Angola não precisa apenas de descobrir mais petróleo ou gás. Precisa de descobrir como transformar os seus recursos em bem-estar para os seus cidadãos. O que falta saber é se, desta vez, a riqueza descoberta no mar chegará de facto à terra onde vivem os angolanos.

Foi nesta quarta-feira anunciada pela Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG) e pela Sonangol Exploração & Produção (SNL-E&P) a confirmação da existência de gás e petróleo na Bacia Marítima de Benguela, após o sucesso da perfuração e dos testes realizados no poço Katambi-2.
No fundo, foi a confirmação do que sabemos, que Benguela continua a ser uma potência nos vários domínios da vida económica de Angola. Pena é que o alarido que se está a fazer em torno da descoberta de petróleo só os incautos possam cair no engodo dos propagandistas, já que o resultado, em benefício dos angolanos, poderá ser mais uma miragem. É mais uma descoberta.
O meu cepticismo tem muito a ver com as elevadas dívidas que mergulharam o país até ao pescoço. Daí que, o resultado desta descoberta possa, em grande medida, servir para pagar dívidas contraídas pelo Governo. Então, não será esta Bacia Marítima que vai salvar o país do elevado estado de degradação, a que tem sido arrastado ao longo dos 50 anos de independência.
A Bacia Marítima vai criar valor para os accionistas. Benguela, particularmente, poderá apenas somar mais uma desgraça, o peixe poderá desaparecer com os derrames de petróleo que eventualmente venham a acontecer. A exemplo de Cabinda.
Podem dizer que o ambiente estará salvaguardado, mas a possibilidade de acidentes e os seus impactos não podem ser ignorados. Esses riscos estão sempre associados à indústria petrolífera extractiva.
O falecido Bispo de Benguela, Dom Óscar Braga, em várias intervenções públicas e mesmo em homilias, alertava para os riscos relacionados com a construção da Refinaria do Lobito. Na altura, também já estavam em curso pesquisas sobre a existência de petróleo nos mares da costa de Benguela.
O velho pastor da Igreja Católica em Benguela apontava para a possibilidade da “morte” da fauna marinha. Hoje, as suas preocupações continuam a merecer reflexão, sobretudo quando se fala de exploração de hidrocarbonetos numa zona onde milhares de famílias dependem directa ou indirectamente dos recursos do mar.
O anúncio, feito no dia 5 de Agosto, surge após a conclusão dos trabalhos de perfuração do poço, localizado a cerca de 1,3 quilómetros do Katambi-1, que revelou dois intervalos produtivos com aproximadamente 331 metros de espessura total.
Segundo os dados técnicos apresentados, os reservatórios encontrados apresentam boa qualidade, com porosidade média entre 9% e 12% e níveis de permeabilidade superiores aos registados em perfurações anteriores na região.
Tudo isto pode ser tecnicamente positivo. Mas o maior desafio de Angola devia passar pela agricultura. O petróleo pode financiar o desenvolvimento. A agricultura, a indústria e o conhecimento é que precisam de o sustentar.
O emprego e a alimentação vêm do sabor da terra. O resto é conversa.
A agricultura pode criar indústrias criativas e cadeias de valor, e Benguela é uma referência neste domínio. O exemplo está na banana seca do Ginha Faró, uma marca que poderá perdurar no tempo, graças a continuidade do Hélio Silva, o “Índio”, jovem bancário que tem apostado na agricultura na cintura “envelhecida” do Cavaco. O general Paulo Gato plantou um hectare de gindungo Kaombo na sua lavra, facto que anunciou nas redes sociais. Talentos dignos de realce. Os angolanos querem trabalhar a terra e muitos estudaram, adquiriram conhecimentos e possuem ferramentas para ultrapassar os constrangimentos que ainda nos prendem no meio rural ou em perímetros agrícolas à volta das áreas urbanas permissíveis a fazer agricultura.
Em Benguela, a transformação agrícola está a acontecer nas pequenas e médias empresas (PME), onde a eficiência passou a valer tanto quanto, ou até mais, do que a dimensão e o Dombe Grande é a maior referência.
O trabalho das PME ganha notoriedade, mas o Executivo continua desalinhado com as suas políticas, com impactos directos na vida de milhares de cidadãos no meio rural. É uma falha estrutural de bradar aos céus.
As autoridades consideram que a descoberta representa um avanço importante para o sector energético nacional, reforçando o potencial da Bacia de Benguela como uma nova área estratégica para a exploração de hidrocarbonetos em Angola.
Tudo bem.
Mas, na ausência de modelos capazes de transformar essa riqueza em desenvolvimento efectivo, com redução da pobreza e da fome, corremos o risco de assistir a mais uma celebração debaixo de holofotes, enquanto a maioria dos angolanos continua a viver à margem da riqueza produzida no seu próprio país.
Angola não precisa apenas de descobrir mais petróleo ou gás. Precisa de descobrir como transformar os seus recursos em bem-estar para os seus cidadãos.
O petróleo pode trazer receitas, mas não pode continuar a ser apresentado como a salvação de um país que precisa urgentemente de diversificar a sua economia, apostar na agricultura, apoiar as PME, criar emprego e garantir segurança alimentar.
Benguela tem terra, mar, gente e conhecimento. Tem agricultura, pesca, indústria e potencial turístico. Tem também petróleo. O que falta saber é se, desta vez, a riqueza descoberta no mar chegará verdadeiramente à terra onde vivem os angolanos.










