MILITARES ANGOLANOS ESQUECIDOS

ELEGIA PARA UMA INSTITUIÇÃO QUE TEME TOMBAR SOBRE AS SUAS PRÓPRIAS SOMBRAS

LANDO SIMÃO MIGUEL*

Entre o passado que dói e o futuro que assusta, permanece esta verdade amarga: se nada mudar, os militares de hoje poderão tornar‑se a próxima geração de esquecidos — vítimas de uma tragédia anunciada, repetida, quase ritual.

Há países onde a memória é um campo de batalha silencioso. E Angola, quando se fala dos seus militares, parece carregar um luto que nunca foi verdadeiramente chorado. Os que serviram antes — muitos deles hoje dispersos, empobrecidos, invisíveis — tornaram‑se espectros de um passado que o Estado não soube honrar. São como figuras de um mural antigo, desbotado pela chuva e pelo tempo, que ninguém se atreve a restaurar.

A tragédia maior não é apenas terem sido esquecidos. É o facto de o seu esquecimento ter sido normalizado.

O filósofo Walter Benjamin escreveu que “toda a ruína é também um aviso”. E os militares angolanos do passado são precisamente isso: ruínas vivas, avisos que ninguém parece querer escutar. A sua condição tornou‑se uma elegia interrompida, um cântico que se perde no vento, um testemunho de que o abandono institucional não é um acidente — é um processo.

E é por isso que paira, sobre os militares de hoje, uma ameaça que não vem de fora, mas de dentro. Uma ameaça que não se veste de inimigo, mas de indiferença.

As Forças Armadas Angolanas, que deveriam ser o escudo da República, parecem caminhar num terreno onde a dignidade se desgasta mais depressa do que os uniformes. Há quem descreva esta erosão como um lento desmoronar, semelhante ao que José Saramago chamou “a doença do esquecimento colectivo”.Uma doença que corrói não apenas a instituição, mas a própria ideia de pertença.

Os militares actuais olham para os antigos e veem neles um futuro possível — e esse é o verdadeiro horror. Porque a história, quando não é cuidada, transforma‑se numa maldição.

O sociólogo Achille Mbembe escreveu que “o Estado revela‑se na forma como trata os corpos que o serviram”. E, quando esses corpos são deixados à margem, quando a farda se torna um fardo, quando o serviço prestado se converte em silêncio, então a instituição começa a morrer por dentro, como uma árvore que apodrece no tronco antes de cair.

Esta elegia não é apenas para os que já tombaram na desgraça do esquecimento. É também para os que marcham hoje, sabendo que podem ser os próximos.

Porque uma força armada não se desmorona num único gesto. Desmorona‑se em camadas: na falta de reconhecimento, na ausência de condições, na erosão moral, na negligência que se acumula como poeira sobre um estandarte abandonado.

E assim, entre o passado que dói e o futuro que assusta, permanece esta verdade amarga: se nada mudar, os militares de hoje poderão tornar‑se a próxima geração de esquecidos — vítimas de uma tragédia anunciada, repetida, quase ritual.

Uma elegia não resolve nada. Mas impede que o silêncio se torne definitivo.

*Investigador em Segurança e Defesa

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