualquer preconceito falsamente identitário, o qual, na verdade, distorce a luta pelo ideal humanista que defende uma ideia universal do Homem. No mesmo sentido caminha a consagrada cantora e compositora maliana Rokia Traoré a propósito da sua criação Fifty-Fifty: Fifty-Fifty é a mistura e é o respeito. … Fifty-Fifty soa eu também, … e isso não mudou à medida que fui envelhecendo. Não me sinto bem em estar apenas de um lado….

Ora de modo bem-humorado, ora com base no argumento sólido, afastada a abordagem da luta de classes, LB sustenta que os preconceitos residuais de superioridade racial na sociedade angolana devem, em primeiro lugar, implicar a necessidade e a urgência do combate à pobreza e à desigualdade social. E eu acrescento, com base na minha experiência na ADRA, com uma verdadeira inclusão dos cidadãos comuns nos processos de tomada de decisão. Não se resolve o problema em definitivo, é claro, mas permitirá evitar oportunismos e paranóias. Cita novamente Y. N. Harare em Sapiens – De Animais a Deuses, História Breve da Humanidade (2011), referindo que os Ocidentais dos tempos modernos são doutrinados para reprovar a ideia duma hierarquia racial, e reprovam as leis que proíbem os negros de viver em bairros de brancos, ou serem tratados em hospitais que tratam brancos. Já a hierarquia de ricos e pobres, que determina que só os ricos estudem nas escolas de qualidade e tenham acesso aos melhores e melhor equipados hospitais é perfeitamente aceitável.

Mais do que ideológica, o tema do racismo é uma questão humana, como humana é a questão palestina e a passividade dos defensores dos valores ocidentais perante os assassinatos em Gaza e as ocupações de terras na Cisjordânia. Escreve LB, depois de discorrer sobre o esquecido apoio dos nazis à causa sionista: … as motivações de Outubro [de 2023] são mais profundas, e cristalizam a revolta e o desespero da população, outrora senhora das terras da Palestina e agora acantonada em campos de concentração, como é Gaza, e vão gradualmente sendo as pequenas Gazas em que os colonos israelitas estão a retalhar a Cisjordânia;

Porque os considera temas universais, o autor inclui na primeira parte alguns tópicos angolanos, como a conhecida e comovente Carta a Luaty Beirão com o pedido de pôr fim à sua greve de fome. Ao revisitar David Bernardino, interroga-se se o comportamento do seu irmão, nas últimas semanas de vida, não poderia enquadrar-se na mesma pulsão suicida de que fala Regis Debray e que levara Che à Bolívia e teria atingido outros combatentes de esquerda desiludidos com experiências decepcionantes.

Na segunda parte, o assunto é Angola – e resume-se em poucas linhas. Esta Angola que apenas tem uma existência de 51 anos de país independente, é certo, o que pode, até, explicar as dificuldades de afirmação da nação, da construção do Estado e das instituições públicas em geral e da superação das principais sequelas do colonialismo. Esta Angola que esteve sujeita às incidências das alterações do contexto internacional. Mas também é a Angola que não consegue justificar os insucessos na educação e na criação de empregos, nem como foi possível permitir os níveis de corrupção que conhecemos, o que, tudo conjugado, explica a fome e a desnutrição, a pobreza e as desigualdades sociais. A Angola que foi capturada por um partido que domina o Estado, incluindo o poder legislativo e os tribunais, as Forças Armadas e a comunicação social. E o grave é que esse partido deve ter uma percepção de quanto é impopular, a tal ponto que tudo tem feito, pelo menos nos últimos 16 anos, para impedir a institucionalização do poder local. E este impedimento não é por acaso. Ele é imposto porque o tal partido que domina o Estado sabe que esse seria o primeiro passo para perder o seu poder omnipresente, mas, dolorosamente, omni-impotente. A sua falta de visão para o desenvolvimento do País e o seu desprezo pelos cidadãos comuns faz com que uma triste máxima do passado – Angola é Luanda e a capital é a Mutamba – se tenha transformado em Angola é Luanda e a capital é a Chicala.

Termino com uma alusão ao belo texto O Fim do Dia, que representa uma espécie de despedida de LB. A despedida de um pediatra reformado, de um intelectual que não desistiu de observar e analisar o Mundo e Angola e não hesitou, no contexto de grande perplexidade e inquietação que descrevemos, mostrar um caminho. 

Obrigado, Luís!

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