Gostar ou não, eis a questão

JAcQUEs TOU AQUI!

Mantenha seus olhos nas estrelas e seus pés no chão.

Theodore Roosevelt

No mundo de hoje vai emergindo, mais nítida que nunca, a coisificação da vida e da pessoa humana; neste mundo estúrdio despoletaram-se perigosas divergências políticas, com discussões em palcos dominantes do processo beligerante em curso; pois é, é neste incrível mundo recheado de terríveis acontecimentos, que já se admite a possibilidade da queda nas profundezas do abismo nuclear. 

Desenham-se, pois, perspectivas assustadoras para a humanidade, com hipóteses mais próximas de vê-la submissamente vergada, mais do que a vemos. Cruelmente humilhada à mercê dos poderosos. Propícia a que, a seu respeito, se imite o título do filme, “assim caminha a humanidade”!

Mas neste mundo conspurco, antes da inclusão da cláusula de guerra, já era comum dizer-se que a vida das pessoas se transformara literalmente. Classificava-se o seu estado caótico e permissível a atrocidades, absurdamente, como o da evolução da sociedade geral. Antagonicamente era catalogado de retrocedente. Porque a perda de valores considerados essenciais não podia ser disfarçada. O exagero da permissibilidade promíscua também. Alegavam-se convicções acerca das maneiras mais decentes e humanas de se viver.

Neste mundo de hoje, onde a par de fantásticas realizações e descobertas que mudaram a sua face nas últimas décadas, plantou-se perene, a dúvida entre o bem e o mal, entre o bom e o mau que as ditas transformações proporcionaram. O bom e o mau de tal mudança de pensamento e das práticas que o seguiram. Foi assim, entre essas dúvidas, que o tempo decorreu heroicamente, sem nos apercebermos da sua marcha, passando por nós em desenfreada corrida.

Na sua passagem célere, permitiu-se identificar os que viveram e ainda vivem, apesar dos tempos difíceis, os melhores anos das suas vidas. Anos de sucesso e de riqueza, de êxitos nos mais diversos métiers, nos desempenhos de cargos jamais sonhados. Vitórias, muitas delas, conseguidas com extrema facilidade e/ou à custa de compadrios, quando não, do sacrifício alheio. Enquanto isso, outros limitaram-se a ver na mudança o pior lado da vida, imitação dela para muitos milhões, arrastados para antros da doença incurável, para a miséria absoluta, para a indigência da vida. A estiagem, as inundações e outras calamidades ligadas a questões económicas que conformam, no fim de tudo, o impossível mundo dos miseráveis, calharam sempre em sorte a grande parte desta camada de gente. 

Daí que e pelo que fica dito, uns gostem e outros não gostem do que observam acerca do que a vida, nem sempre justa, lhes tem oferecido neste mundo. Contingências das suas exigentes leis, com a componente sorte bem presente e a prevalecer nas suas regras.

Feitas estas considerações, cabe aqui dizer que a forma de governo organizada pelo Estado que exerce o seu poder sobre as sociedades, seja em Angola, seja noutro país que se considere livre, determina com certo rigor o sentimento manifestado pelas pessoas sobre o que gostam e o que não gostam deste mundo de Deus. Principalmente no que respeita à vida e às pessoas que proporcionam o bom ou o mau viver das demais. Raciocínio fácil de interpretar, baseado no milenar princípio de que não se pode agradar a gregos e a troianos. Remota concepção, tal como são longevos os pretextos e as práticas de governação que influenciam de modo prévio esse sentimento gerador de discórdia desenvolvido sempre à volta da aceitação e da rejeição.

Geralmente ao falar-se de gostar de alguém ou de algo declara-se o imediatismo do sentimento. Brota e é veiculado por pessoa ou por outra entidade jurídica, por força de acto ou de gesto da dita pessoa ou entidade, resultante do já ou do agora, de atitude recente ou antiga, patenteada por marca da bondade dos procedimentos contidos nesses gestos. Refiro-me àqueles que reflectem positivismo. Define-se assim a “atitude” da pessoa ou da instituição através dessa intenção ou propósito. 

Sirvo-me deste congruente reportório para justificar posições, despropositadas ou não, o leitor saberá classificá-las. Defendo-as, antevendo discórdias, mormente sobre as motivações que me levam a enumerá-los nesta coluna de opinião. Ora bem, começo por uma visita à Clínica Girassol. Submeti-me a electrocardiograma ambulatório. Instalações, serviços e atendimento impecável, o seguro da Ensa com a sua franquia suportável a funcionar a contento. Tirando a falta de educação de um balconista atribuiria nota 10 à Clínica que faz inveja a muitos hospitais de primeira linha. Passou ali, naquele momento e mais uma vez, a manifestar-se, através de um caso banal do nosso quotidiano bravio, o dilema do gostar e não gostar.

Avanço para os meandros da política caseira e, no meio das coisas boas, vejo o que não gosto. Exemplo primeiro: o aumento da adulação a atingir níveis doentios, e com ela a falta de coragem para apontar e corrigir erros prejudiciais ao país. Pelo contrário, permite-se que o erro persista. Cegueira perigosa faz esquecer o princípio de que ninguém é dono da razão absoluta. Preocupa a manutenção de vesgas atitudes, adivinhando-se nelas o afã de manter o estatuto, o cargo, as possíveis promoções, contrapartidas que derrubam a honestidade de carácter das pessoas. É a sociedade a embrutecer à custa de tais gestos, se não se desviar o rumo de certas políticas.

