Poder vs crítica arbitrária

JAcQUEs TOU AQUI!

Não há por que não criticar muito severamente,

quando se tem a sorte de amar a pessoa que se critica.

Jean-Paul Sartre

De entre as muitas frases que celebrizaram Abraham Lincoln, o 16º. Presidente dos Estados Unidos da América, destaco duas bem conhecidas. “Se quiser pôr à prova o carácter de um homem, dê-lhe poder” é uma delas. Tal como essa, a outra também é lapidar. “Antes de começares a criticar os defeitos dos outros, enumera ao menos dez dos teus”.

Se acerca da primeira existirão poucas ou nenhumas dúvidas quanto ao acerto da frase uma vez que é sabido que o poder, essa capacidade de deliberar arbitrariamente, agir e mandar, por mais insignificante que seja a sua manifestação na prática; que o poder outorgado por um homem ou por uma mulher, por meia dúzia ou por milhões de cidadãos, a coberto de uma farda ou de um trajo civil; que tendo, o militar, o militarizado ou o paisano, a responsabilidade da guarda ou gestão de património particular ou colectivo que pode ir de uma simples mercearia, de fábrica de bolachas, de complexo agro-pecuário, de redacção de um jornal ou em caso de maior realce e como resultado do voto popular, da direcção, chefia ou comando, como se queira chamar, de um país, pequeno ou grande que seja, revela invariavelmente a personalidade de quem se apossa (salvo seja) do cargo e assume esse dito poder; dependendo também do indivíduo poderoso e da sua têmpera que, a coberto de legalidades constitucionais ou por outras quaisquer circunstâncias advindas do seu desempenho enquanto pessoa investida de tal poder; um poder que leva, entre outras coisas, a ter “a capacidade de realizar algo, aquilo que se pode ou se tem o poder de realizar ou fazer”, enfim, um poder que inevitavelmente remeterá a sua idiossincrasia para uma apreciação da sociedade, corrida implacavelmente entre o nobre e o mesquinho.

Já sobre a facilidade da crítica, aquela que se vende barata na verborreia pública, sem nenhum critério para a discordância, presente na forma destemperada como algumas pessoas desatam os seus instintos na crítica desabrida aos seus semelhantes, simples conhecidos, adversários ou inimigos, direi que, hoje por hoje, é um mal que atinge transversalmente a sociedade angolana. Todo mundo é profeta ou mestre em criticar os outros, esquecendo-se dos erros que foram praticando ao longo dos anos. Por tal motivo, não me fica mal e acho que nem sequer perco tempo, pelo contrário só tenho ganhos, ao dedicar como dedico ao tema, alguma da minha atenção na prosa de hoje.

Porque sabiamente se diz que “pela boca morre o peixe” faço cuidadosos e periódicos exames de consciência a respeito do que escrevo sobre outras pessoas e/ou instituições e suas performances, quando exerço o primado da crítica social a que me submeti há já alguns anos, ao criar e dar corpo a esta coluna de opinião. A propósito, acho que muitos outros compatriotas deveriam fazê-lo também. Nunca seremos demais, se tivermos em conta o muito, a tanta coisa ainda para observar e denunciar. Mas, como ia dizendo, apesar de erros e alguns excessos cometidos e assumidos, registo que, e a menos que seja ou tenha sido induzido em erro ou omissão em algum momento ou assunto abordado, o resultado que apuro da minha lide é satisfatório. Registo com certo orgulho, já que de um modo geral só aponto o dedo a acusar, a criticar, em casos que refuto como certos ou próximos da certeza, de modo a que, a razão por que me bato, não deixe nunca de me assistir, e a crítica seja encarada apenas como chamada de atenção para evitar que os lapsos e omissões se repitam e continuem a prejudicar pessoas em particular ou a sociedade onde me envolvo, no geral. 

