
A RDC transformou o seu quintal num belo pomar, enquanto continuamos sentados à sombra da mangueira a discutir quem vai buscar a enxada. O caminho para o Mundial não se faz apenas de discursos, conferências de imprensa e promessas. Faz-se de trabalho, visão e coragem.
“Houston, temos leopardos! Portugal tropeçou no orgulho congolês…” palavras de apreço de um analista de futebol, ontem após o apito final do árbitro do jogo entre Portugal e a República Democrática do Congo, em Houston, nos Estados Unidos no âmbito do Mundial 2026.
Quando o árbitro apitou para o início do jogo, muitos especialistas de sofá, comentadores de quitanda e profetas do Facebook, já tinham escrito o resultado antes mesmo da bola rolar. Uns falavam em goleada, outros em passeio turístico da selecção das quinas por Houston.
Mas esqueceram-se de um pequeno detalhe: os Leopardos não foram ao Texas para comprar chapéus de cowboy. Foram para caçar.
E caçaram.
O empate a uma bola teve sabor de vitória para milhões de congoleses espalhados pelo mundo. Em Kinshasa, Lubumbashi, Goma, Bruxelas, Paris e até nos musseques de Luanda no Palanca, na Mabor ou na Petrangol, onde há sempre um primo, um cunhado ou um kamba langa da RDC, ouviu-se um grito de satisfação.
Os portugueses entraram com aquela postura de patrão da obra, convencidos de que bastava mostrar o cartão de visita europeu para os congoleses pedirem licença para tocar na bola. Só que, os Leopardos responderam à moda africana: “Ô Mundele, aqui ninguém veio para servir café!”
A cada ataque português, os defensores congoleses fechavam a estrada como agente da Polícia de Trânsito em fim de mês. A bola não passava. E quando passava, encontrava um guarda-redes inspirado, desses que parecem ter feito jejum de quarenta dias antes do jogo.
Os comentadores internacionais começaram a engolir as próprias previsões. Os mais distraídos foram consultar o mapa para confirmar se a RDC ainda ficava em África, ou se já tinha sido transferida para a Europa sem aviso prévio.
Em Houston, os Leopardos da RDC mostraram que talento africano não é conversa de kandongueiro. É realidade. Demonstraram disciplina, coragem e aquela teimosia africana que faz alguém empurrar um carro sem gasolina por dois quilómetros só porque acredita que ele ainda vai pegar.
Enquanto isso, muitos angolanos assistiam ao jogo com sentimentos misturados. Uns torciam pela amizade histórica com Portugal. Outros pela irmandade africana. E havia ainda aqueles que só queriam ver mujimbo no dia seguinte. E, o resultado final, acabou por ser uma lição para quem continua a medir o futebol apenas pelo tamanho do orçamento ou pela fama dos jogadores. No relvado, o nome joga pouco. Quem joga é a alma. A RDC provou que os sonhos africanos não precisam de visto para entrar nos grandes palcos do mundo.
E Angola? Angola deve observar esta caminhada dos Leopardos com atenção e alguns palpites. Não com inveja, mas com inspiração. Porque a RDC é hoje como o vizinho que transformou o seu quintal num belo pomar, enquanto continuamos sentados à sombra da mangueira a discutir quem vai buscar a enxada.
Se os Leopardos conseguiram mostrar os dentes em Houston, talvez seja hora de os Palancas Negras olharem para o outro lado da fronteira e perceberem que o caminho para o Mundial não se faz apenas de discursos, conferências de imprensa e promessas. Faz-se de trabalho, visão e coragem. Porque, no futebol como na vida, quem passa o tempo a dar palpites vê o comboio partir. Quem entra nele chega ao destino.
E já agora, que ninguém se esqueça de outro feito africano que abanou os alicerces do Mundial. Enquanto a RDC segurava Portugal em Houston, a selecção de Cabo Verde arrancava um empate sem golos diante da poderosa Espanha, algumas horas antes. Sim, a mesma Espanha que costuma entrar nos torneios com pose de professor universitário do futebol. Os Tubarões Azuis mostraram que o Atlântico também fabrica coragem e talento. Houve quem pensasse que Cabo Verde seria apenas mais uma ilha turística no mapa do Mundial, mas os cabo-verdianos responderam com futebol organizado, raça e muita “matabichada” de orgulho africano.
No final das respectivas jornadas, a Espanha encalhou nos Tubarões e Portugal tropeçou nos Leopardos. Foram uns daqueles dias em que África mandou um recado ao mundo: já não basta aparecer no Mundial para tirar fotografias.
Agora aparece para disputar pontos, desafiar gigantes e estragar prognósticos. Os comentadores que já tinham preparado discursos sobre a superioridade europeia tiveram de ir rever as anotações, enquanto os africanos celebravam cada empate como quem encontra petróleo no quintal de casa.
A verdade é que, neste Mundial, a RDC e Cabo Verde transformaram empates em vitórias morais. E às vezes, uma vitória moral vale mais do que três pontos, porque obriga o mundo inteiro a olhar para ti com respeito.
Tais como o Victor Hugo Manzambi e a Belita dos Santos em nome dos seus rebentos, ontem também fui congolês. E, subscrevi: Bacalhau 01 – 01 Makayabo.
Bem-haja!
*Menga-Ma-Kimfumu










