Ucrânia. A coragem está na paz, não nos falsos heroísmos

Miguel Sousa Tavares*

O herói não é, não pode ser nunca, quem invade o vizinho mais fraco à míngua de outros argumentos e leva a morte, a destruição e o terror a terra alheia. Não pode ser, pois, Vladimir Putin, que diz que russos e ucranianos são um mesmo povo e que, todavia, bombardeia e põe em fuga esse “mesmo povo”. As razões que tinha ou que julgava ter por força da história ou do direito perdeu-as por força dos canhões e dos tanques. E o resto fazem-no as imagens que todos os dias chegam às casas do mundo inteiro: porque se qualquer guerra tem como consequência cidades bombardeadas, crianças e velhos mortos ou em fuga, esta tem a diferença de ser filmada de perto e a cores, dia a dia e à medida que vai acontecendo.

Mas o herói também não é o celebrado Volodymyr Zelensky, com a sua t-shirt militar e os seus discursos “patrióticos”, usando com mestria os seus dotes de actor e com indisfarçada vaidade (e sucesso, dos Comuns ao Facebook) a sua veleidade de ser tomado pelo Churchill do século XXI. Até agora, enquanto as mulheres e crianças fogem e os homens, civis e militares, tentam deter as tropas russas, ele, entrincheirado no seu bunker, a fazer tweets e vídeos e a apelar à terceira guerra mundial, tem sido um herói à medida destes tempos sem heróis verdadeiros e com heróis instantâneos. Mas, a menos que muito me engane, não me espantaria que, se a guerra for para continuar e os russos entrarem em Kiev, o herói Zelensky será capaz de desiludir muitos corações. Não é Churchill quem quer.

Zelensky parece agora finalmente disposto a negociar com Putin e a negociação, se não foi, entretanto, cancelada, irá já a nível de ministros dos Estrangeiros. Devemos a Israel, à Turquia e, em parte, à China esse esforço de intermediação capaz de sentar as partes à mesa. Nada o devemos aos Estados Unidos, à União Europeia ou à ONU, como eu sempre o escrevi: nem antes nem agora. Isto merece ficar registado: temos uma guerra na Europa com um potencial de alastramento como nunca antes em 70 anos, com efeitos económicos devastadores sobre o continente, com talvez uns cinco milhões de refugiados que tudo perderam, e, apesar disso, a Europa, enquanto tal, não mexeu uma palha para evitar o conflito ou para tentar pará-lo, uma vez iniciado. As melhores cabeças pensantes da Europa escrevem rios de tinta sobre o recomeço da História e da Guerra Fria, sobre a nova realidade geopolítica, sobre a necessidade de uma verdadeira política de rearmamento europeu, sobre a urgência em asfixiar a Rússia (e os russos) com sanções económicas e banir da face visível do planeta todos os russos — e não apenas os oligarcas ou os íntimos de Putin, mas também músicos, artistas, desportistas, cientistas. Mas sobre uma estratégia de paz e segurança mútua que envolva todos e inclua a Rússia nada, nem uma consideração, nem uma palavra.

Porém, não deixa de ser curioso que Zelensky aceite agora negociar, e com base nas propostas russas, o que poderia ter negociado antes da invasão. Penskov, o porta-voz do Kremlin, enumerou na segunda-feira o que querem os russos: a NATO fora da Ucrânia e a alteração da Constituição ucraniana, que prevê expressamente essa adesão; a “desmilitarização” da Ucrânia, o que significa que ela não estacionará no seu território armas nucleares; a “desnazificação” da Ucrânia, o que equivale a expulsar das suas Forças Armadas os batalhões nazis que Zelensky lá integrou; um estatuto de independência ou similar para as regiões de maioria russa do Donbas, e o reconhecimento de jure da Crimeia como parte da Rússia, como historicamente quase sempre o foi. Sobre todos estes pontos, e a menos que, entretanto, tenha voltado atrás, Zelensky já aceitou ceder em parte deles e negociar noutros. A pergunta que se coloca, então, é esta: porque não o fez antes, quando era isto justamente que a Rússia propunha? Porque não o fez para evitar a invasão do seu país e não ter de assistir a tantos mortos, tanta destruição, tantas famílias em fuga? Porque diz agora que a adesão à NATO é um projecto inexequível e antes foi a Munique exigi-la imediatamente? Será porque antes ouviu todos os países da NATO repetirem que a Ucrânia tinha o direito de decidir livremente o seu destino, mesmo que isso pudesse conduzir a uma guerra com a Rússia, que se sentia ameaçada com o alastramento da NATO à Ucrânia? E será porque se sentiu confortado e iludido por essas proclamações que ele passou estes dias de guerra a apelar ao envolvimento da NATO, a reclamar o fecho do espaço aéreo da Ucrânia aos aviões russos e a queixar-se de que estava sozinho a “defender a liberdade do Ocidente”?

