ANGOLA: OS PIRILAMPOS DO PODER COM LUZES DE ESQUERDA E VOOS DE DIREITA

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

Angola não precisa de pirilampos vaidosos. Precisa de líderes com luz contínua. Luz que ilumina escolas, hospitais, empregos e esperança. Porque luz que só serve para aparecer na TPA já não impressiona ninguém. Até candeeiro público hoje promete mais estabilidade ideológica.

Em Angola, a política já não se faz com ideologia. Faz-se com GPS avariado. O camarada acorda socialista, almoça liberal e janta capitalista com guardanapo importado do Dubai. É por isso que os nossos políticos parecem mesmo pirilampos: piscam à esquerda só para enganar o povo… mas o voo é sempre à direita, onde tem ar-condicionado, condomínio fechado e conta bancária musculada.

Antigamente, os kotas falavam de revolução, igualdade, justiça social e “o poder popular”. Hoje, o poder continua popular… mas popular apenas entre os primos, cunhados, sogros e amigos da banda do camarada. O povo mesmo ficou só com a popularidade da fome e da gasolina cara. O mais engraçado é ouvir certos discursos. Eh pá… o camarada sobe ao púlpito com voz de quem acabou de sair da mata do Mayombe: “Temos de defender os mais pobres”! Mas quando termina o discurso, entra num V8 que bebe combustível como quem bebe Cuca no fim-de-semana, e desaparece rumo ao Talatona, onde o único pobre permitido é o segurança no portão.

Os nossos políticos são tipo candongueiro sem rota fixa. Hoje estão na esquerda revolucionária; amanhã já defendem privatização, negócios milionários e “parcerias estratégicas”. Traduzindo no mwangolê político: “Mano, ideologia não enche barriga”.

E o povo? O povo já nem se espanta. O cidadão angolano virou especialista em sobrevivência emocional. Já sabe que quando o político fala “sacrifício”, quem vai sofrer é o pobre. Quando fala “reestruturação”, alguém vai perder emprego. E quando diz “medidas económicas difíceis”, prepara já o coração porque o preço da matabela vai subir outra vez.

O mais perigoso desses pirilampos do poder é que brilham muito durante as campanhas eleitorais. Parecem árvore de Natal da Mutamba. Distribuem sorrisos, abraços, promessas, danças de kuduro e até selfie com zungueira. Mas depois das eleições… apagam-se. Ficam invisíveis como a água da EPAL em certos bairros.

Tem também aquele tipo de político-acrobata. Eh pá, esse merece medalha olímpica. Passa a vida inteira a insultar o capitalismo: “Imperialismo! Neocolonialismo! Exploração”! Mas o filho estuda em Londres, a esposa arranja unhas em Lisboa e ele próprio vai tratar da tosse em Paris, porque “a junta médica recomendou”. Aí o povo olha e pergunta: “Mas kota… afinal o socialismo é só para nós”?

Em Angola há camaradas que odeiam os ricos… até ficarem ricos. Depois começam a dizer: “O importante é incentivar o empreendedorismo”. É uma transformação espiritual mais rápida que milagre de Igreja Universal do Reino de Deus. E não nos enganemos: esquerda e direita aqui já são apenas direcções do pisca-pisca político. O importante não é a ideologia; é a boleia para o banquete. O camarada hoje defende o povo com lágrimas nos olhos, amanhã já está num conselho de administração a defender lucros “em nome da estabilidade macroeconómica”.

O povo angolano, coitado, vive no meio dessa discoteca ideológica. Um partido pisca vermelho, outro azul, outro verde… mas no fim todos acabam no mesmo restaurante chique a comer lagosta e a falar francês nasalado: “Mon frère, la situation est compliquée…”. Complicada para quem, kota? Porque o povo continua no táxi azul-e-branco, a saltar buraco, a sofrer com salário magro e a ouvir promessas embaladas em conferências pomposas sobre “diversificação económica”. Diversificaram tanto que agora até a pobreza ficou moderna.

Mas apesar de tudo, o angolano ri. Faz meme. Mete piada. Transforma sofrimento em kizomba emocional. Porque se levarmos certos pirilampos do poder demasiado a sério, acabamos todos internados no Hospital Psiquiátrico de Luanda a discutir ideologia com poste de iluminação pública. Pois, o Papa Kitoko já parou. 

No fundo, Angola é uma terra maravilhosa de pirilampos políticos: pequenas luzes no discurso… grandes voos rumo ao conforto. E enquanto eles continuam a piscar à esquerda e voar à direita, o povo segue no meio da estrada, tentando apenas sobreviver sem ser atropelado pelas asas do poder.

No meio dessa comédia nacional, talvez ainda haja esperança para os nossos pirilampos políticos. Mas para isso, convém recalibrar as luzes, porque o povo já está cansado de tanta piscadela ideológica com voo VIP incluído.

Meus senhores pirilampos do poder, o povo não precisa apenas de discursos fluorescentes na campanha eleitoral. O povo precisa de água que sai na torneira sem precisar de oração de intercessão. Precisa de estrada sem buraco do tamanho de piscina olímpica. Precisa de hospital onde o doente entra para curar e não para fazer estágio antecipado no além.

Está na hora de voarem menos para os condomínios fechados e mais para os bairros onde o cidadão ainda chama o gerador de “ministro da energia”. Menos conferência climatizada sobre pobreza e mais contacto com a realidade onde a mamã zungueira já faz cálculo mental digno da NASA para sobreviver ao preço do tomate. Porque sinceramente, kota… não dá para continuar a falar de “sacrifício do povo” com barriga de buffet internacional e relógio que custa três casas no Cazenga. Assim até o mosquito da malária fica confuso sobre quem realmente precisa de rede.

O povo angolano não exige milagres. Só quer coerência. Se piscam à esquerda, então voem pelo menos um bocadinho na direcção do povo. Nem que seja voo low cost. Porque ultimamente há camaradas que levantam bandeira socialista de manhã e à noite já estão a negociar capitalismo turbo com sotaque português: “Meu caro, temos de proteger os investimentos…” Investimento de quem, meu irmão? Da senhora que vende ginguba na rua ou do empresário que já tem mais terreno que capim no Huambo?

A verdade é que Angola não precisa de pirilampos vaidosos. Precisa de líderes com luz contínua. Luz que ilumina escolas, hospitais, empregos e esperança. Porque luz que só serve para aparecer na TPA já não impressiona ninguém. Até candeeiro público hoje promete mais estabilidade ideológica.

Então fica aqui o apelo fraterno: reajustem essas luzes, kotas. Voem mais baixo, mais perto do povo real. Troquem menos de ideologia como quem troca camisola de clube. E lembrem-se: o povo pode até ser paciente, bem disposto e especialista em transformar desgraça em meme… mas até o candongueiro um dia para quando o combustível acaba. E cuidado: quem vive apenas de piscar para o povo corre o risco de um dia descobrir que o povo também aprende a apagar o interruptor.

E, eu? O meu melhor pirilampo, só pisca quando o pingo do bom vinho tinto, da adega lá do fundo da tonga, cria uma metamorfose no metabolismo e começa a banzelar, cantando o refrão: “É só problema que tamos com ele” do Keima Roupa. 

Bom final de semana meus avilos. 

*Menga-Ma-Kimfumu

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