
Não há nada mais perigoso do que um poder que, ao sentir o trono a ranger, decide que a melhor forma de o segurar é pregar as mãos aos braços da cadeira. João Lourenço não parece estar a apressar o passo por convicção; está num atraso estratégico monumental.
Ao usar o aparelho do partido simultaneamente como árbitro e jogador, transformou a liturgia do poder num exercício de amadorismo ruidoso. É a soberba de quem acredita que a força do cargo dispensa o rigor dos manuais e o respeito pelos símbolos.
A decadência da “Maestria”: o original vs a cópia
Reside aqui a fina flor da nossa tragédia política: a diferença entre o original e a cópia mal editada. José Eduardo dos Santos fundiu o Estado e o partido com precisão cirúrgica, dominando a liturgia do silêncio. Se o antecessor usava um véu para dissimular a costura do poder, o actual consulado usa um megafone.
O cidadão aceitou o autoritarismo de outrora como uma “herança de guerra”, mas sente dificuldade em aceitar o actual como uma “ferramenta de reforma”.
O que nos é servido hoje é um “estelionato político”: prometeu-se a separação de águas e entregou-se uma inundação de ilegalidades estatutárias que ferem a estética da República.
Os “Alfaiates” jurídicos e o oportunismo preventivo
Os juristas que hoje tentam “coser” a continuidade do actual líder, são movidos por uma soberba técnica que ignora o básico. Na Revisão de 2021, desenharam uma armadura que, em vez de proteger o Rei, o imobilizou. Mas fica a dúvida: terá sido apenas incompetência ou uma “partida” de longo prazo?
No nosso xadrez, a traição costuma vir disfarçada de erro técnico. Se o trono cair, não duvidem: estes mesmos juristas serão os primeiros a surgir publicamente com a sobrancelha erguida, alegando que deixaram lacunas propositadas para “permitir a oxigenação do sistema”. É o cinismo como seguro de vida.
O laboratório da percepção e a ressurreição forense
Não somos detentores da verdade absoluta, mas a história política de Angola tem sido escrita em laboratórios de contrainformação. Se no nascimento da República se fabricavam mitos de barbárie com órgãos desviados de academias para satanizar o adversário, hoje assistimos a uma reedição dessa estética da mentira.
A súbita “arqueologia” do 27 de Maio, encenada pela CIVICOP no Cemitério da Mulemba (14), surge precisamente quando a linhagem do “Fundador” regressa ao tabuleiro político pela voz de Irene Neto.
Esta manobra de contenção roça o surrealismo: a CIVICOP consegue a proeza de “descobrir” as ossadas de quem ainda respira.
Como podem os restos mortais do n.º 440 da lista (o cidadão conhecido como Tinito) ter sido identificados no Lote 14, se o próprio continua vivo e aparentemente a frequentar as cadeiras do próprio Comité Central do MPLA?
Este não é um erro forense; é a prova de que a pressa em fabricar cadáveres por conveniência política ignora a própria realidade física dos seus quadros.
A arte da distração e o “micate no gasóleo”
O uso do trauma serve como a cortina de fumo perfeita para que não se discuta o essencial: a miséria técnica dos juízes que permitiram que o presidente presidisse à sua própria comissão eleitoral.
No entanto, os factos não se escondem: borraram o micate no gasóleo do Mimoso. A mistura é intragável. O rigor que o regime utilizou no passado para invalidar congressos da oposição regressa agora como um bumerangue. Ao permitirem que o líder fosse árbitro e jogador, fabricaram a munição que agora os persegue.
A vitória de Pirro
A “vitória” que o regime procura hoje é um banquete estragado. O passado tinha o conforto do petróleo a cem dólares. Hoje, temos ajustes directos de 22,2 milhões de dólares com a Gemcorp enquanto as farmácias se esvaziam. Se no passado a célula se comia para purgar o pensamento, hoje a autofagia do MPLA acontece por inanição ética.
Senhor Presidente, os vossos conselheiros não vos deram uma estratégia; deram-vos um labirinto onde se enganaram no desenho e acabaram por vos trancar do lado de fora da saída. O Rei parece estar nu, atrasado e cercado de “génios” que já estão a ensaiar o álibi para o próximo ocupante do trono.
Em política, quem vive pela espada do rigor selectivo, acaba por cair pelo fio da própria incoerência.










