Memória, amizade e esperança

Algumas pessoas não desaparecem inteiramente quando morrem. Permanecem nas perguntas que nos ensinaram a fazer, nas dúvidas que nos deixaram, nos combates que partilhámos e, sobretudo, na exigência de continuarmos a pensar. Aprendemos que a história não é uma linha recta e que a esperança não é necessariamente ingenuidade. A esperança pode ser uma forma de resistência.
Aquiesci ao pedido do Professor Nelson Pestana, o nosso Bonavena, para prestar este depoimento sobre Christine Messiant, que, posteriormente, acabou por me inspirar a escrever um outro texto.
Quanto ao depoimento, a memória já não é a mesma de antanho e, com o passar dos anos, algumas lembranças misturam-se, perdem os contornos exactos das datas, mas conservam aquilo que talvez seja mais importante: a intensidade das experiências e das pessoas que delas fizeram parte.
Conheci a saudosa Professora Christine Messiant em Luanda, nos finais dos anos 1990. Mantivemos contactos durante os primeiros anos da década de 2000 e tivemos a oportunidade de continuar, em Paris, algumas das longas conversas que havíamos iniciado em Angola.
Há, entre essas lembranças, um episódio que não consigo esquecer.
Numa das minhas viagens à Europa, no âmbito de uma formação profissional nos países nórdicos, aproveitei um fim-de-semana para fazer uma escapadela entre Copenhaga e Paris. Acabei, porém, detido no aeroporto de Paris, vítima de uma interpretação particularmente rígida das regras de Schengen.
Foi graças à intervenção da nossa amiga Christine e de um antigo diplomata francês, que aquele episódio terminou da melhor maneira possível e me foi permitida a entrada em Paris.
Mas, foi sobretudo em Luanda, que construímos uma relação feita de conversa, debate e cumplicidade intelectual.
Falávamos longamente sobre o processo político angolano, antes e depois da Independência; sobre os anos da ditadura explícita do partido único; sobre a clandestinidade e as prisões; sobre a guerra civil e as suas consequências; sobre as esperanças, as desilusões e os dilemas de uma sociedade que procurava, de diferentes maneiras, encontrar o seu caminho.
Eram conversas francas. Algumas vezes calorosas, porque havia entre nós espaço para o desacordo e para a confrontação de ideias. Discutíamos também o percurso e os cenários das oposições em Angola e em África, particularmente daquelas que se reivindicavam da esquerda revolucionária ou progressista, com todos os equívocos e contradições que essas categorias transportavam — e continuam, de certa maneira, a transportar — para os nossos tempos.
Éramos, afinal, jovens apaixonados pela justiça social e pela democracia. Para nós, a mudança da bandeira, por si só, era sobretudo um acto simbólico. Não significava, necessariamente, uma ruptura com os problemas fundamentais de uma sociedade nem apagava a realidade da disputa geopolítica entre a antiga União Soviética e os Estados Unidos.
Christine tinha uma capacidade particular para separar as convicções dos dogmas. Era intelectualmente rigorosa sem ser prisioneira das ortodoxias. Talvez seja uma das características que mais recordo nela.
Antes de adoecer gravemente, tínhamos combinado fazer-lhe chegar alguns dos meus arquivos pessoais. Eram documentos que, depois de muitas andanças pela clandestinidade e de muito esforço pessoal, tinham sobrevivido às perseguições da polícia política durante a ditadura explícita da Primeira República de Angola.
Esses documentos tinham para mim um significado particular. Não eram apenas papéis. Eram fragmentos de uma memória política que atravessara prisões, perseguições, clandestinidade, guerra e exílio, de muitos dos nossos compagnons de route, ainda que eu tenha permanecido em Angola. E Christine compreendia perfeitamente o valor desses testemunhos para a reconstrução da história contemporânea de Angola.
Em Paris tivemos também a oportunidade de aprofundar as nossas conversas.
O seu contacto foi extraordinariamente útil nas investigações que realizei a propósito do chamado Angolagate, depois de ter sido convidado pelas autoridades francesas e suíças a visitar França e Suíça, para tratar de matérias relacionadas com o processo político angolano, entre os quais nos últimos tempos da época, sobressaiu o famoso caso Angolagate. Algumas dessas investigações foram posteriormente publicadas nos semanários Agora e A Capital, então existentes.
Christine não era apenas uma investigadora que observava Angola à distância.
Havia nela um compromisso pessoal e intelectual com aquilo que estudava. Conhecia profundamente os actores, os processos e as contradições da sociedade angolana. Mas, acima de tudo, sabia escutar.
Talvez seja essa uma das grandes qualidades de um verdadeiro intelectual: não procurar apenas confirmar aquilo que pensa, mas ter a disponibilidade para ouvir, questionar, confrontar e, quando necessário, rever as próprias certezas.
Quando penso em Christine, tenho um misto de saudade e esperança.
Saudade das longas conversas em Luanda e em Paris; dos cafés e dos passeios pela Ilha de Luanda; das conversas num qualquer café próximo do rio Sena; das visitas ao CNRS, onde ela trabalhava; das livrarias, dos livros e desses outros lugares que o tempo foi deixando perdidos na memória.
Mas também esperança. Esperança porque algumas pessoas não desaparecem inteiramente quando morrem. Permanecem nas perguntas que nos ensinaram a fazer, nas dúvidas que nos deixaram, nos combates que partilhámos e, sobretudo, na exigência de continuarmos a pensar.
É por isso que, entre tantas características que poderia destacar em Christine Messiant, retenho algumas que me parecem essenciais: a sinceridade, a frontalidade, a honestidade intelectual, a independência de pensamento e uma solidariedade profunda com as causas que partilhávamos — a democracia, a justiça social e a dignidade humana.
Ela não precisava de concordar connosco para ser solidária. E talvez seja precisamente aí que reside uma das formas mais elevadas de amizade intelectual.
Como ela gostava de dizer, apesar de tudo, o facto de vivermos uma vida em busca dos nossos sonhos e das nossas esperanças, mesmo enfrentando adversidades, tem sido gratificante.
Hoje, olhando para trás, penso que essa frase resume também uma parte importante da nossa geração.
Vivemos tempos difíceis. Vimos sonhos transformar-se em desilusões, revoluções transformar-se em sistemas de poder, esperanças democráticas serem adiadas e, algumas vezes, traídas. Mas também aprendemos que a história não é uma linha recta e que a esperança não é necessariamente ingenuidade. A esperança pode ser uma forma de resistência.
E talvez seja por isso que, ao recordar Christine, me ocorre Paul Éluard.
No final de “Liberté”, depois de percorrer páginas inteiras escrevendo o nome daquilo que procura, Éluard conclui:
“Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie.
Je suis né pour te connaître,
Pour te nommer,
Liberté.”
(“E pelo poder de uma palavra / recomeço a minha vida. / Nasci para te conhecer, / para te nomear: / Liberdade.”)
Talvez seja essa a melhor maneira de terminar esta breve evocação.
Não com a morte, mas com a liberdade. Não apenas com a saudade, mas com a esperança. Não com aquilo que perdemos, mas com aquilo que continua a interpelar-nos.
Christine Messiant pertence agora à memória. Mas a memória, quando é verdadeira, não é apenas passado. É também uma responsabilidade perante o futuro.
Até sempre, Christine Messiant.











