CONTEXTO HISTÓRICO-POLÍTICO E SOCIAL DAS ELEIÇÕES DE 1992

LUÍS DIAS*

As eleições de 1992 em Angola ocorreram em um contexto histórico, político e social extremamente complexo, influenciado por mais de 16 anos de guerra civil, uma história colonial tumultuada e as dinâmicas da Guerra Fria. O evento foi um marco significativo no processo de transição para um regime democrático no país, mas também foi marcado por tensões intensas e uma série de dificuldades que afectaram a sua implementação e os resultados. 

Nesta nossa abordagem analisaremos o contexto histórico, político e social com detalhes:

Contexto histórico

Angola foi uma colônia portuguesa até 1975, e a independência foi conquistada após uma longa luta armada protagonizada por diversos movimentos de libertação, designadamente, a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA). Antes e após a independência, uma guerra civil estourou entre  MPLA, que assumiu o governo, a FNLA e a UNITA, com apoio de alguns sectores em Portugal, dos Estados Unidos da América e da África do Sul.

Durante a Guerra Fria, Angola tornou-se um campo de batalha indireto, com o governo do MPLA recebendo apoio da então União Soviética e de Cuba, enquanto a UNITA recebeu dos Estados Unidos e da África do Sul. A FNLA, enfraquecida pela desestruturação do poder de Mobutu Sesse Seko, no então Zaire, acabaria por quase sucumbir. O conflito foi reflexo das tensões ideológicas da época, mas também dos interesses económicos das grandes potencias ocidentais e do bloco socialista, face o potencial de recursos naturais de Angola.

O contexto histórico das eleições de 1992 em Angola está profundamente ligado a um período de transição política e social, após uma longa guerra civil. As eleições de 1992 foram as primeiras eleições gerais multipartidárias, e um passo crucial no processo de paz, após mais de 16 anos de conflito armado entre o governo do MPLA e a UNITA, com a influência externa já referenciada. 

Contexto político

A guerra civil que começou antes e logo após a proclamação da independência, em 1975, foi brutal, com ambos os lados cometendo violações graves dos direitos humanos. O MPLA, inicialmente visto como um movimento socialista, controlava sobretudo a capital, Luanda, e algumas as áreas urbanas, enquanto a UNITA, liderada por Jonas Savimbi, tinha grande apoio em áreas rurais e no interior do país no Centro/Sul, enquanto a FNLA, estabeleceu domínio em parte do corredor Norte (Zaire e Uíge), tendo chegado as portas de Luanda com o apoio de tropas regulares do exército zairense e mercenários. A guerra civil prolongou-se por mais de uma década, com um alto custo humano e econômico.

Os Acordos de Bicesse, assinados em 1991, representaram uma tentativa de paz, mediadas por Portugal e pelas Nações Unidas. Esses acordos estabeleciam, entre outras coisas, a realização de eleições multipartidárias, o que foi um grande passo na transição para a democracia. O governo de José Eduardo dos Santos (do MPLA) e a UNITA de Savimbi concordaram com o cessar-fogo e o início das acções para a implementação do processo eleitoral.

A comunidade internacional, incluindo as Nações Unidas e várias potências ocidentais, pressionaram para que as eleições fossem realizadas de forma livre e justa. Era visto como uma forma de legitimar a governação, e dar um fim definitivo ao regime autoritário que perdurava desde a independência.

Contexto social

A sociedade angolana era (e continua a ser) extremamente desigual, com grandes disparidades entre as áreas urbanas e rurais. A guerra civil exacerbou essas desigualdades, com as áreas rurais e as províncias mais distantes sofrendo especialmente com os combates, a destruição de infraestruturas e a falta de acesso a serviços básicos. A guerra gerou milhões de deslocados internos, com grande parte da população passando a viver em condições precárias. Muitas áreas do país foram devastadas pela guerra, e as populações locais eram frequentemente forçadas a viver em campos de refugiados ou em condições de extrema pobreza.

A população angolana estava cansada do conflito, com muitos cidadãos desejando um fim para a guerra e melhores condições de vida. A ideia de eleições multipartidárias foi recebida com um misto de esperança e cepticismo, dado o contexto de uma guerra prolongada e a desconfiança entre as partes envolvidas.

O processo eleitoral de 1992

As eleições foram agendadas para 29 de Setembro de 1992, como parte do estabelecido pelos Acordos de Bicesse. No entanto, o processo de preparação foi problemático, com atrasos na organização, dificuldades logísticas e um clima de insegurança em várias partes do país.

O MPLA, liderado por José Eduardo dos Santos, era o partido governante, e a sua plataforma política foi caracterizada por uma continuidade do regime socialista, embora com algumas reformas. A UNITA, liderada por Jonas Savimbi, apresentou-se como a principal oposição ao governo, com um programa de reformas e a promessa de acabar com o que considerava ser o regime autoritário e corrupto do MPLA. Outros partidos políticos, incluindo a FNLA, renascida, também participaram das eleições, mas o processo estava basicamente centrado no confronto entre o MPLA e a UNITA.

As eleições de 1992 foram uma tentativa de realizar a primeira experiência de um processo democrático em Angola. A Organização das Nações Unidas (ONU) e observadores internacionais estiveram presentes para supervisionar o pleito, mas a eleição foi marcada por uma série de problemas, incluindo fraudes eleitorais porque houve zonas em que os diferentes partidos não foram autorizados a fazer campanha, violência e alegações de manipulação do processo. Ainda assim, o MPLA venceu as eleições com 54,7% dos votos, e José Eduardo dos Santos foi reeleito presidente. No entanto, Jonas Savimbi e a UNITA alegaram que houve fraudes significativas no processo eleitoral, e, após a divulgação dos resultados, Savimbi se recusou a aceitar a derrota, acusando o governo de manipular os votos e intimidar eleitores.

Consequências e falhas do processo eleitoral

A UNITA e vários observadores internacionais acusaram o MPLA de manipular os resultados eleitorais em várias áreas do país. Essas alegações de fraude incluíam a intimidação de eleitores, compra de votos, e a alteração de resultados, o controle do MPLA sobre as principais áreas urbanas, incluindo a capital Luanda, e a presença militar nas zonas de votação levantaram dúvidas sobre a imparcialidade do processo, com a oposição argumentando que o ambiente favorecia o partido no poder. Do mesmo modo, o MPLA denunciou que a UNITA mantinha reserva de tropas armadas que não foram acantonadas mas também, que não permitiu a entrada de outros actores políticos nas áreas sob seu controlo.

O processo eleitoral enfrentou desafios em termos de cadastro de eleitores, e muitos angolanos não conseguiram registar-se a tempo ou não receberam a documentação adequada para votar, o que afectou a legitimidade do pleito.

A recusa de Jonas Savimbi em aceitar os resultados e a violência gerada por esse desentendimento, resultaram na retomada da guerra civil. A UNITA não aceitou a vitória do MPLA, e isso levou ao colapso dos Acordos de Bicesse e ao recomeço dos combates.

Apesar das eleições e dos acordos, a falta de confiança mútua entre as partes e a persistente violência no país, resultaram em uma continuidade do conflito. A guerra só terminaria definitivamente em 2002, após a morte de Savimbi e o enfraquecimento da UNITA.

As eleições de 1992 em Angola foram um ponto de viragem na tentativa de transição para um regime democrático, mas também revelaram as profundas divisões políticas, sociais e econômicas do país. Embora o MPLA tenha sido reeleito, o processo eleitoral não conseguiu garantir a paz, e as alegações de fraude e o ceticismo sobre os resultados geraram mais violência e incerteza. 

*Historiador

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