ENTRE VERÃO E CACIMBO (7)

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS  
JAcQUEs TOU AQUI!

Mate a besta! Corte sua garganta! Derrame seu sangue! 

William Golding, no livro O Senhor das Moscas

(escritor inglês, Prémio Nobel de Literatura de 1983)

1 – A minha comadre Ana mora numa rua de um bairro antigo de Lisboa. A zona, de características muito próprias, não é das mais simpáticas, direi mesmo que é um sítio complicado.  Para além do nome da rua estar associado a uma santa padroeira, ligada a obras não acabadas, às chamadas “Obras de Santa Engrácia”, situa-se em terreno acidentado, de difícil acesso. Na semana passada, visitei, mais uma vez, a minha comadre. Gosto do funji que ela cozinha. Nunca faltam os quiabos e a jimboa.  Como desconsegui chamar o Uber, decidi-me a ir a butes, a partir da Estação de Santa Apolónia. Esqueci-me que, aqui na Tuga, qualquer desvio fora da rota ou menos pensado, pode levar-nos a sítios nunca imaginados.

Enquanto caminhava, fui imaginando coisas esquisitas de que já me tinham falado, sobre o local e suas adjacências. Uma fama que vem do século XVI, altura em que foi criada, quer a zona, quer a paróquia que lhe dá nome. Segundo a voz popular, persegue-a uma maldição, devido à condenação à fogueira de um sujeito. Por um roubo cometido na Igreja. O homem, antes de morrer, proclamou a sua inocência, lançando uma praga de que as obras do templo, um processo longo e atribulado, nunca mais terminariam. Daí, a designação das “Obras de Santa Engrácia”! 

Não sei porquê, mesmo com este calor imenso que ainda faz por aqui, vieram-me à lembrança, umas coisas que, em pleno século XXI, também e ainda acontecem na nossa buala. As pragas demoníacas que contemplam a queima de pessoas. São assadas nas fogueiras da vida, da política e da justiça popular!

Afastei fantasmas e, na minha atribulada caminhada, já desnorteada, sempre a subir, fui-me perdendo e enredando no sítio. Engolindo em seco, pensando, nos quiabos e na jimboa da Ana, sem dar por ela, vi-me diante da “Feira da Ladra”, um sítio famoso, de que ouvia falar há muito, muito tempo, e nunca tinha conseguido conhecer! Como era possível eu não conhecer a “Feira da Ladra”?! O sítio estava cheio de turistas, e para meu espanto, de muitos angolanos. Trata-se de patrícios residentes que procuram pechinchas, coisas baratas. Subitamente, dei-me a festejar o engano na rota. Se não tivesse acontecido o desvio de rota, jamais conheceria a famosa “Feira da Ladra”! Valeu a pena, porque ainda deu tempo para compra um livro “Angola e as incertezas da Nação – uma incursão às raízes sociais da Unita”. Escrito por Didier Péclard, com prefácio do nosso Nelson Pestana, o Bonavena. Assinalei bem o sítio e jurei que voltaria ali, mal tivesse condições de o fazer.

Perdido na minha andança, certifiquei, tristemente, que já não sou o atleta de vinte anos atrás, pujante de força. Assim, e depois de umas voltas mais, olhei para as minhas pobres pernas e deparei-me com o Panteão Nacional. Não entrei, fica para a próxima, mas confirmei. Lá, estão sepultados, Almeida Garrett, Amália Rodrigues, Humberto Delgado e Eusébio da Silva Ferreira, a repousar entre outros famosos.

Imaginei Luanda, os morros do Prenda e da Samba. Idealizei, caramba, afinal eu sou um ideólogo! Não ficaria mal o nosso Panteão Nacional ficar ali instalado. Uma ideia que ofereço aos mentores da nossa cultura que se desunham para arranjar atractivos para as nossas potencialidades turísticas. Pensar em turismo é também fazê-lo, a séculos de distância! Lembrem-se que o turismo cultural e de lazer tem raízes na Antiguidade! 

2 – Não costumo embarcar em boatos. Já tenho idade para ter juízo! Mas, na nossa terra, onde nunca se sabe onde e como as verdades se transformam em mentiras com muita facilidade, diz-se, à boca cheia, que a Presidente do Tribunal Constitucional está sob pressão do MPLA para chumbar o recurso do general Higino Carneiro! Afirma-se ainda que, se isso acontecer, haverá manifestações em todo o País.  Será verdade? Vamos ver para crer, e ver quem é quem!

3- Quando esta crónica chegar às mãos do leitor, já o meu Benfica terá somado mais uma vitória, fruto do jogo com o Marítimo, nos Barreiros do Funchal. Neste caso, não haverá boato, vai acontecer mesmo. Sou dos que acreditam no amanhã. Agora com o Palhinha e os outros craques, só vai dar mesmo, Carrega Benfica!

Aqui chegado, vou despedir-me dos meus estimados leitores, dos parentes, dos amigos e companheiros de luta. Com o meu abraço fraterno, digo até ao próximo domingo, à hora do matabicho.

Forte da Casa, Portugal, 6 de Setembro de 2026 

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