O POMAR DAS SETE FACES

JOAQUIM SEQUEIRA

O amor não é uma fortaleza a defender, mas uma rede a tecer, mesmo com aqueles que vieram para ocupar.

Num laranjal habitado por três laranjas emblemáticas — Aurora (a alegria), Raiz (a esperança) e Sentinela (o cuidado) — o equilíbrio sustenta todo o ecossistema. A harmonia é rompida quando um jardineiro introduz enxertos de limoeiro-azedo, cujos frutos, Ácido e Ferro, ocupam espaços indevidos e aniquilam as espécies vizinhas. Uma segunda invasão traz Farta, uma tangerineira híbrida que se prolifera com doçura vazia, sufocando o que resta. Surge ainda Camaleão, um fruto metamórfico que se infiltra sem identidade fixa.

Instala-se um conflito de existências: as espécies invasoras disputam luz, água e território, enquanto as três laranjas originais são empurradas para as margens. O aniquilamento atinge as flores silvestres, as abelhas antigas e, sobretudo, os pequenos frutos que poderiam dar continuidade ao amor das três laranjas. Cada nova geração é eliminada antes de crescer.

Apesar do caos, emergem espaços de sã convivência: Aurora encontra acolhimento em Doce, um rebento dócil de Farta; Raiz partilha saberes subterrâneos com Raiz Pequena, um limão sensível às raízes; Sentinela estabelece uma relação improvável com Camaleão, que encontra na sua vulnerabilidade uma lição de coragem.

Perante a inviabilidade da luta na copa, as três laranjas sacrificam-se. Deixam-se cair e enterram as suas sementes na antiga cova onde as raízes invasoras não chegam. Dessa morte germinam três novas laranjeiras — as Três Irmãs — que crescem lentamente, incorporando as virtudes das antecessoras: um brilho contido, uma esperança paciente, uma vigília sem medo.

As novas laranjas não expulsam os invasores, mas estabelecem uma coexistência resiliente, contornando obstáculos sem os destruir. Com o tempo, ensinam que a diversidade não é uma falha a corrigir, mas uma riqueza a cultivar. Doce, Raiz Pequena e até Camaleão integram-se numa nova teia de relações.

O laranjal transforma-se: os conflitos persistem, mas já não aniquilam. As três laranjas antigas já lá não estão, mas o seu amor permanece, espalhado pelas raízes, renovado em cada estação. O laranjal inteiro aprende que o amor não é uma fortaleza a defender, mas uma rede a tecer, mesmo com aqueles que vieram para ocupar.

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