O JULHO DE 2025 QUE NÃO ABSOLVE O REGIME

A ausência de diálogo transforma problemas sociais em crises de segurança, e a repressão nunca substitui a política: 30 mortos, 277 feridos, 1.515 detenções e a destruição de 118 estabelecimentos comerciais, um balanço que não deve orgulhar quem diz que governa para o bem-estar do povo.

RECADOS DA CESALTINA ABREU (127)

Há um ano, Angola viveu um dos episódios mais graves de repressão estatal desde o fim da guerra civil. O que começou como uma greve de taxistas contra o aumento do preço do gasóleo, evoluiu rapidamente para protestos populares em Luanda e noutras regiões do país, reflectindo uma profunda crise socioeconómica marcada por inflação superior a 27%, desvalorização contínua do kwanza, elevado desemprego juvenil e agravamento da pobreza multidimensional.

Entre 28 e 30 de Julho de 2025, o uso desproporcional da força – incluindo munições reais, execuções sumárias e detenções arbitrárias – resultou em 30 mortos, vítimas de disparos, asfixia causada por gás lacrimogéneo e espancamentos, 277 feridos, 1.515 detenções e a destruição de 118 estabelecimentos comerciais. Os incidentes concentraram-se sobretudo nas províncias de Luanda, Benguela, Huíla, Huambo, Malanje, Bengo e Lunda Norte, segundo balanços institucionais e relatórios sobre os tumultos desencadeados pelo aumento do preço do gasóleo.

Os acontecimentos de Julho de 2025 inserem-se num padrão histórico de repressão, marcado pela normalização do recurso à força policial e militar, como resposta privilegiada ao que as autoridades interpretam como “disputas pelo poder”. Relatórios sucessivos da Amnistia Internacional documentam perseguições persistentes contra opositores, activistas, jornalistas e sindicalistas por parte das forças de segurança do Estado.

Do 27 de Maio à Sexta-Feira Sangrenta (22 de Janeiro de 1993), das manifestações pacíficas de jovens activistas e organizações da sociedade civil desde 2011 ao Massacre do Monte Sumi (2015), passando por 11 de Novembro de 2020, Cafunfo (30 de Janeiro de 2021), Cambambe (22 de Maio de 2022), Huambo (5 de Janeiro de 2023) e Luanda (17 de Junho de 2023), repete-se um mesmo padrão: uso desproporcional da força, restrições à liberdade de reunião, detenções arbitrárias, espancamentos e mortes.

Este ciclo de repressão, que desencadeia graves crises sociais, paralisa serviços essenciais e alimenta confrontos violentos, desenvolve-se num contexto de ausência de diálogo entre governantes e governados. À medida que se agravam as condições de vida, confirmadas pela deterioração dos indicadores socioeconómicos e cívico-políticos, cresce também a insatisfação popular. Se os direitos à greve, à reunião, ao protesto e à manifestação fossem plenamente respeitados, poderiam ter sido evitadas não apenas a paralisação dos transportes e de vários serviços públicos, mas também a actuação de grupos oportunistas responsáveis por saques, barricadas e actos de vandalismo.

O que começou como uma greve de taxistas, transformou-se numa grave crise social e política, demonstrando que o aumento do custo de vida e a falta de alternativas de transporte afectam directamente a estabilidade do país. A ausência de diálogo social, associada à vulnerabilidade económica e à inexistência de políticas públicas eficazes para a mobilidade urbana, criou as condições para a escalada do conflito.

Luanda, Julho de 2025: que lições retirar?

A forte dependência do sector informal, decorrente da escassez de transportes públicos, torna Luanda particularmente vulnerável à paralisação dos candongueiros. É indispensável diversificar e reforçar a rede pública de transportes para reduzir o impacto de futuras subidas dos combustíveis.

Na gestão económica e social, ignorou-se o efeito do aumento do preço do gasóleo sobre o custo dos bens essenciais, sem medidas compensatórias para as famílias mais vulneráveis. O resultado foi uma forte revolta popular e amplo apoio à greve dos taxistas.

O elevado custo humano provocado pelo uso excessivo da força policial e militar agravou a indignação pública. Impõe-se uma resposta institucional diferente, assente na responsabilização, na proporcionalidade da actuação das forças de segurança e em novas abordagens para a manutenção da ordem pública.

O valor do diálogo institucional, que continua a faltar

É urgente criar mecanismos permanentes de diálogo entre o Estado, as associações profissionais e os cidadãos, para impedir que reivindicações laborais evoluam para crises de segurança pública. A inexistência de canais eficazes de negociação agrava a tensão social e compromete a prevenção de conflitos.

Saúde, cuidados e coragem nesta terça-feira!

Kandando daqui!

Filhos de uma das vítimas, assassinada por efectivos da Polícia Nacional. E não estava entre os manifestantes. Apenas fugia da confusão, acompanhada pelo filho. Não se conhece um inquérito, ou qualquer decisão para investigação dos excessos. E de massacre em massacre, caminha a gestão de um sistema de terror que leva 50 anos, que condena activistas, mas manda em liberdade quem faz uso do erário para enriquecimento. Mais facilmente mata, prende ou tortura, do que fazer uso do diálogo. Até quando? Eis a questão.

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