
Um País não se constrói apenas com petróleo, diamantes ou estatísticas. Constrói-se com verdade. E talvez o verdadeiro acto revolucionário, hoje, não seja imaginar uma Angola melhor, mas torná-la, finalmente, real.
Há países que se explicam pelos mapas, pelos números e pelos relatórios. Angola, não. Angola, sente-se. Vive-se. Sonha-se. E, por vezes, inventa-se. É uma Pátria que se equilibra num abismo, essa profundidade incerta entre o que é e o que se diz que é, entre o chão firme da realidade e o nevoeiro persistente do imaginário.
No discurso oficial, Angola é uma potência em ascensão: rica em recursos, resiliente, estrategicamente posicionada. Nos relatórios internacionais, é promessa, um País que “pode vir a ser”. Nos bairros, nos musseques, nas ruas onde o pó levanta mais cedo do que o sol, Angola é outra coisa: é luta diária, improviso, sobrevivência elevada à categoria de arte. Entre essas duas narrativas, há um abismo, e é à beira dele que o angolano comum aprende a equilibrar-se.
O imaginário nacional construiu-se cedo, alimentado pela chama da independência, pelos ideais de liberdade, pela utopia de um País justo e próspero. Era um sonho necessário. Depois de séculos de dominação, sonhar era um acto de resistência. Mas o tempo, esse escultor implacável, foi esculpindo fissuras nesse sonho. A realidade, com a sua dureza crua, foi impondo perguntas incómodas: onde termina a promessa e começa a verdade?
E, no entanto, Angola continua a ser profundamente imaginada. Imaginada nas músicas que exaltam um amanhã melhor. Nos discursos que repetem o verbo “construir” como se fosse uma oração. Nos jovens que, mesmo diante da escassez, ainda ousam projectar futuros luminosos. O imaginário não morreu, transformou-se em mecanismo de sobrevivência emocional.
Talvez seja essa a maior singularidade angolana: a capacidade de coexistir com dois mundos. O mundo real, feito de contradições, desigualdades e desafios estruturais. E o mundo imaginário, onde o País já venceu, já se encontrou, já cumpriu o seu destino. Entre ambos, há tensão, mas também há energia criadora.
Porque é no abismo, nesse espaço de vertigem, que nasce a reinvenção. O angolano reinventa a economia no informal, reinventa a linguagem nas ruas, reinventa a esperança em contextos que a negam. Há uma inteligência social, quase invisível, que sustenta o País para além dos números oficiais.
Mas viver permanentemente entre o real e o imaginário, tem um custo. Cria uma espécie de fadiga colectiva, uma desconfiança silenciosa. Quando tudo é promessa, a palavra perde peso. Quando tudo é possível, o concreto torna-se raro. E, nesse espaço, instala-se uma pergunta que ecoa, ainda que raramente dita em voz alta: que Angola é, afinal, a verdadeira? Talvez a resposta seja desconfortável: ambas. Angola é, simultaneamente, aquilo que é e aquilo que insiste em sonhar ser. Negar qualquer uma dessas dimensões seria amputar a sua identidade.
O desafio, então, não é escolher entre o real e o imaginário, mas reconciliá-los. Fazer com que o sonho deixe de ser refúgio e se torne projecto. Fazer com que a realidade deixe de ser obstáculo e se torne matéria-prima. Transformar o abismo em travessia.
Porque um País não se constrói apenas com petróleo, diamantes ou estatísticas. Constrói-se com verdade. E talvez o verdadeiro acto revolucionário, hoje, não seja imaginar uma Angola melhor, mas torná-la, finalmente, real.
E, apesar de tudo, há sinais silenciosos de esperança. Estes surgem na energia da juventude que insiste em estudar, criar e empreender; nas vozes críticas que, cada vez mais, se levantam, denunciam e vociferam em nome de uma Angola mais justa; na capacidade extraordinária de um povo que nunca deixou de resistir às adversidades da sua própria história.
Angola já atravessou tempestades maiores do que as dúvidas do presente. Se no passado foi capaz de conquistar a liberdade, também pode conquistar a maturidade política, económica e social que ainda procura. O abismo entre o real e o imaginário não precisa ser eterno.
Talvez esteja justamente aí a missão desta geração: construir pontes onde antes havia apenas vertigem. E, quem sabe, um dia olhar para trás e perceber que aquele abismo que parecia separar o sonho da realidade foi, afinal, o espaço onde nasceu uma nova Angola.
Eu, ainda acredito. Retribuo o sorriso encantador da querida Jandira Mingas quando me lançou em plena cara: “É no respeito à trajectoria alheia que fortalecemos a nossa”. Sim senhora! Digo-eu: “É no respeito à trajectória de Angola real que forjamos o País que imaginamos”. Fim de citação.
A primavera já canta lá fora. Ora viva! Um grelhado misto, servido com uma boa funjada apimentaria mais o fim-de-semana.
Abraços.
*Menga-Ma-Kimfumu











