
RECADOS DA CESALTINA ABREU (61)
O sol e o vento são para todos. Já o petróleo… o que isso nos diz sobre o mundo de hoje?
A guerra movida pelos EUA e Israel contra o Irão, para além de demonstrar que nunca faltam recursos para destruir, será que fará as potências mundiais repensarem o papel das renováveis no fortalecimento da segurança energética e na preservação da vida na Terra?
Este contraste evidencia a tensão entre a democratização da energia renovável (solar e eólica) e a concentração de poder dos combustíveis fósseis. Vivemos um tempo de transição, dividido entre a urgência da descarbonização e a dependência geopolítica de recursos que geram conflitos, poluição e desigualdade.
Por um lado, sol e vento representam energia potencialmente acessível a todos: recursos renováveis, inesgotáveis e descentralizados. A tecnologia permite, cada vez mais, que países e cidadãos produzam a sua própria energia, reduzindo dependências e ampliando o acesso.
Por outro, o petróleo — recurso finito e geograficamente concentrado — alimenta disputas, desigualdades e impactos ambientais. Três em cada quatro pessoas vivem em países dependentes de importação, enquanto um pequeno grupo de nações concentra a oferta global.
O paradoxo do nosso tempo é claro: a crise climática exige uma transição energética, mas a economia mundial continua ancorada no petróleo, sobretudo nos transportes e na produção. As grandes potências mantêm essa dependência — EUA, União Europeia e China representaram cerca de 46% das emissões globais em 2024.
Embora a energia solar já se mostre viável e competitiva em larga escala, a mudança enfrenta barreiras estruturais, políticas e sociais: infraestruturas consolidadas, potenciais perdas de emprego, dificuldades de implementação de reformas e uma procura energética crescente.
O petróleo é mais do que uma contradição — é uma realidade omnipresente. Move motores, economias e civilizações. Como nos antigos paradoxos alquímicos, é simultaneamente problema e parte da solução.
As transições energéticas anteriores — da lenha ao carvão, do carvão ao petróleo, e deste ao gás e nuclear — foram longas e complexas. A actual transição “verde”, apesar do entusiasmo, continua dependente dos materiais, da logística e do capital acumulado ao longo de décadas de exploração fóssil.
Nenhum painel solar surge do nada, nenhuma turbina eólica se ergue isoladamente. Há cadeias inteiras de produção e suporte — técnicos, máquinas, transporte, infraestruturas — ainda movidas a petróleo. É nesse aparente paradoxo que pode residir o caminho: usar o “velho” para construir o “novo”, transformar o lucro do carbono em investimento em dignidade — alimentos, saúde, educação.
O mundo caminha para sistemas energéticos plurais, onde petróleo, vento, sol, biomassa e hidrogénio coexistirão por décadas, talvez séculos. Mais do que substituição, o processo será de adição e complementaridade.
O petróleo não desaparecerá de imediato. Continuará a sustentar parte significativa da produção energética, financiando ciência, inovação e a própria transição. Até porque as chamadas energias limpas ainda dependem dele: turbinas eólicas usam derivados de carbono; painéis solares exigem mineração intensiva, transporte e processos industriais alimentados por combustíveis fósseis.
Cabe-nos, então, usar este tempo — que o próprio petróleo ainda proporciona — para acelerar a maturação das tecnologias verdes, reforçar infraestruturas e influenciar a vontade política. A transição energética não pode ser adiada: ignorá-la seria ambiental e socialmente irresponsável.
Bom sábado. Saúde, cuidados e coragem para, também nesta área, assumir um posicionamento em defesa da vida e do futuro.
Kandando daqui!