A pergunta que se coloca, então, é esta: porque não aceitou Zelensky negociar antes, quando era isto justamente que a Rússia propunha? Porque não o fez para evitar a invasão do seu país e não ter de assistir a tantos mortos, tanta destruição, tantas famílias em fuga?

“A liberdade tem um preço”, disse Joe Biden, e tem toda a razão. Mas o preço da liberdade não pode ser o fim de tudo, que fatalmente incluiria também o fim da liberdade: não há liberdade quando tudo estiver morto. Por isso o Ocidente teve o bom senso mínimo de não ceder aos apelos de intervenção de Zelensky, que teriam, com toda a probabilidade, conduzido, por descontrole, por escalada ou por acidente, a uma guerra nuclear. Na crise dos mísseis em Cuba, em 1962, Fidel Castro também apelou a Moscovo para que desencadeasse um ataque nuclear contra os Estados Unidos, mas, felizmente, também o bom senso prevaleceu entre os russos. A lição é que há sempre loucos disfarçados de heróis de ambos os lados, que acham que o seu lugar na história é mais importante do que o destino dos outros — mesmo que depois não sobrem muitos para contar a história. É por isso, entre outras coisas, que isto de ver as situações a preto e branco — nós somos o Bem e eles o Mal — é o caminho mais certo para o desastre. É curioso observar que no meio desta unanimidade quase religiosa como esta crise tem sido analisada do lado de cá (do lado dos Bons), por analistas, historiadores, jornalistas, comentadores, quem mais destoa da opinião formatada são os militares, tradicionalmente vistos como os mais pró-guerra. O exemplo mais visível, porque mais exposto, foi o do Chefe do Estado-Maior da Armada alemã, quando ousou dizer que Putin tinha razões que deviam e mereciam ser ouvidas, e, portanto, foi imediatamente demitido.

Em Lisboa já vi bandeiras da Ucrânia hasteadas nas janelas dos prédios, como outrora, a pedido de Scolari e a propósito do futebol, se hastearam bandeiras portuguesas. O presidente do Benfica fez a capa da “Bola” embalando caixas de conservas para a Ucrânia, numa acção de solidariedade das muitas que, e ainda bem, estão em curso. Em Bruxelas, na sede da UE, as bandeiras dos 27 foram substituídas por 27 bandeiras da Ucrânia e imagino que as contas das redes sociais das celebridades estejam infestadas das ditas, vestidas de azul e amarelo. É tudo muito bonito, muito fácil e absolutamente ineficaz para o que interessa. Alguém, que tinha obrigação de estar informado, perguntava-me há dias se a subida vertiginosa do preço dos combustíveis tinha mesmo que ver com a guerra na Ucrânia ou se era uma manobra do Governo. Deixem que passe a fase dos gestos bonitos e fáceis e vão ver o que aí vem. Deixem que a guerra continue, que a paz falhe, e vão perceber quem é que vai sair arrasado desta guerra, para além dos ucranianos, e quem é que vai sair a ganhar biliões. Mais uma vez, porém, não precisamos de uma explicação a preto e branco, mas apenas de aproveitar uma oportunidade de reflexão, a benefício de tempos vindouros.

E depois da guerra e da poeira assente haveremos também, espero, de ter ocasião de reflectir sobre a mais parcial, incompetente e prejudicial cobertura noticiosa e analítica de um conflito a que alguma vez assisti do lado a que chamam as “democracias liberais”. Desde o sagrado “The Guardian” até à nossa imprensa. Pela primeira vez, e pacificamente aceite, o Conselho Europeu estabeleceu a censura sobre órgãos de informação do “outro lado” (as TV russas), com o argumento de que divulgavam informação enganosa que nos podia desinformar. Ocultou-se ou minimizou-se informação que podia prejudicar a imagem do “heróico” povo combatente e do Exército e autoridades ucranianas, tais como episódios de racismo ou de abusos sobre prisioneiros de guerra russos. E foi patente um clima de intimidação sobre quem ousou questionar a verdade única ou pensar diferente, que eu próprio tive a honra de experimentar.

(Na Rádio Observador, por exemplo, o José Manuel Fernandes chamou-me “idiota útil ao serviço da propaganda de Putin”, o que em nada me afecta, porque, ao contrário dele, eu não sou nem nunca fui de direita ou de extrema-direita, nem maoista, leninista ou estalinista, e nem fui, como ele, idiota útil ao serviço da propaganda da NATO e do pateta do Bush filho, aquando da invasão do Iraque para supostamente encontrar armas de destruição maciça, de cuja existência não havia quaisquer provas. Isto de pensar pela própria cabeça incomoda sempre os idiotas que se imaginam úteis.)

*Miguel Sousa Tavares é jornalista, escritor, comentador político e escreve para o Observador

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