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“A força de vontade dos fracos chama-se teimosia“
Marie von Ebner-Eschenbach
(escritora austríaca)
1 – Hoje estou virado para os desabafos. Podia-me ter dado para pior! Mas, não. Foi nessa maré que fui levado, e aqui estou, como bom pecador, a confessar-me.
Não sou um tipo de makas. Estou longe de o ser, embora não me lembre de ter fugido a alguma digna do nome. Não têm conta as situações que já enfrentei (familiares, profissionais, políticas, associativas e, porque não, desportivas), nestes anos todos que levo de vida bem vivida. Discuti sempre que a razão me aconselhou a fazê-lo, embora nalguns desses conflitos verbais, tivesse, no fim, de pedir desculpas. Quererá isto dizer que encaro sempre, com a maior elegância e, como deve ser, uma boa maka. Desde que haja razão para enfrentá-la e sustentá-la. Mas, há makas sem sentido, que não merecem perdas de tempo. Não resisto, contudo, ao confronto, quando é posta em causa a minha razão. Principalmente quando vale a pena lutar-se pela sua defesa.
Não sou makeiro, que fique bem claro! Só me transformo quando as circunstâncias revelam a força da minha razão. Aí, não levo desaforo para casa. Serei, por isso, um polemista irredutível? Acho que não. Mas o Bito, meu saudoso mano, criticava-me. Dizia que eu procurava maka. Exagerava, mas às vezes até tinha razão!
Nunca utilizei transportes públicos, com a frequência com que o faço agora em Portugal. Apesar da idade que não perdoa, dou-me bem com o exercício. Conheço as rotas dos autocarros, dos comboios e do metropolitano. Como sou bom observador, vejo coisas interessantes enquanto viajo. Há dias, no autocarro que tem término no Cais do Oriente, dei atenção a um patrício nosso. Identifiquei-o, quando se lembrou de falar ao telefone. Tudo indicava que matava saudades da terra. Fazia-o em linguagem autóctone do Norte e em tom tão alto que perturbava todos os passageiros. Olhavam uns para os outros, com olhos em fúria, que nós, de algum modo, conhecemos bem. Mas, o cidadão, descomplexado, não parava de falar, nem sequer baixava o tom de voz. Pensei em abordá-lo, mas o bom-senso avisou-me. Para quê, mais uma maka?
Na última quinta-feira, uma senhora, muito faladora, tipo papagaio do Maiombe, também com sotaque nortenho, mas de cá, da Tuga (apanhei-a em flagrante quando falou de “iarcas” e de “iágua”), saiu dos limites, na conversa animada que mantinha em tom maior, com o motorista do autocarro. Vejam só! Em todo o percurso, e entre um amontoado de inconveniências, referiu-se a uma pessoa sua conhecida, nos seguintes termos, “ele é de cor, mas é simpático”! C’um caraças! Se fosse nos meus bons velhos tempos, teria ali motivo para desatar uma maka! Não vale a pena, avisou-me, outra vez, o bom-senso.
2 – O Vitorino Hossi partiu. Recebi, sem surpresa, a triste notícia. A sua saúde estava bastante fragilizada. Enfrento a realidade. Mais um amigo se foi! Inscreveu-se na enorme lista dos que, desta vida, descontentes, nos vão deixando. Uns deixando saudades, outros, nem por isso. É a Lei da Vida! Não se pode agradar a todos. E nestas coisas de contentar, há os que merecem as nossas lágrimas e outros que, enquanto vivos, fazem tudo por desmerecer sentimentos de saudade quando morrem. Hossi deixou boas lembranças enquanto pessoa amiga, de fácil trato e convívio, de muito respeito.
Conheci-o num momento difícil, na altura em que o sonho da Democracia mais viveu entre nós. Provava-o a sua presença e a dos seus companheiros em Luanda, sem receio de serem identificados como membros da UNITA, o seu Partido. Tudo era possível, naquele tempo, em que se construíam pontes para o convívio sadio, para a amizade e fraternidade entre os angolanos, sem se olhar a diferenças de cor política ou de outra índole. Diferente dos dias de hoje, em que a impossibilidade tomou conta de todos os nossos gestos. Só se faz o que uns querem, nada do que nós, os que não queremos makas, dizemos que pode e devia ser feito.
Vi sempre no rosto sereno do Vitorino, a força da bondade na política, dele ouvi sempre uma voz limpa no meio de conversas falsas. O seu nome fica ligado à coragem de manter a sua alma limpa. Tratava as pessoas com respeito extremo, fossem amigos ou rivais. A sua partida deixa uma dor funda em quem conheceu o seu valor real, de cidadão e patriota. Dele, fica-nos a lição de que vale a pena ser bom, mesmo quando o meio que nos cerca é tremendamente hostil. Aos seus familiares, companheiros e amigos, apresento os meus mais sentidos pêsames! Até sempre, Vitorino Hossi!
3 – Este espaço começa a tornar-se pequeno para exteriorizar o que tenho como diferença para este ano, em que o meu Sport Lisboa e Benfica, se prepara para a maratona que nos levará ao 39 e ao 40. O time apresenta superior qualidade de jogo em relação aos seus rivais. Sem maka nenhuma, o Marco Silva, está a construir uma máquina de futebol vertical e agressivo
Registo similar, só nos tempos de Eusébio, Coluna, José Augusto, Simões, Cavém, Costa Pereira e todos os outros que fizeram a insatisfação dos que não nos suportam. Um mal antigo! Mas, ser ou não ser, é a questão e eu sou o que sou. Benfiquista de alma e coração! No campo do futebol, também encaro os confrontos verbais, eles sempre me acompanharam, por uma razão soberana. A razão que sempre julguei ter na discussão dos assuntos, sempre resguardado na obrigação de consciência, que sempre me disse, o Benfica é o maior!
Despeço-me dos meus leitores, dos familiares e amigos, dos camaradas e companheiros de luta. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.
Forte da Casa, Portugal, 23 de Agosto de 2026











