
“Da ripa de Jorge Perestrelo à arte de transformar a rapaqueca em construção nacional”.
Há expressões que nascem num quintal, crescem numa esquina, ganham cidadania num táxi e, quando damos conta, já estão a disputar assento na Assembleia Nacional. “A ripa da rapaqueca” é uma dessas.
Não sei exactamente onde o Jorge Perestrelo foi buscar a bendita ripa. Também não sei se a “rapaqueca” estava preparada para receber tamanha ripa. O que sei é que, em Angola, quando alguém aparece com uma ripa na mão, nunca se sabe se vai bater no problema, no vizinho, no preço do tomate ou simplesmente na nossa paciência. Porque aqui, meus senhores, uma ripa nunca é apenas uma ripa. É conceito. É filosofia. É sociologia de rua. É economia informal. É estratégia política. É até política externa, dependendo de quem segura a ponta!
“A ripa da rapaqueca” parece uma simples brincadeira, mas esconde uma verdadeira tese sociológica. “A ripa da rapaqueca”, na linguagem de Jorge Perestrelo, pode ser lida como uma metáfora da capacidade angolana de enfrentar dificuldades, improvisar soluções e continuar a caminhar mesmo quando o caminho parece ter sido desenhado pelo próprio diabo.
A “rapaqueca” representa as dificuldades: inflação, desemprego, burocracia, desigualdades, dependência do petróleo, dificuldades sociais e económicas. A “ripa”, por sua vez, simboliza a ferramenta, a iniciativa, a capacidade de intervenção e a vontade de construir.
E aqui aparece uma especialidade nacional: quando falta a ferramenta, o angolano inventa. Quando falta o manual, pergunta ao kota. Quando não há solução, aparece sempre alguém dizendo: “Deixa comigo!”
E foi assim que, numa manhã qualquer de Luanda, o Jorge Perestrelo apareceu com a famosa ripa.
— Kota, essa ripa é para quê?
Ele respondeu:
— É a ripa da rapaqueca!
Pronto. Acabou a conversa.
Nasce assim a famosa “Universidade do Kota Desenrasca”, onde se obtém licenciatura em “vamos ver como fazemos”, mestrado em “não há maka” e doutoramento em “deixa comigo!”. Só que um país não pode viver eternamente de desenrasque. A resiliência individual precisa transformar-se em “capacidade institucional, políticas públicas eficazes e desenvolvimento sustentável”.
É neste ponto que a acção do Executivo ganha importância. Reformas económicas, diversificação da economia, investimento em infra-estruturas, aposta no capital humano, modernização administrativa e intervenção diplomática procuram responder às várias “rapaquecas” que Angola enfrenta.
E aqui está outra grande lição: “resiliência não significa conformismo”. O cidadão resiliente não é aquele que aceita eternamente a dificuldade; é aquele que enfrenta a dificuldade, mas também exige melhores instituições, empregos, educação, saúde, justiça, serviços públicos e oportunidades.
Porque existe uma diferença entre “sobreviver à rapaqueca” e “governar a rapaqueca”.
A resiliência angolana não nasceu ontem. É resultado de uma longa experiência histórica. O país atravessou décadas de conflito armado, reconstrução, transformações económicas, choques externos e profundas mudanças sociais.
E, mesmo assim, o povo continuou. Continuou a estudar. Continuou a trabalhar. Continuou a produzir. Continuou a criar empresas. Continuou a vender no mercado. Continuou a cultivar a terra. Continuou a inventar negócios. Continuou a mandar os filhos para a escola. Continuou a acreditar.
E aqui encontramos uma definição quase científica da resiliência: a capacidade de absorver uma perturbação, adaptar-se às novas condições e continuar a desenvolver-se. O nosso povo aprendeu isso na prática.
A ripa também tem dono
No fundo, Jorge Perestrelo descobriu uma coisa que muitos tratados de economia ainda não conseguiram explicar: “Angola tem muita rapaqueca, mas também tem muita ripa”.
