
O Governo voltou a fazer aquilo que faz melhor, anunciar. Desta vez, através do Despacho Presidencial n.º 254/26, de 29 de Junho, autorizou a construção e a reabilitação de 1.392 habitações para as famílias afectadas pelas cheias de 12 de Abril, em Benguela. Somadas às já anunciadas, são agora 2.117 casas. A pergunta é simples: desta vez vão mesmo sair do papel, ou serão apenas mais um monumento à propaganda?
Os sinistrados do rio Cavaco não precisam de novos despachos. Estão cansados de viver sem eira nem beira, e julgo que não seja assim tão difícil compreender isso. Precisam de paredes, telhados e portas. O clima não respeita anúncios, e o frio não espera pela publicação em Diário da República.
Angola tornou-se especialista na política do “quase”. Quase água para todos. Quase hospitais a funcionar. Quaseescolas com condições. Quase fim da defecação ao ar livre. Quase combate à fome e a pobreza. Quase diversificação da economia. Quase desenvolvimento. O “quase” já merecia o estatuto de património imaterial nacional. Afinal, nenhuma outra palavra descreve tão bem uma governação que vive de anúncios, alimenta-se de promessas e raramente chega à meta.
Entretanto, os moradores do rio Cavaco e da Urbanização dos Cabrais continuam exactamente onde sempre estiveram: à espera. A diferença é que os habitantes dos Cabrais parecem já ter sido remetidos para o arquivo das promessas esquecidas. Em Angola, há tragédias que, com o passar do tempo, deixam de ser prioridade, mesmo quando o sofrimento continua o mesmo.
Esperam pelas casas, pelas infra-estruturas e pela dignidade que lhes foi prometida. Para quem perdeu tudo, cada dia de espera é mais um dia de abandono.
O mais curioso é que o Executivo gosta de apresentar números. Mil casas. Duas mil casas. Três mil promessas. Mas as famílias não moram em estatísticas, moram, ou deveriam morar, em casas.
Recentemente, um deputado da UNITA pelo Círculo Provincial de Benguela pôs-se a fazer selfies junto dos sinistrados, tanto no rio Cavaco como nos Cabrais. Esperei que levasse a denúncia a uma das sessões parlamentares. Mas nada aconteceu. Fiquei com a sensação de que tudo não passou de uma comédia para ganhar popularidade nas redes sociais. Enfim…
Talvez um dia o Governo perceba que governar não é anunciar, é executar. Não é multiplicar despachos é entregar resultados. Porque, enquanto o Estado continuar a viver do “quase”, os angolanos continuarão a sobreviver do “quem sabe”.











