Borbulhas nos preços do mercado. Borbulhas no custo de vida. Borbulhas no kwanza. Borbulhas nos transportes. Borbulhas no desemprego. Borbulhas nas promessas que aparecem em época eleitoral e desaparecem mais rápido que uma caixa de Cuca num baptizado.

“O segredo não está na fuba, está no ‘maçarico’”, dizia a avó Luzia Dia Kutuma do Nkusu Mpete, no Uíge.
Há perguntas que só um angolano consegue transformar numa tese de doutoramento sem sair da sombra da mulemba. Uma delas é:
“E, se o funje da Maria Casputo não tivesse borbulhas”?
A lendária Maria Casputo, imortalizada pelo velho Bonga, tornou-se uma espécie de ministra honorária dos assuntos do funje nacional. Diz a lenda que as suas borbulhas eram tão famosas, que até os vizinhos do Sambizanga sabiam quando a panela estava quase pronta.
Quem conhece a música do velho Bonga sabe que aquelas borbulhas não eram apenas um detalhe culinário. Eram uma denúncia. Uma acusação. Uma auditoria doméstica.
O problema não era a fuba. O problema não era a água. O problema nem sequer era a panela. O problema era que a Maria Casputo não sabia bicular. Não sabia “maçaricar”. Não dominava a arte de mexer o funje.
E qualquer mamã do Sambizanga, do Marçal, do Cazenga, do Huambo, do Lubango ou do Bairro Popular sabe que o funje não se faz apenas com ingredientes. Faz-se com técnica. Com paciência. Com experiência. Com suor. Com amor. E, sobretudo, com alguém que saiba segurar o ‘maçarico’.
Ora, meus kotas, olhando para Angola, às vezes parece que o nosso problema também nunca foi falta de ingredientes. Temos petróleo. Temos diamantes. Temos terras férteis. Temos rios. Temos mar. Temos juventude. Temos inteligência. Temos fé. Temos músicos. Temos escritores. Temos empreendedores. Temos até especialistas em comentar tudo sem resolver nada.
O que muitas vezes nos falta é saber mexer a panela. E é aí que aparecem as burbulhas.
Borbulhas nos preços do mercado. Borbulhas no custo de vida. Borbulhas no kwanza. Borbulhas nos transportes. Borbulhas no desemprego. Borbulhas nas promessas que aparecem em época eleitoral e desaparecem mais rápido que uma caixa de Cuca num baptizado.
No entanto, seria injusto culpar apenas quem governa. Porque esta panela chamada Angola está nas mãos de todos nós.
Nas do funcionário que pede gasosa. Do cidadão que fura a fila. Do estudante que cola. Do empresário que foge aos impostos. Do político que promete sem cumprir. Do eleitor que vende o voto por uma t-shirt e um prato de arroz. Todos estamos, de uma forma ou de outra, a mexer esta panela. E talvez esteja aí a primeira lição da Maria Casputo.
“Não basta reclamar das borbulhas. É preciso aprender a maçaricar melhor”.
Talvez precisemos de uma Escola Nacional de ‘Maçarico’ Patriótico. Uma escola onde se ensinasse:
Como gerir sem roubar. Como liderar sem humilhar. Como discordar sem insultar. Como fiscalizar sem destruir. Como construir sem esperar sempre pelo governo. Como amar Angola sem precisar de cargo público. Porque um bom funje não depende apenas da cozinheira. Depende também da qualidade da lenha, da panela e até da atenção de quem está à volta do fogão.
Outra lição importante é que o funje não se faz à pressa.
Em Angola queremos, por vezes, resolver cinquenta anos de problemas em cinquenta dias.
Queremos hospitais em seis meses. Estradas em três semanas. Empregos para todos amanhã de manhã. Mas a própria natureza ensina que certas coisas precisam de tempo.
O milho cresce devagar. A mandioca cresce devagar. A criança cresce devagar. A nação também.
O importante é que o cozinheiro saiba o que está a fazer. E que a panela avance na direcção certa.
Talvez por isso a grande proposta desta crónica seja simples:
Menos barulho. Mais competência. Menos propaganda. Mais resultados. Menos tribalismo. Mais cidadania. Menos esperteza. Mais honestidade. Menos culto da personalidade. Mais culto do trabalho.
Porque quando cada angolano aprender a ‘maçaricar’ bem a sua própria panela, seja na família, na empresa, na escola, na igreja ou no governo, muitas das nossas borbulhas começarão a desaparecer naturalmente.
E quem sabe um dia, lá no futuro, o velho Bonga volte a passar por Angola e encontre uma nova Maria Casputo. Uma Maria Casputo que já aprendeu a bicular. Que já domina o ‘maçarico’. Que já sabe o segredo do funje lisinho. Nesse dia, talvez as borbulhas não desapareçam totalmente.
Porque problemas existirão sempre. Mas serão borbulhas normais de uma panela viva. Não as explosões de uma panela abandonada.
Até lá, meus irmãos, continuemos a vigiar a panela nacional. Porque o futuro de Angola não depende apenas da fuba que temos. Depende sobretudo das mãos que seguram o ‘maçarico’.
E como diria uma velha mamã do mercado do São Paulo:
— Meu filho, quando o funje fica mal feito, não adianta discutir com a panela. Tem de ensinar melhor quem está a mexer.
Bom sábado.
E que Deus abençoe Angola, a terra onde as borbulhas nunca acabam, mas onde a esperança também nunca deixa de ferver.
Bom fim de semana.
*Menga-Ma-Kimfumu










