DIA MUNDIAL DA SEGURANÇA ALIMENTAR

RECADOS DA CESALTINA ABREU (97)

“A fome é, conforme tantas vezes tenho afirmado, a expressão biológica de males sociológicos” – Josué de Castro, Homens e Caranguejos, 1967

Hoje, 7 de Junho, assinala-se o Dia Mundial da Segurança Alimentar. Estima-se que um terço dos alimentos produzidos no mundo seja desperdiçado, enquanto milhões de pessoas continuam sem acesso ao suficiente para comer. Não se trata de um fracasso da agricultura, mas da própria condição humana. Num mundo de abundância, garantir alimentos em quantidade e qualidade para todos é uma questão de humanidade, solidariedade e justiça. Como afirmava Josué de Castro“A fome é a expressão biológica de males sociológicos.”

Criada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, esta data procura sensibilizar para a importância da segurança alimentar em todas as etapas da cadeia alimentar — da produção ao consumo -, e recordar que o acesso regular a uma alimentação saudável, adequada e suficiente constitui um direito humano fundamental.

Em Angola, a fome ‘não é relativa’

A insegurança alimentar continua a afectar milhões de angolanos, agravada pelas secas persistentes no Sul e Leste do país, pelas cheias, pela pobreza e pela elevada dependência das importações. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), seis em cada dez famílias enfrentam insegurança alimentar moderada, e uma em cada dez vive em situação severa.

Embora alterações metodológicas recentes dificultem comparações directas com anos anteriores, a realidade permanece inequívoca: a insegurança alimentar continua a ser um dos maiores desafios sociais do País.

O mais recente Índice Global da Fome (2025) coloca Angola na 111.ª posição entre 123 países analisados, classificando a situação nacional como grave. Entre os indicadores mais preocupantes destacam-se a subnutrição de mais de um quinto da população e os elevados níveis de atraso de crescimento infantil.

Segurança ou soberania alimentar?

A forma de enfrentar este desafio depende da perspectiva adoptada. A segurança alimentar enfatiza a garantia de acesso permanente a alimentos suficientes e de qualidade para toda a população. A soberania alimentar acrescenta o direito dos povos de decidirem os seus sistemas de produção e consumo, valorizando a produção local, a sustentabilidade ambiental e as tradições culturais.

Mais do que abordagens opostas, podem ser entendidas como complementares. A soberania alimentar reforça a capacidade de produzir alimentos adequados, saudáveis e culturalmente valorizados; a segurança alimentar assegura mecanismos institucionais capazes de garantir reservas estratégicas e uma distribuição eficaz, especialmente para os mais vulneráveis.

Em ambas as perspectivas, a alimentação é um direito e uma responsabilidade colectiva. Cabe aos Estados, em articulação com a sociedade civil, criar as condições para que nenhum cidadão seja privado desse direito fundamental.

Um domingoo com saúde, cuidados e coragem para enfrentar a insegurança alimentar e contribuir para que nenhum ser humano seja privado de uma alimentação digna. Garantir alimentos de qualidade para todos, ao longo de todo o ciclo da vida, continua a ser um imperativo ético e humano. 

Kandando daqui! 

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