CUBA E O DIA DA LIBERTAÇÃO DA ÁFRICA AUSTRAL

ORLANDO VICTOR MUHONGO

A história é implacável com a falta de gratidão e lealdade. O tempo pode passar, mas, lá à frente, cobra sempre o devido preço. 

Alguns pensadores consideram o tempo o maior contador de histórias. A referida sentença é de todo imprecisa, na medida em que, dependendo das características da sociedade e dos interesses colocados em marcha, o tempo pode ser usado como falso pretexto para se justificar uma amnésia colectiva “programada”, ou como ferramenta para o apagamento e revisionismo histórico.

A dimensão do papel de Cuba nas lutas dos povos de África pela sua emancipação e contra o jugo colonial, sobretudo a partir do início da segunda metade do século XX, encerra um significado histórico cuja imponência é impossível de se apagar, nem mesmo manipulando a elasticidade do tempo ou por via de conveniências políticas.

Tal como menciona Gleijeses (2022), na Argélia, no Mali, Gana, Guiné-Conacry, Guiné-Bissau, Congo-Brazzaville, Zaire, Angola, e vários outros, a solidariedade internacionalista de Cuba foi incontornavelmente o farol que iluminou de forma concreta os caminhos da independência de parte dos países africanos, fosse por via do auxílio político e diplomático, ou através do apoio militar directo. 

Angola é indubitavelmente o país africano que mais benefício obteve da assistência de Cuba em diversos momentos da história. O auxílio militar decisivo, que permitiu travar a entrada de mercenários, das tropas do ELNA e do exército de Mobutu em Luanda durante a Batalha de Kifangondo, horas antes da proclamação da independência; a muralha humana que travou a invasão sul-africana no Cuanza-Sul durante a Batalha do Ebo; as décadas de assistência com médicos, professores, engenheiros e técnicos dos mais variados sectores, num momento em que Angola carecia de  mão-de-obra especializada; o envio de milhares de bolseiros para Cuba, dando origem ao maior processo de formação de quadros angolanos no exterior do país, o suporte em matéria de inteligência, que permitiu salvar o nascimento da República numa perspectiva soberana e não como um apêndice dos velhos algozes imperialistas (tal como pretendiam certos sectores), foi graças à ajuda de Cuba.  

Quando, em Dezembro de 1987, as tropas cubanas começaram a ser enviadas para o Cuito Cuanavale, diversas Brigadas das FAPLA já travavam combates na região há alguns meses, como por exemplo a ofensiva nas margens do rio Lomba em direcção a Mavinga, a 17 de Agosto de 1987. A entrada em acção de forças sul-africanas, no intuito de frear a ofensiva das FAPLA, e toda a sequência de confrontos conduziram aos acontecimentos de Março de 1988.

Entre as 4h e as 14h do dia 23 de Março de 1988, nos campos minados do Triângulo do Tumpo, foram travadas as dez horas de batalha que definiram a geografia da África Austral. Nesse mesmo dia, tropas angolanas e cubanas frustraram três tentativas de avanço decisivo do exército mais poderoso e equipado de África. Mesmo com 3 000 soldados sul-africanos empenhados no sudoeste de Angola e com os famosos tanques Olifant, o Regimento Groot Karoo, forças comandadas pelo Coronel Gerhard Louw, regressou para a África do Sul derrotado, sem ocupar a região estratégica do Cuito Cuanavale.

Foi o desfecho dos combates de 23 de Março de 1988 que esteve na origem do choque de realidade do regime racista de Pretória. Nove meses depois da gesta histórica de angolanos e cubanos no Triângulo do Tumpo, os sul-africanos aceitaram finalmente obedecer aos termos da Resolução 435/78 do Conselho de Segurança da ONU, que se recusavam a cumprir desde 1978.  

Os Acordos de Nova Iorque, de 22 de Dezembro de 1988, foram assinados por representantes de Angola, de Cuba e da África do Sul. Os EUA posaram na fotografia no papel de mediador, embora desde sempre tenham sido parte da agressão contra a soberania do Estado angolano, ao lado dos sul-africanos, em apoio aos insurreccionistas internos. 

Ao contrário das forças invasoras da África do Sul do Apartheid, que tinham entrado no território angolano violando a soberania deste Estado, as tropas cubanas estavam em Angola em resposta a um apelo das autoridades legítimas do país. Porém, o facto de, em decorrência dos Acordos de Nova Iorque, se ter forçado uma equiparação da saída dos invasores sul-africanos com a saída das tropas cubanas, deixou evidente que se tratou de um prémio de consolação solicitado pelos perdedores (mas também o receio de que por via da Namíbia, angolanos e cubanos projectassem operações em direcção à África do Sul), além da remota esperança de que, sem a presença dos cubanos, talvez os insurreccionistas angolanos aliados do Apartheid tivessem mais chances nos confrontos com as FAPLA.    

