TRIBUTO AOS JOVENS SOLDADOS PERDIDOS NA MADRUGADA DE 8 DE MARÇO DE 1985

O mar “levou” os seus corpos. Mas não levou a memória!

POR SAMPAIO JÚNIOR

O mínimo que a memória colectiva poderia fazer, seria erguer um monumento em homenagem àqueles soldados. Um lugar onde as famílias pudessem recordar, onde a história pudesse ser contada às novas gerações. Mas, até nas cerimónias de condecorações oficiais, o nome deles raramente aparece. Nem sequer a título póstumo.

Há silêncios que nascem do choque. Silêncios pesados, que se instalam nas famílias, nos amigos e na própria história de um povo. Passaram décadas, mas aquele silêncio ainda vive em muitas casas. Há esposas que ficaram viúvas naquela madrugada. Há crianças que cresceram sem pai e que hoje são homens feitos, alguns com mais de quarenta anos, carregando a ausência como herança.

Muitos de nós conhecíamos aqueles jovens. Alguns eram nossos amigos de infância, outros eram familiares ou simplesmente companheiros de bairro e de sonhos. Eram rapazes que haviam deixado as casas dos pais para cumprir aquilo que acreditavam ser um dever maior: servir a pátria.

O que aconteceu na madrugada de 8 de Março de 1985 não foi apenas um acidente. Foi uma tragédia que marcou profundamente a memória de Benguela e do Lobito.

Naquela altura, decorria o final de um curso de formação de comandos caçadores das antigas FAPLA. Os oficiais estavam a ser preparados no Centro de Instrução de Comandos (CIK), em Benguela. Como parte do exercício final, depois de realizarem uma longa e extenuante marcha militar ao sul da cidade Benguela, que durou cerca de 24 horas.

Exaustos, regressavam ao quartel caminhando pela areia, ao longo da praia de Santo António.

Mas o mar, naquela madrugada decidiu enfurecer. As condições meteorológicas não foram devidamente avaliadas. Não havia salva-vidas, nem botes de apoio marítimo que pudessem garantir qualquer tipo de socorro. Ainda assim, o exercício foi mantido. Entre ordens superiores e o frenesim de cumprir comandos sem questionamento, a prudência ficou para trás.

Alguns instrutores tinham experiência militar, inclusive passagens pelo antigo exército português. No entanto, naquele momento, prevaleceu a lógica dura e cega da hierarquia: cumprir ordens, custasse o que custasse.

E custou vidas. Quando menos esperavam, as ondas vieram. Ondas violentas, imprevisíveis, que apanharam os soldados já debilitados pelo cansaço. Eles carregavam armas, cartucheiras e mochilas pesadas, cheias de equipamentos e objectos usados no treino, alguns até pedras, parte dos exercícios militares. Quando o mar os envolveu, muitos já não tinham forças para lutar.

O que se seguiu foi uma cena de desespero que poucos conseguem descrever sem sentir o peso da memória. Alguns conseguiram salvar-se. Outros desapareceram para sempre.

Na época falou-se em comissões de inquérito que iriam apurar responsabilidades. Mas, para muitos, os resultados dessas investigações nunca passaram de promessas distantes. Uma miragem.

Hoje, não é o momento de apontar nomes. A história conhece os seus próprios caminhos. Mas as memórias continuam vivas. E muitos daqueles que testemunharam a tragédia ainda caminham entre nós, carregando lembranças que o tempo não conseguiu apagar.

O que também não se pode esquecer. Foi o destino daqueles jovens soldados. Foram sepultados no cemitério do Catengue, em vala comum. Sem a dignidade esperada para quem morreu em serviço da pátria. Sem a homenagem que a sua entrega merecia. Ali ficaram amigos, irmãos, camaradas. Jovens que tinham sonhos, famílias e futuros que nunca chegaram a viver.

Ao longo dos anos, converso com alguns sobreviventes daquela madrugada. Homens que preferem manter-se no anonimato. O silêncio deles diz mais do que muitas palavras.

O mínimo que a memória colectiva poderia fazer, seria erguer um monumento em homenagem àqueles soldados. Um lugar onde as famílias pudessem recordar, onde a história pudesse ser contada às novas gerações.

Mas, até nas cerimónias de condecorações oficiais, o nome deles raramente aparece. Nem sequer a título póstumo. Talvez por isso seja importante escrever. Recordar. Contar.

Porque há histórias que o tempo tenta esconder, mas que a memória insiste em manter vivas. E, porque aqueles jovens nossos amigos, nossos irmãos de geração merecem mais do que o esquecimento.

O mar “levou” os seus corpos. Mas não levou a memória!

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