O DILEMA DA GEOPOLÍTICA ANGOLANA

CARLOS GOMES NGONDI SACAMI*

“Entre o Lobito, a Chicala e o mundo que descobriu que Angola também fica no mapa”.

Há momentos em que Angola parece aquele estudante que chega atrasado à aula, mas quando entra na sala descobre que o professor estava precisamente à procura dele. É mais ou menos assim que anda a nossa geopolítica.

Durante muito tempo, o mundo olhou para Angola sobretudo como petróleo, diamantes, guerra, dívida e Luanda. Hoje, entretanto, Washington, Pequim, Bruxelas, Moscovo, Nova Deli, os países do Golfo e os nossos vizinhos da SADC começaram a olhar para Angola com outros olhos.

Não porque tenham subitamente descoberto a beleza da nossa “ginguba torrada” no Largo da Independência, mas porque perceberam que Angola está sentada em cima de uma localização estratégica, recursos naturais importantes, corredores logísticos e uma costa atlântica que vale ouro na nova disputa económica mundial.

E aqui começa o nosso dilema: Como aproveitar o interesse das grandes potências sem transformar Angola numa sala de espera onde todos vêm buscar o seu café e nós ficamos com a conta?

“O país que está a construir portas”

Convém reconhecer aquilo que é verificável. O Executivo do MPLA tem apostado fortemente em infra-estruturas, logística, transportes e diplomacia económica. E isso começa a alterar a posição estratégica do país.

“Corredor do Lobito” tornou-se uma das maiores cartas geopolíticas de Angola. O Porto do Lobito e o Caminho-de-Ferro de Benguela colocam Angola numa posição privilegiada para ligar o Atlântico aos grandes centros mineiros da República Democrática do Congo e da Zâmbia.

Lobito deixou de ser apenas uma cidade onde se come bom peixe. Agora é também geopolítica com cheiro a mar. É cobre, cobalto, minerais críticos, ferrovia, comércio, energia e competição entre grandes potências.

E quando americanos, europeus e chineses começam a demonstrar interesse pela mesma estrada de ferro, o angolano pode até não perceber muito de geopolítica, mas percebe uma coisa: se todos querem passar pela nossa porta, talvez seja melhor não vender a porta barato.

O grande desafio é exactamente esse. Não basta transportar a riqueza dos outros. Temos de começar a produzir e transformar riqueza dentro de casa.

Porque, se o minério sai do Congo, atravessa Angola, chega ao oceano e vai embora para ser transformado noutro continente, Angola corre o risco de continuar a ser o empregado de mesa da festa económica dos outros.

O empregado até pode usar gravata. Mas continua empregado.

“E agora temos um Palácio para conversar”

E eis que, nesta segunda-feira, 24 de Agosto de 2026, Luanda ganhou mais uma peça importante neste novo xadrez: foi inaugurado o “Palácio de Convenções de Luanda”, na zona da Chicala, junto à Nova Marginal.

O investimento rondou 290,8 mil milhões de kwanzas, aproximadamente 280 milhões de euros, e a infra-estrutura foi concebida para acolher grandes eventos nacionais e internacionais.

Ora, meus senhores, isto já não é simplesmente “mais um edifício”. É uma ferramenta de diplomacia, turismo de negócios, economia de eventos e projecção internacional de Angola.

O Governo quer que o Palácio seja uma referência em África e uma janela através da qual o mundo possa ver uma Angola moderna, dinâmica e acolhedora. 

E eu fico a imaginar o diálogo:

— Onde vamos realizar a próxima cimeira?

— Em Luanda.

— Mas têm condições?

— Temos Palácio de Convenções.

— E hotéis?

— Aí já estamos a conversar…

E foi justamente o Presidente João Lourenço quem chamou atenção para esta questão: não basta ter o centro de convenções; é preciso investimento privado na hotelaria e no turismo.

Ou seja, inaugurámos a sala. Agora falta encher a casa. E aqui começa a segunda parte da obra: “não basta construir o palco; é preciso trazer os espectadores, os empresários, os turistas, os congressistas e os dólares”.

“De Luanda para o mundo”

O Palácio de Convenções, o Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto, o Porto do Lobito, o Caminho-de-Ferro de Benguela, a modernização dos transportes e a abertura diplomática formam peças de uma mesma estratégia.

Angola quer deixar de ser simplesmente “destino de petróleo” para ser também destino de “investimento, conferências, turismo, logística, negócios e diplomacia”.

E isso é uma mudança importante. Durante anos, quando alguém dizia “Angola”, muitos estrangeiros pensavam: “petróleo”.

Hoje, podemos começar a acrescentar: Lobito. Luanda. Corredor. Turismo. Logística. Energia. Agricultura. Minerais críticos.

Ainda falta acrescentar uma palavra: “industrialização”. Porque o nosso maior pecado económico continua a ser exportar demasiado aquilo que deveríamos transformar. Temos petróleo, mas importamos derivados. Temos terras, mas importamos alimentos. Temos recursos minerais, mas ainda precisamos de aumentar a transformação local. Temos jovens, mas precisamos de criar empregos produtivos para essa juventude.

