
Enquanto tratarmos os jovens em situação de vulnerabilidade como suspeitos, em vez de os acolhermos como cidadãos com potencial, estaremos apenas a apagar incêndios, sem nunca resolver as causas profundas da fogueira.
Nos últimos tempos, temos assistido, em vários pontos do país, a actos de vandalismo que deixam marcas profundas no património público e na estabilidade social. Em muitos casos, estes incidentes são apressadamente rotulados como “casos de delinquência comum”, ignorando-se as suas verdadeiras raízes. A fome, o desemprego estrutural, a exclusão social e o elevado custo de vida não são justificações para a violência, mas são o terreno fértil onde ela germina. Prevenir o vandalismo exige, por isso, uma mudança de paradigma: mais do que reforçar o policiamento repressivo, é urgente construir um Estado social que acolha a juventude e lhe devolva o direito de sonhar.
O primeiro passo para desarmar os ânimos de quem se sente abandonado, é garantir o mínimo existencial. Não se pode esperar paz social num contexto em que famílias inteiras enfrentam a insegurança alimentar. Programas como o Kwenda, precisam de ser expandidos e aperfeiçoados para chegar, de facto, às comunidades mais vulneráveis. Contudo, a transferência de renda deve vir acompanhada de estruturas de apoio imediato, como cantinas comunitárias e merenda (refeição) escolar universal. Uma criança que come todos os dias na escola, não é apenas uma criança nutrida; é uma criança com menos probabilidade de ser recrutada para a violência urbana.
Mas a fome não é a única chaga. Angola é um país maioritariamente jovem, e a sensação de inutilidade gerada pelo desemprego é um combustível perigoso para a revolta. É imperativo que o Estado crie programas de emprego público local. Bairros periféricos de Luanda, Icolo e Bengo, Benguela, Huíla ou Cabinda estão cheios de jovens dispostos a trabalhar.
Por que não organizá-los na limpeza e embelezamento de zonas urbanas, na manutenção de vias nacionais, secundárias, terciárias e no interior das localidades, na arborização e no saneamento básico? Para além do sustento, estas acções devolvem o sentimento de pertença e de conforto às comunidades. Afinal, quem ajuda a construir e a limpar o seu bairro tende a protegê-lo, e não a destruí-lo.
A par do emprego, precisamos de uma revolução na formação profissional. É urgente instalar centros técnico-profissionais nos bairros, não com cursos genéricos, mas focados na economia real: construção civil, electricidade, agricultura urbana, serralharia, mecânica, carpintaria e economia digital. A juventude precisa ver sentido no futuro. Quando um jovem tem acesso a um computador, a uma oficina de mecânica ou a um projecto cultural, ele troca a esquina pelo sonho.
No entanto, a política pública só fará sentido se for construída em diálogo com as comunidades. Temos que fortalecer as comissões de moradores, os clubes, grupos de animação cultural comunitários e as lideranças religiosas. Essas são as verdadeiras trincheiras contra o caos. É nesses espaços que se faz a mediação de conflitos, antes que estes cheguem às redes sociais ou às barricadas. É urgente criar canais anónimos de denúncia, para que as comunidades possam afastar os incitadores da violência sem medo de represálias, ao mesmo tempo que se institui um policiamento de proximidade, onde o agente da autoridade é visto como protector, não como ocupante.
Paralelamente, não podemos ignorar a dor de bolso que assola as famílias. O elevado custo de vida é um gerador de desespero silencioso. O vandalismo muitas vezes explode em protestos contra a carestia. Portanto, a prevenção também passa pela política económica: monitorar os preços dos bens essenciais, coibir a especulação, reduzir impostos sobre a cesta básica e promover a produção local de alimentos. Um povo que consegue alimentar-se com dignidade tem mais serenidade para resolver as suas diferenças no campo do diálogo.
Por fim, é crucial investir na educação cívica. Não uma educação moralista, mas prática. As escolas e as rádios locais devem ser palco de debates sobre os prejuízos do vandalismo. É preciso mostrar, com exemplos concretos, que a destruição de uma escola, de um posto de saúde ou de uma central eléctrica não prejudica o “governo”, mas sim o irmão que precisa de atendimento e a criança que precisa de luz para estudar.
Em suma, prevenir os actos de vandalismo exige coragem política para olhar para a pobreza e a exclusão social não como fatalidades, mas como desafios a serem vencidos. A resposta não pode ser apenas a força bruta. A verdadeira segurança constrói-se com justiça social, com oportunidades para a juventude e com a criação de um ambiente económico menos hostil. Enquanto tratarmos os jovens em situação de vulnerabilidade como suspeitos, em vez de os acolhermos como cidadãos com potencial, estaremos apenas a apagar incêndios, sem nunca resolver as causas profundas da fogueira.
O futuro de Angola será pacífico na medida em que formos capazes de oferecer presente e esperança àqueles que hoje vivem às margens da sociedade.











