O meu adeus a Dario de Melo

Jacques Arlindo dos Santos

Não constava das minhas mais agoirentas previsões. Apesar de se terem registado nos últimos três meses uma impressionante série de óbitos, recusava-me a entrar tão cedo num novo processo melancólico, de tristeza permanente, de saudade infinita. Tinha passado por essa fase difícil, por todos esses estados depressivos, aliás, ainda carrego comigo pedaços dessa carga insuportável, que só é amenizada pela lembrança de episódios alegres e de efémera felicidade que as fotos, os vídeos e todo o resto que regista fielmente o nosso maior guardador de lembranças que é a nossa memória. Esse valioso baú traz-nos volta e meia o repositório de imagens alegres e inesquecíveis da nossa vida passada, mas avisa-nos também que se aproxima a hora de sermos substituídos nesses momentos de desempenhar tarefas de tristeza desmedida. Momentos em que temos, por obrigação, de falar dos que amamos porque nos deixam. Se formos merecedores da honraria, lá estará alguém para dizer, fazer o elogio, necessariamente sincero e sentido, tal como este que faço agora. É penoso mas não nos podemos furtar a falar do carácter e da valia do finado querido, da pessoa e da sua arte, da estima e consideração que por ele sempre nutrimos, enfim, do vazio que provoca a sua ausência. E não nos coibimos de chorar. Choramos pelas muitas coisas que poderíamos ter dito e não dissemos, pelas muitas coisas que poderíamos ter feito e não fizemos. Choramos, sobretudo, ao lembrar as coisas que fizemos e dissemos.

É, pois, neste turbilhão de emoções que me encontro mergulhado neste momento, com sentimentos sinceros mas feridos, vindos do fundo da alma e a obrigarem-me a dizer da mágoa que sinto neste momento em que perdemos do nosso convívio e choramos amargamente a ausência do Dario de Melo. Eu, pessoalmente, perdi um bom amigo, daqueles com quem estava sempre a aprender coisas e a somar os valores da vida. Sabedoria, ética, verticalidade, eram o seu lema, 

“Uma crónica não deve ultrapassar as trezentas palavras”, disse-me várias vezes com a sua voz experiente. Nem sempre segui o seu conselho. E de crónicas sabia ele! Como era inimitável a aplicar a sua mordaz ironia, nos muitos lançamentos de livros em que tive ocasião de vê-lo e nos quais passei a conhecer melhor o invulgar indivíduo. Não tardou que me sentisse envolvido por uma sólida amizade e respeito mútuo, um sentimento que tocou também o meu irmão Quim (Aguiar dos Santos), por quem ele sentia um carinho especial. Hão-de pôr a conversa em dia, ali onde certamente já se encontraram. Falarão inevitavelmente do que ainda falta corrigir cá em baixo, onde nos encontramos a penar, indecisos, sem saber muito bem o que fazer para acertarmos os nossos passos.

Não posso deixar de lembrar a sua primeira viagem ao Brasil, onde com muito gosto fui seu cicerone, quer no Rio de Janeiro quer em Salvador da Bahia de Todos os Santos. Inesquecíveis momentos os que vivemos no Mercado Modelo, no Pelourinho, na Casa-Museu de Jorge Amado, no Cristo Redentor, no museu no Palácio do Catete, e noutros sítios.

Não podia, de modo nenhum, esquecer-me da Elizabeth, a companheira e amiga dedicada das últimas décadas, do carinho que soube dividir com os seus filhos por quem tenho imenso respeito, testemunhando também o capital de amizade e respeito que lhe tinham os muitos amigos. E assim, com a sua missão cumprida, estou com este escrito a tentar cumprir a minha, apresentando aos familiares e amigos do Dario e particularmente, a todos os membros da União dos Escritores Angolanos, os meus mais sentidos pêsames. 

Descansa em Paz, querido amigo e companheiro de luta, Dario de Melo.

Luanda, 6 de Junho de 2022 

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