O desfecho daquela batalha no Cuito Cuanavale, em 23 de Março de 1988, resultou assim nos Acordos de Nova Iorque, em 22 de Dezembro do mesmo ano, que ditaram a implementação da Resolução 435/78 do Conselho de Segurança da ONU, cujas consequências foram a independência da Namíbia, o fim do Apartheid, a libertação de Nelson Mandela e a segurança de todos os países da região Austral de África, que directa ou indirectamente eram vítimas da hostilidade do regime de Pretória.      

Em 10 de Maio de 1990, três meses depois de ter sido posto em liberdade, Nelson Mandela visitou Angola. Durante um acto de massas em Luanda, em jeito de agradecimento, Mandela recordou que O ANC mandou jovens para Angola para receberem treinamento militar. Isto foi realmente muito importante e foi um ponto de viragem na história da África do Sul. Porque, como resultado desse apoio generoso que recebemos do governo e do povo de Angola, esses jovens formaram-se e isso serviu para intensificar a luta armada”.

Em Julho de 1991, Nelson Mandela visitou Cuba. Melo (2016) refere que o dirigente sul-africano foi a Cuba agradecer ao líder cubano, Fidel Castro, pelo papel desempenhado pela pequena ilha caribenha na luta contra o regime racista de Pretória. (…). Disse Mandela sem meias palavras, que, sem a participação de Cuba na luta contra as forças armadas sul-africanas, em especial na célebre batalha de Cuito Cuanavale, em Angola, ele teria ‘morrido na cadeia’”.  

A política externa de um Estado deve estar assente na identidade e valores que o caracterizam. Porém, correntes neoconservadoras proliferam um falso ideário baseado nos anacronismos de um Lord Palmerston do século XIX, segundo o qual não existem amigos permanentes, apenas interesses permanentes”. Mais do que expressar o oportunismo visceral na história das alianças anglo-saxónicas com outros povos e Estados, a frase é reflexo da cultura da mentira e da lógica imperialista da Grã-Bretanha, de cuja diplomacia Palmerston é símbolo. 

Por maior que seja a influência das práticas ocidentais em diversos âmbitos das Relações Internacionais, as nações da Ásia e do Leste europeu exercem política externa baseada em princípios e valores endógenos. Os próprios cubanos têm a sua própria forma de ser e de estar no concerto das nações. Quando, em 2001, Cuba ofereceu ajuda médica humanitária aos EUA (país inimigo) em decorrência do atentado de 11 de Setembro; quando, em 2020, Cuba enviou brigadas médicas para ajudar a Itália abandonada pela Europa com milhares de mortes em plena pandemia da Covida-19, quando Cuba, por meio da Operação Milagre, curou gratuitamente 3 milhões de pessoas de 34 países, que padeciam de catarata e outras enfermidades oculares, estas e outras acções reflectem a identidade da política externa cubana.                   

A dimensão histórica da Operação Carlota reside no facto inequívoco de que Cuba foi decisiva para a afirmação de Angola como um Estado soberano e por meio do qual os demais povos da África Austral podem traçar o próprio caminho e construir os seus sonhos. Nada paga a dor das mães cubanas que perderam os seus filhos em solo angolano. A dívida de Angola para com Cuba é uma dívida de sangue. 

A história é implacável com a falta de gratidão e lealdade. O tempo pode passar, mas, lá à frente, cobra sempre o devido preço. 

Façamos por Cuba aquilo que a honra e a dignidade exigem que façamos pela sagrada ilha do Caribe, neste momento em que persiste a asfixia imposta pelos inimigos da humanidade contra o heróico povo cubano. Dizer obrigado, com palavras e com acções concretas é o mínimo que um angolano deve fazer por Cuba.

Muito obrigado pelas eternas Operações Carlota e pelo 23 de Março de 1988.

Eternamente grato, Cuba!  

Hasta siempre!      

*Doutor em Estudos Globais e Analista de Relações Internacionais

Referências:

GLEIJESES, P. (2022). Missões em Conflito, 1959 – 1976. Havana, Washington, África. Mayamba.

GÓMEZ, R.G.J (2014). Cuito Cuanavale – Crónica de uma Batalha. Mayamba.

MELO, J. (2016). Fidel. Última Página. África 21.

MUHONGO, O. V (2016). Os Angolanos que libertaram Mandela – A Desconstrução de um Mito. Mayamba.    

Visita de Fidel Castro a Angola, acompanhado por Agostinho Neto e Hermínio Escórcio, no papel de Chefe do Protocolo de Estado

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PROCURAR