É como ter uma cozinha cheia de ingredientes e continuar a encomendar “take-away”.

“Nem tudo é obra; nem toda obra é milagre”

Aqui também é preciso equilíbrio. A oposição critica. Os comentadores criticam. As redes sociais criticam. O taxista critica. O “mwangolê” da esquina critica.

E, quando não há obra, dizem: “O Governo não faz nada!”

Quando há obra: “Gastaram dinheiro!”

Quando se constrói: “Porquê aqui?”

Quando não se constrói: “Porquê não aqui?”

Se o Governo inaugura, dizem que é propaganda. Se não inaugura, dizem que não trabalha. Assim fica difícil governar; só mesmo com capacete, colete reflector e uma boa dose de paciência.

Mas uma análise científica não pode ser feita com palmas nem com apitos.

O Banco Mundial reconhece que as reformas económicas contribuíram para reduzir a dívida pública de cerca de “116% do PIB em 2020 para aproximadamente 52% em 2025”.

Isto é um ganho objectivo. Mas também existem desafios enormes: a dependência do petróleo, a informalidade, o desemprego, a pobreza e a necessidade de acelerar a diversificação económica. Portanto, “não devemos transformar cada inauguração numa canonização do Governo, nem cada dificuldade numa condenação do país”.

Nem oito nem oitenta. Angola precisa de “Estado eficiente, investimento privado, fiscalização, transparência, produtividade e continuidade das políticas públicas”.

“A geopolítica do funje”

Há uma coisa que Luanda precisa aprender rapidamente: “as grandes potências não vêm a Angola por amor à nossa paisagem”. Vêm pelos seus interesses. Os americanos têm interesses. Os chineses têm interesses. Os europeus têm interesses. Os indianos têm interesses. Os países do Golfo têm interesses. E nós também devemos ter os nossos.

A diplomacia moderna não pode funcionar à base de: “Este é nosso amigo.”

Amigo é o vizinho que empresta 500 kwanzas quando falta saldo.

Na geopolítica, fala-se de “interesse nacional”. E Angola precisa de aprender a negociar com todos sem se entregar completamente a ninguém.

China para infra-estruturas e comércio. Europa para investimento e tecnologia. Estados Unidos para energia, segurança e negócios. Índia para agricultura, indústria e farmacêutica. Países do Golfo para capital e logística. África para integração regional.

Não precisamos de escolher uma camisola. Precisamos de “jogar bem o campeonato”.

“O verdadeiro teste”

Mas há uma pergunta que não podemos evitar: “Quem vai beneficiar de tudo isto”?

Se o Palácio de Convenções receber congressos internacionais, quem beneficiará? O hotel. O restaurante. O taxista. A companhia aérea. O guia turístico. O vendedor de artesanato. A empresa de segurança. O jovem formado em turismo. O agricultor que fornece alimentos. A pequena empresa que presta serviços.

É aí que uma grande obra pública deixa de ser cimento e passa a ser “política económica”.

O mesmo vale para o Corredor do Lobito. O verdadeiro sucesso não será apenas o comboio circular. Será quando, ao longo da linha, surgirem fábricas, centros logísticos, armazéns, empresas agrícolas, serviços, empregos e novas cidades económicas. A infraestrutura deve gerar economia. Essa é a ciência. O resto é inauguração.

“O dilema angolano”

O dilema da geopolítica angolana é, afinal, simples de explicar: “temos de ser suficientemente abertos para receber o mundo, mas suficientemente fortes para não sermos propriedade dos interesses do mundo”.

O Executivo do MPLA tem alguns ganhos que devem ser reconhecidos: infra-estruturas estratégicas, redução significativa da dívida em relação aos níveis de 2020, maior protagonismo diplomático, aposta na logística, abertura ao investimento e uma crescente utilização da posição geográfica de Angola como activo económico.

Mas a obra ainda não terminou. O “Palácio de Convenções é uma porta”. O “Aeroporto é uma porta”. O “Lobito é uma porta”. A diplomacia é outra porta. Agora precisamos de saber “o que entra por essas portas e o que fica dentro do país”. Porque Angola não pode continuar a ser simplesmente o lugar onde os outros vêm buscar petróleo, diamantes, minerais e oportunidades.

Temos de ser também o lugar onde esses recursos são “transformados em conhecimento, indústria, emprego e prosperidade”. E, se conseguirmos isso, talvez um dia, quando os grandes do mundo perguntarem:

— Onde vamos realizar a próxima cimeira?

O angolano possa responder, sem consultar o GPS:

“No Palácio de Convenções de Luanda, camarada. E desta vez, quem paga a conta somos nós, porque a riqueza também ficou cá!”

Aí sim. Teremos deixado de ser apenas “País estrategicamente localizado”. Teremos começado a ser País estrategicamente poderoso.

E isso, meus caros leitores, seria a verdadeira vitória da geopolítica angolana. 

Como é de praxe, desejo-lhes os votos de um bom final de semana.

Bem-haja Angola! 

*Menga-Ma-Kimfumu

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