A virtude da crítica é espelhada no exemplo dado esta semana pelo vice-ministro dos Transportes, dr. Carlos Borges. Reagiu à minha crónica do passado domingo e esclareceu-me sobre o Plano Estratégico forjado pelo MINTRANS, ideia de curto, médio e longo prazo (macro e micro acções, visando o período 2018 a 2038. Desconhecia a profundidade desse trabalho, devo confessar. Fiquei a saber que se traça estruturalmente um RUMO ao futuro, gesto que ainda não vislumbro noutras áreas da governação. Cheguei a conclusões positivas, mas também a inquietantes preocupações. O capital humano é um problema antigo, é a nossa principal limitação. Sabemos todos que actualmente é constituído por gente impreparada para assumir funções de responsabilidade, facto que colocam em risco os projectos que tenham como alcance o rápido desenvolvimento do país. 

Em face disso, vem à superfície a eterna problemática da educação e da formação técnico-profissional dos trabalhadores, da reforma do estado e do seu funcionalismo público, da formação, das carreiras e dos salários ajustados. Tudo isto leva-nos mais uma vez a concluir e a avisar que tem que se reformular a política da atribuição de canudos a iletrados e preparar antes uma profunda reforma na educação de base, pré-escolar, ensino primário e no técnico-profissional. 

Para que possamos pensar no êxito, deve ser requerida com outra assiduidade a presença da comunicação social no campo da execução da tarefa governativa, quer a comunicação estatal como a privada. O tempo gasto em programas de inutilidade reconhecida, poderia ser compensado, por exemplo, em entrevistas profundas a governantes e à investigação do estado real de certos sectores da vida pública, principalmente dos que estejam virados para as mais elementares necessidades que o país tem. O carácter público da informação é requerido quer na divulgação das obras boas que o Executivo produz, como nas que se encontram emperradas ou mal dirigidas. Deveria ser para esse objectivo concreto que a informação trabalharia. 

Ora, pegando no caso específico do Ministério dos Transportes, o Plano Estratégico de 20 anos, pode ficar prejudicado por uma falha que vem dos primórdios da independência nacional: a pouca ou nenhuma atenção dada à educação e ao ensino. Decorreu cerca de meio século a passar ao lado de uma questão fundamental!

Hoje, o valor das redes sociais recheadas de sagaz narrativa e perturbadoras imagens, cada vez mais um amparo da crítica construtiva, é notado ao descobrirem-se lavras plantadas no centro da cidade capital, ou ao mostrarem como se desmonta em poucas horas uma aldeia dos seus arredores, com muitas dezenas de habitantes. Por via disso, é passada a terrível imagem de um considerável número de cidadãos condenados a viver algum tempo ao relento. Não mostram, naturalmente, as razões que levaram ao “arraso” da dita aldeia.

Fosse em anos atrasados, os avisos com prazos e as medidas cautelares como a discussão e os entendimentos necessários para amenizar a situação, seriam amplamente noticiados e, provavelmente, estariam algumas dessas pessoas, os verdadeiros culpados do insólito sucedido, chorando e babando ranho, diante da iminência de enfrentarem não ao ponto-limite de um justo TPR (Tribunal Popular Revolucionário), mas de uma justiça justa e actuante. Ali, entre inocentes e culpados, seriam condenados os prevaricadores, não propriamente como hereges a caminho da fogueira como hoje se tornou prática, mas como incumpridores da lei, por pecarem a ponto de matarem arbitrariamente. De resto, convenhamos, somos todos humanos, na doença e na adversidade e, em situações dramáticas, não pode haver adversários que se abandonam no campo da batalha. 

O padrão de acontecimentos aqui detectado é susceptível de criar instabilidade irreversível e manter-nos em estado puro de insensibilidade na situação vertente e não é, não pode ser, um elogio para quem governa, a quem se exige “mão de ferro” quando de facto necessário, mas na medida mais exacta do termo. Fujamos, pois, da responsabilidade da versão que procura o abismo, temos que encontrar espaço próprio para a versão sublime que mereça o respeito da sociedade.

Caros leitores, meus amigos, até domingo, à hora do matabicho.

Luanda, 30 de Abril de 2022 

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