Não suporto, não consigo, dizia há dias uma amiga, ver o corpo da mulher ostensivamente utilizado para fins políticos. Ninguém de bom senso consegue e, decididamente, corroboro. Não posso alinhar por esse diapasão. Assim sendo, não posso gostar de quem promove o adormecimento das mentes da população com homens impreparados, mulheres vazias, álcool e futebol.  

Apesar de todos os pesares (vergonhas, muitas e escusadas vergonhas), vou apreciando a tentativa do debate político que aqui e ali se vai desenvolvendo neste período pré-eleitoral. Paralelamente, não estou de acordo com o trabalho dos meios de comunicação estatais nessa matéria. Fragilizam conscientemente a ainda periclitante imagem da democracia com a pouca ou nenhuma contenção observada, entre outros delitos, o da distribuição dos tempos de antena pelos partidos políticos. É bastante flagrante para não ser notada. Exige-se rapidamente o baixar de “ordens superiores” para se mudar a cena e a atitude. 

Falando em atitude, trago para este espaço a figura do presidente de um insignificante partido político. O homem surge nas redes sociais, impressionante na sua falta de vergonha. Vestido com as cores do partido maioritário, maltrata com palavras o seu mais poderoso opositor. Tempos atrás, trajando a farda deste, desancava forte e feio no partido maior e no seu presidente, para defender quem agora ultraja! Um caso de descontrolo psíquico a configurar oportunismo e ausência de carácter. Encabeça naturalmente a lista das coisas de que não gosto. Uma tabela onde cabe tudo o que não é sério e vertical na política, um espaço convidativo para inúmeras figuras políticas da praça angolana.  

Do que também não gosto na política é das maiorias absolutas. Patamares sonhados por todos os partidos, almejam-nos para realizar projectos a seu bel-prazer. Movidos por essa ambição, transformam, regra geral, os seus planos ao alcançarem tais objectivos, tornando-os, quase sempre, num conjunto de ideias irrealizáveis. Na verdade, não gosto de maiorias absolutas por se constituírem num sério obstáculo ao desenvolvimento da democracia e do debate de ideias. Por facilmente se converterem em poderes absolutos e, de um modo generalizado, transformarem os seus agentes em pessoas duras e impermeáveis a qualquer tipo de remorso ou a oscilações de carácter. Dito de outro modo, não gosto de pessoas que se julgam ser donas da vontade das outras.

Gosto de as ver, adoro vê-las inocentes em pequenas multidões, admiro a ingenuidade do riso das crianças, dos gestos dinâmicos dos adolescentes e dos jovens que circulam à hora da saída dos estabelecimentos escolares situados na zona onde eu moro. Caminham em grupo, são numerosas, as batas brancas dão-lhes um sainete admirável. Gosto do que vejo, o futuro está ali, sou obrigado a gostar. Não gosto, isso não, nem poderia gostar, da corrupção no jornalismo, um mal antigo que é mais evidente neste momento crítico em que, como alguém disse “é preciso ter coragem para ter esperança”, dito em que se encaixa a iminente declaração de guerra global que vai fazendo que chove mas não molha, mas que entretanto mostra límpido, o papel sujo de certa comunicação social, o desígnio deplorável do jornalismo mercantil, representando sempre com a causticidade da palavra mediática, enormes falácias ao serviço de interesses mesquinhos.

Não gosto dos falsos liberais e dos adeptos do conservadorismo simplório, dos que mostram azedume ao ser criticado ou a ver criticado o seu grupo, directa ou indirectamente, dos que cultivam com pouca habilidade o ódio acumulado no íntimo, dos que impõe a força do seu poder e são incapazes de perdoar, vendo em tudo que os rodeia a maldade dos outros. 

Gosto de gente transparente (leia-se políticos), e a minha consciência obriga-me a gostar dos que me fazem acreditar no futuro. Dos que observam a realidade e defendem com inteligência as suas ideias. Dos que conseguem ser persuasivos no tocante às questões sociais, sensíveis às necessidades do povo, dos que avaliam os problemas mais candentes das muitas nações que já fomos, e, essencialmente, da Nação una que somos hoje. Dos que se esforçam por não fazer do liberalismo apenas um simulacro. Enfim, “gosto de ver pessoas que sabem ser sol quando a vida está nublada”, assim constava a mensagem recebida de um bom amigo. 

Ao finalizar, peço-vos por favor, mesmo que não gostem, dêem-me o direito de gostar de ser quem sou, tal como dizia o poeta. Deixem-me filosofar, porque enquanto o faço, só sonho com coisas boas para todos nós, deste jeito e à minha maneira de incorrigível sonhador. Ficando-me por aqui, espero apenas compreensão e uma reflexão cuidada para o meu discurso. Oxalá tenha valido a pena ter roubado este pedaço ao vosso precioso tempo. Despeço-me assim de todos os meus leitores com a habitual saudação aos meus camaradas, companheiros de luta e amigos, por quem espero no domingo próximo, à hora do matabicho.Luanda, 21 de Maio de 2022 

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