PROSA & POESIA

JAcQUEs TOU AQUI!

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

Os últimos anos da era José Eduardo dos Santos foram fartos de coisas esquisitas. Mas o tempo de João Lourenço supera tudo o que eu conhecia em matéria de “coisas-do-arco-da-velha”. Ultrapassada a época difícil da “fome relativa”, chegam-nos agora pedaços de uma tese que faz de Waldemar Bastosum criminoso! Segundo um novo mestre, o famoso artista cometeu erro grave por ter introduzido no seu canto, a expressão “xé menino, não fala política”! Tenho que gritar. Ouça lá camarada Etona, o senhor sabe mesmo o que está a dizer? Talvez não saiba. Olhe que música não é escultura! Cala-te boca, porque até pode ser. Mas, porém, todavia…

Lizita Dolbeth e a Luísa Fançony sempre foram excelentes a dizer poesia. Feliz coincidência, ambas Luísas e ambas mulheres angolanas. Nada a ver com a Grilo, de triste memória. Sabem de quem falo. A Fançony sempre esteve impecável a dizer. Entre vários, lembro como sempre interpretou Alda Lara:

 À prostituta mais nova

Do bairro mais velho,

Deixo os meus brincos

Em cristal, límpido e puro…

Apesar destes encómios, qualquer coisa parece não andar bem com as mulheres angolanas, mormente com as que se ligam ao Éme. Chegou-me há dias notícia segundo a qual, em Abril, o mês das águas mil, o Presidente João Lourenço perdeu a confiança na sua Vice. Deve ser assunto grave, já que não se retiram assim, do pé para a mão, tarefas de responsabilidade a alguém da envergadura de uma Vice-Presidente da República! Tudo indica que se limitará agora às idas ao Aeroporto, para aquela missão repetitiva e enfadonha. Receber o Presidente, despedir-se do Presidente. Uma chatice…

Os militantes do MPLA vivem um momento especial. Provavelmente, dos mais difíceis das suas vidas, enquanto membros de uma organização política. Vem aí o Congresso esperado, o que vai decidir quem substitui o camarada João Lourenço na liderança do Partido. Quer se aceite ou não, o evento vai mexer com a sensibilidade de todos os angolanos, sejam ou não militantes do Éme. Vai pôr meio mundo ansioso quando no mês de Dezembro acontecer a grande reunião. Principalmente os que têm cargos e tachos a defender. 

Vai, de algum modo, pôr em causa, o futuro do nosso País. Direi mesmo que, por certos sinais que nos chegam, já está a ser posto em causa.

Deixei de participar em votações na estrutura do MPLA, a partir da altura em que cessaram as minhas funções de deputado à Assembleia Nacional. Já lá vai muito tempo! Deixei de ser militante. Agora só voto na condição de cidadão nacional, nas eleições gerais. E enquanto cidadão do mundo, no meu Sport Lisboa e Benfica, agremiação de que sou sócio há longos anos. E com muito orgulho!

E enquanto vejo a perfilarem-se no imenso campo da Gloriosa Família os de convicções firmes, os que sabem o que querem, os que não têm receio de dizerem o que querem e ao que vão, também observo os indecisos, os que vivem eternamente em cima do muro e sonham com o momento, como se fosse a última coisa boa das suas vidas. Devem ter razão! Por isso entendo as atitudes, o oportunismo, os papéis que se fazem, o ridículo dalgumas situações. Não foi por acaso que fiz, há muito a minha opção. Quando o meu dever de cidadão me chamar, lá estarei! Avisando desde logo que tentarei imitar a posição do poeta e romancista português José Régio, imortalizada no seu sublime trabalho “Cântico Negro”. Tentando imitar a força, o timbre e a postura com que a Lizita Dolbeth sempre o disse. Assim, na íntegra:

“Vem por aqui” – dizem alguns

Com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui!”

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e

cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

-Que eu vivo com o mesmo sem-

vontade

Com que rasguei o ventre à minha

mãe

Não, não vou por aí! Só vou por

onde

Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de

vós responde 

Porque me repetis: “vem por

aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos

lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés

sanguentos,

A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na

areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós

Que me dareis impulsos,

ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus

obstáculos?…

Corre, nas nossas veias, sangue

velho dos avós,

e vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os

desertos…

 Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tectos.

E tendes regras, e tratados, e

filósofos, e sábios…

Eu tenho a minha loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder

na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos

nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais

ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram

mãe;

Mas eu, que nunca principio nem

acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e

o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas

intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

A minha vida é um vendaval que se

soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou…

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

– Sei que não vou por aí!

Terei ido longe demais? Acho que não. Fico por aqui, cumprimentando os meus leitores, familiares, amigos, camaradas e companheiros de luta. Até ao próximo domingo à hora do matabicho.

Forte da Casa, Portugal, 3 de Maio de 2026

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