27 MAIO DE 1977. O TESTEMUNHO ARREPIANTE DE BRITO JÚNIOR (PARTE II)

Com a publicação desta Parte II, continuamos a divulgar o conteúdo da carta escrita pelo nacionalista Brito Júnior aos 18 de Julho de 1980, um ano após a sua libertação do Campo de Concentração (ou Recuperação) do Tari – Cuanza Sul, cumpridos dois anos exactos de detenção e de tortura, primeiro na Cadeia de S.Paulo e depois, na Casa de Reclusão, unidades penitenciárias utilizadas pela DISA em Luanda.

Nesta Parte II, Brito Júnior narra, sobretudo, a brutalidade como ele e um companheiro de infortúnio, o Laleca, foram espancados pelo tal “chefe Carlos Jorge”, condecorado pelo Presidente da República (e presidente do MPLA), no quadro da celebração dos 50 anos da proclamação da Independência Nacional. Uma descrição arrepiante, demonstrativa do ‘prazer’ que os quadros da direcção da DISA nessa altura infligiam, pessoalmente, no que consideravam de “castigos”, utilizando, inclusive, uma barra metálica e um martelo de carpinteiro.

Segue-se o conteúdo dessa II Parte do “Testemunho arrepiante de Brito Júnior” em forma de carta endereçada ao então ministro da Segurança de Estado, Lourenço Ferreira “Diandengue”, ao Presidente da República e do MPLA, António Agostinho Neto, ao procurador-geral da República, Antero de Abreu, e ao procurador Popular:

“Daqui não sairás vivo”…

– Gritava o chefe Carlos Jorge

Dia 8/Julho/1977, cerca das 9 horas apareceu o chefe Osvaldo Inácio e ordenou-nos que continuássemos a escrever. Deu-nos os papeis da véspera e as esferográficas. Eu disse-lhe que já não tinha mais nada a escrever, tudo estava dito e ele, sem olhar sequer para as folhas que já escrevera, respondeu-me que ainda não escrevera tudo! Acrescentou que se nos encontrasse parados seriamos castigados novamente. De vez em quando vinha alguém espreitar e nós fingíamos que estávamos a escrever. Embora apresentássemos sinais evidentes de ferimentos e deformação facial, não se dignaram mandar à enfermaria para qualquer tratamento. Às horas das refeições traziam-me a comida normal dos presos, mas eu nem sequer podia mastigar, parecia-me que tinha os maxilares deslocados, o que é natural dado os socos que me deram na cara. Eu e o Laleca continuamos juntos.

Anoiteceu. Cerca das 23 horas chegou o chefe Carlos Jorge, desta vez acompanhado de 3 militares. Estremeci. Verifiquei, de relance, que ele trazia na mão um tubo metálico com cerca de 1,20 metro de comprimento e 8 cms de diâmetro. À ilharga, preso pelo cinto, pendia um martelo de carpinteiro. Logo que chegou junto de mim disse-me que eu não tinha escrito nada. Mostrei-lhe mais de 25 páginas escritas e pedi-lhe que lesse e me dissesse o que é que estava a faltar. A resposta foi um violento soco em pleno rosto. Caí desamparado. De imediato os 3 militares que o acompanhavam caíram também sobre mim e sobre o Laleca: a mesma violência e a mesma brutalidade da noite anterior. Autêntica selvajaria. O chefe Carlos Jorge pegou no tubo metálico atrás descrito e começou a dar, ora sobre mim, ora sobre o Laleca e tanto me atingia na cabeça, nas costas, no peito. Da minha cabeça começou a jorrar sangue e sentia dores terríveis nas costelas e no braço esquerdo, o mais atingido. Estas brutalidades eram sempre acompanhadas de palavrões e os apodos de fraccionistas, bandido, bufo da Pideracista e constantes ameaças de morte próxima. “Daqui não sairás vivo”, gritava o chefe Carlos Jorge. O Laleca, um tanto quanto careca, mostrava mais vivamente os ferimentos na cabeça. Então o chefe Carlos Jorge mandou parar o espancamento e ordenou aos militares a levarem o Laleca para o posto de saúde da prisão. “Se o médico perguntar alguma coisa digam que ele tentou fugir”, disse o chefe. (o médico era o dr. Videira, também preso na altura).

Ficamos na sala somente eu e o chefe Carlos Jorge. Então, numa atitude fria e calma disse-me: (vou reproduzir mais ou menos):

Dispa-te completamente, tu vais morrer e serei eu próprio a tratar-te da saúde.