Angola continua a enfrentar desafios importantes: inflação, emprego, diversificação económica, pressão sobre as finanças públicas, desigualdades sociais, produtividade e melhoria dos serviços públicos. Mas reconhecer esses desafios não deve obrigar-nos a negar os avanços. E reconhecer os avanços não deve impedir-nos de exigir mais. É possível fazer as duas coisas.
Podemos dizer: “Esta obra é importante”.
E simultaneamente: “Agora queremos que funcione bem”.
Podemos dizer: “Esta reforma é positiva”.
E acrescentar: “Agora queremos resultados”.
Podemos reconhecer a abertura internacional de Angola. E exigir que essa abertura traga investimento, conhecimento, emprego e oportunidades.
Isso chama-se maturidade cívica.
A grande questão já não é saber se Angola possui ripas. Possui. Tem muitas.
A questão é saber se conseguimos organizá-las num projecto coerente. Porque uma pilha de ripas não é uma casa. É apenas uma pilha de ripas. Um conjunto de obras não é automaticamente desenvolvimento. É preciso que as obras estejam ligadas a uma estratégia. Uma estrada deve ligar produção a mercados. Uma escola deve produzir conhecimento. Uma universidade deve produzir ciência. Um hospital deve produzir saúde. Uma infraestrutura económica deve produzir actividade. Uma reforma deve produzir eficiência. Uma política pública deve produzir resultados. É assim que a ripa se transforma em arquitectura nacional.
Talvez Jorge Perestrelo nunca tenha imaginado que a sua famosa ripa chegaria tão longe. De uma expressão divertida, transformou-se numa pequena filosofia.
A “rapaqueca” representa a dificuldade. A ripa representa a ferramenta. A construção representa a resposta. E a resiliência representa a capacidade de continuar.
Angola ainda tem muita “rapaqueca” pela frente. Mas também tem muitas ripas. Tem território. Tem juventude. Tem recursos. Tem posição geográfica estratégica. Tem cultura. Tem capacidade humana. Tem experiência. Tem vontade de se afirmar no continente e no mundo. E tem uma trajectória de reformas e investimentos que vem sendo observada por instituições internacionais.
O reconhecimento externo não deve ser utilizado para fechar os olhos às dificuldades. Deve ser utilizado como estímulo para fazer melhor. Porque o verdadeiro reconhecimento internacional não se conquista apenas com discursos. Conquista-se quando o estrangeiro chega a Angola e encontra boas infraestruturas. Quando encontra instituições funcionais. Quando encontra oportunidades de investimento. Quando encontra segurança jurídica. Quando encontra mão-de-obra qualificada. Quando encontra ciência. Quando encontra cultura. Quando encontra um país que sabe o que quer. E, sobretudo, quando encontra um povo que não perdeu a capacidade de sonhar.
Por isso, neste sábado, a mensagem da ripa é simples: não tenhamos vergonha da “rapaqueca”.
O que distingue os povos não é a ausência de dificuldades. É a capacidade de transformá-las.
A “rapaqueca” pode ser grande. Pode ser gigantesca. Pode parecer uma montanha. Pode até vir com fato, gravata, carimbo, despacho, orçamento, comissão e parecer jurídico!
Mas se houver ripa, há possibilidade de construção. E se houver conhecimento, trabalho, organização, liderança, cidadania e esperança… há possibilidade de desenvolvimento.
É esta a pedagogia da resiliência angolana: aprender com a dificuldade. Adaptar-se à mudança. Transformar a adversidade. Construir com o que temos. E não parar de construir com aquilo que ainda podemos ter. Porque, afinal, Jorge Perestrelo estava certo.
A ripa é pequena. Mas quando um povo inteiro decide segurá-la… até a “rapaqueca” começa a ter medo.
E Angola, meus caros leitores, continua a construir. Ripa na mão. Esperança no coração. Ciência na cabeça. Trabalho nos braços. E Angola no horizonte.
A verdadeira vitória será quando a ripa deixar de servir apenas para remendar a “rapaqueca” e passar a servir para “construir um país onde a rapaqueca tenha cada vez menos espaço para morar”.
Disto tenho a absoluta certeza.
Bom fim de semana.
*Menga-Ma-Kimfumu