– Porque me tratam tão desumanamente? Estou seguro de não me ter metido em nada contra-revolucionário, estou seguro da minha inocência, – perguntei enquanto me despia lentamente (era a primeira oportunidade que tinha de falar com os meus torturadores e queria aproveitar ao máximo).

– Tu és um grande bandido, um fraccionista, falavas mal dos mulatos no N’O Angolense e além disso escrevias para o Tribuna dos Musseques, portanto és um bufo.

– Oh, chefe, o facto de ler um panfleto não quer dizer que seja fraccionista. N’O Angolense eu não falava mal dos mulatos, criticava sim atitudes e comportamentos negativos de alguns mulatos assim como critiquei pretos e brancos. O Tribuna dos Musseques surgiu como um suplemento do Jornal ABC e era coordenado por nacionalistas consequentes, Adriano João SebastiãoManuel Pedro PacaviraJaime Madaleno Carneiro e Dias da Silva. Eu, o Roberto de Carvalho, o Maurício Caetano e outros fazíamos alguns artigos de interesse dos musseques. Acho que é melhor perguntarem aqueles que criaram o Tribuna se o jornal tinha alguma coisa a ver com a Pide.  (falei apressadamente para ganhar tempo e aproveitar a maré).

– Todos vocês, Pacaviras e Adrianos, eram bufos e eles também vão pagar mais tarde ou mais cedo.

– Repito chefe Carlos Jorge, que estou inocente e a Disa não me pode culpar de nada, repliquei.

– Estejas descansado que eu arranjar-te-ei culpas que chegam e sobram: tu nos fizeste envergonhar n’O Angolense e é tudo, rematou o chefe.

Dito isto, vendo-me já completamente despido (até obrigou-me a descalçar), mandou-me ficar de braços levantados, voltado para a parede e as mãos apoiadas na parede. Enquanto me virava gritei bem alto quanto os meus maxilares o permitiam: “isto é uma vingança pessoal ou de um grupo”. Isto enfureceu-o e acto contínuo começou a dar-me com o martelo nas costas, violentamente, utilizando as faces do martelo (para evitar ferimentos, suponho). Foi dando, com fúria, desde os ombros até às nádegas e quando eu, por instinto de defesa, tentava virar-me, o chefe dizia: “Fica quieto, se te voltares inutilizo-te, dou-te na pissa”. Depois que se cansou, obrigou-me a sentar. Eu sentia dores terríveis nas costas, na cintura e nas nádegas e não aguentava as dores com as nádegas no chão, mas ele forçou-me até eu assentar. Que dores! Nem sei como resisti e não desmaiei. Ele saiu e fiquei sozinho na sala. O Laleca ainda não tinha voltado do posto médico. Continuava nú, completamente nú, tirintando de frio e transpirando de dor. Compreendi que estava entregue à bicharada e que me queriam fazer sofrer ao máximo antes de me matarem.

Passados momentos o chefe Carlos Jorge voltou para a sala, desta vez vinha acompanhado de 6 ou 7 homens, uns a enfiarem ainda as calças, outros de cuecas (posteriormente vim a saber que eram militares de etnia cuanhama e kioco, que tinham a caserna ao lado da sala onde estávamos). Eu estava enroscado num canto da sala, sentado no chão, tal qual ele me deixara. Aproximaram-se todos de mim e o chefe Carlos Jorge disse, apontando para mim: “Este bandido andava a estudar na Universidade, é um fraccionista e queria ser ministro. Foi ele que matou o comandante Dangereux. Está a vossa disposição, podem fazer justiça”. Vi que um dos homens deu meia-volta e antes de sair disse, expressando-se em mau português: “estou doente, não posso bater”. Naquele momento vi chegar o Laleca, com a cabeça cheia de ligaduras, acompanhado de dois militares, um deles chamado Miranda e que era o chefe da guarnição da prisão. O chefe Carlos Jorge mandou despir também o Laleca, nú em pelota, como se costuma dizer, e deu ordens para começar a nova sessão de pancadaria. Todos caíram sobre nós. Cada um espancou, espancou, espancou, espancou como quis. Éramos bonecos desarticulados, socados, pontapeados, caíamos e éramos pisados. Eu já não sentia a dor, o corpo parecia não ser meu. Pela primeira vez perdi a consciência”. 

Continua… (Parte III)

Esclarecimentos/Contribuições

Com a publicação da primeira parte, recebemos várias reacções de leitores que ajudam a esclarecer (ou clarificar) algumas ‘pontas soltas’ deixadas por Brito Júnior, sobretudo, em relação à identificação de algumas figuras em todo esse processo.

Por exemplo, quem foi o oficial de deligências ‘Kikuto’, que procedeu à detenção de Brito Júnior, no seu local de trabalho, no Ministério da Construção? De acordo com um leitor identificado, Kikuto era o “nome de guerra” de “Diamantino Alves Pedro, que conhecia perfeitamente o Brito Júnior”. Quanto ao Paixão, detentor das fotocópias das 13 Teses de Defesa de Nito Alves, lidas por Brito Júnior, igualmente detido, foi quadro dos  serviços administrativos da RNA (Rádio Nacional de Angola), esposo de Rosa Policarpo, prima de Rosa Sampaio mãe do piloto ‘Bruxo’. O ‘Kikuto’ também conhecia perfeitamente o Paixão, pai do Sicílio Dio da Paixão, do Comando Geral da Polícia Nacional. Viviam todos atrás da Cimex (estrada de Catete), no Bairro Popular. O irmão mais velho do ‘Kikuto’, preso no seu gabinete, na Fabimor (fábrica de montagem de motorizadas), não foi “assassinado por peso de consciência do irmão mais novo que rogou a Onambwê que não podia matar o seu irmão como fora incumbido disso”. Kikuto faleceu em 2024, “desgraçado sem eira nem beira”

De acordo com o nosso leitor, também ele um ex-quadro da RNA, quando foi admitido no referido órgão “soube que um primo do Ludy Kissassunda, que pertencera a FNLA, natural do Soyo, de nome Miguel António (já falecido há mais de 10 anos) foi quem ‘queimou’ o primo Paixão. Foi ele próprio quem me contou numa versão melhorada, depois de saber que também nasci no Dondo. Abriu-se, porque todos na RNA evitavam o gajo”.

Peso de consciência ou pressão internacional a Agostinho Neto? 

Entretanto, segundo comentário de Maria Luísa Abrantes“em Agosto de 1979, cerca de um mês antes do seu falecimento, Agostinho Neto anunciou a libertação dos presos políticos acusados da intentona de 27 de Maio de 1977, durante um discurso na cidade do Menongue”. Possivelmente, de acordo com Maria Luísa Abrantes“num exame de consciência, por conhecer o seu diagnóstico, adivinhando o seu fim”. 

Agostinho Neto, acrescentou, “nessa altura disse, (pressionado pela comunidade internacional e por familiares seus que perderam filhos e irmãos), que (…) alguns não deveriam lá estar…”. ⁠Todavia, acrescentou, “houve prisioneiros que não foram libertados de imediato, por desorganização da DISA. Após a sua tomada de posse, José Eduardo dos Santos ordenou a imediata libertação dos restantes presos políticos e extinguiu a DISA, tendo sido muito criticado no seio do seu partido por ter tomado tal decisão”. 

De acordo com a contribuição de Maria Luísa Abrantesem substituição da DISA,  foi criada uma Secretaria de Estado dependente do Ministério do Interior, cujo secretário de Estado era o “Diandenge” (Lourenço José Ferreira), um “maquisard” natural de Icolo e Bengo, com um ensino de base limitado, leccionado por professores de posto com as mesmas habilitações”. 

Para Maria Luísa Abrantes, ⁠⁠Agostinho Neto “impôs que os prisioneiros políticos, depois de libertos, fixassem residência em províncias distantes de Luanda, por um período de 5 anos. Todavia, José Eduardo dos Santos ordenou que não fosse implementada tal medida política”.

Finalmente, quando a 18 de Julho de 1980 Brito Júnior terminou a carta, já Agostinho Neto tinha falecido (10 de Setembro de 1979, em Moscovo, aos 59 anos), pelo que, o Presidente da República a quem endereçou foi já José Eduardo dos Santos, empossado aos 21 de Setembro de 1979, com 37 anos.

Por essa altura, provavelmente, era o enfermeiro de posto Manuel Bento, quem exercia as funções de procurador Popular. A seu pedido, por razões de saúde e para tratar-se, foi nomeado embaixador de Angola em Bruxelas. 

Até ao momento, não recebemos qualquer contribuição para identificação de Laleca, companheiro de Brito Júnior na Cadeia de S. Paulo. Terá sobrevivido à tanta tortura?

Edição de Ramiro Aleixo

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