
Em Angola, a esperança é como aquele primo que aparece em todas as festas de família sem ser convidado. Nunca morre. Nunca desaparece. Nunca paga a sua parte da grade de Cuca. Mas também nunca resolve ir embora.
A esperança está sempre ali. Está na fila do Banco Sol, do BAI, do BPC, da Administração Municipal, do SIAC, da Conservatória, da bomba de combustível e até na fila para entrar na fila.
O angolano é um ser especial. Enquanto em outros países o cidadão reclama quando espera quinze minutos, o mwangolé chega às seis da manhã para tratar um documento, encontra cinquenta pessoas à sua frente e ainda diz:
— Não faz mal. Deus é grande.
E Deus, coitado, já nem sabe se está a ser adorado ou usado como funcionário público de recurso.
Em Luanda, por exemplo, o trânsito já deixou de ser trânsito. É uma modalidade olímpica. O cidadão sai do Zango para trabalhar na Mutamba e leva uma marmita, uma garrafa de água, um powerbank, uma almofada e, se for prudente, uma certidão de nascimento para provar que ainda está vivo quando chegar ao destino.
Mas a esperança vai junto.
— Amanhã melhora.
Esse “amanhã” é um jovem de quarenta e tal anos que ainda vive com os pais e continua a prometer que vai mudar de vida.
Nos bairros do Cazenga, Sambizanga, Hoji-ya-Henda, Rocha Pinto, Golf 2, Viana ou Kilamba, a esperança já é considerada património cultural.
Quando falta água:
— Calma, amanhã vem.
Quando falta luz:
— É só uma manutenção.
Quando falta emprego:
— O concurso público está quase.
Quando o salário desaparece no dia 3:
— Mês que vem será melhor.
Quando o pão aumenta:
— É culpa da conjuntura internacional.
A tal conjuntura internacional já leva mais pancadas em Angola do que um árbitro depois de um golo anulado no Girabola.
Entretanto, os nossos políticos continuam especialistas em inaugurar promessas. Há estradas inauguradas três vezes. Há hospitais inaugurados quatro vezes. Há obras que já conhecem mais fitas cortadas do que cimento aplicado.
O cidadão passa diante de um terreno vazio e alguém explica:
— Aqui vai nascer uma central logística.
Passam cinco anos. Nasce capim. Passam mais cinco. Nasce uma cabra. Passam mais cinco. Nasce um comité de acompanhamento da futura central logística. E a esperança continua firme.
O angolano é tão optimista que consegue transformar qualquer desgraça em conversa de quintal.
No candongueiro, por exemplo, o motorista anuncia:
— Hoje não há troco.
E ninguém se revolta.
O passageiro apenas responde:
— Então desconta na dívida externa.
Toda a gente ri. A viagem continua. A dívida também.
No mercado do São Paulo, do Asa Branca ou dos Congoleses, as mamãs vendem de tudo: peixe; tomate; cebola. Vendem até soluções para problemas que ainda não aconteceram.
São verdadeiras ministras da economia paralela.
Enquanto os economistas discutem gráficos e indicadores, a Mamã Fina do mercado já sabe exactamente quantos clientes vão reclamar do preço do óleo e quantos acabarão por comprar na mesma.
É ciência angolana.
Mas onde a esperança atinge o seu nível máximo é durante os períodos eleitorais. Aí já não é esperança. É combustível nuclear. Os comícios aparecem. As promessas florescem. Os discursos multiplicam-se. As camisolas invadem as ruas.
Até os militantes que passaram quatro anos sem se cumprimentar reaparecem como irmãos gémeos separados na maternidade.
De repente, todos garantem que o futuro chegou. O problema é que, depois das eleições, o futuro volta a apanhar engarrafamento na estrada de Catete e desaparece durante mais alguns anos.
Mesmo assim, o povo não desiste. Porque o angolano tem uma capacidade sobrenatural para sobreviver. Sobrevive ao kwanza. Sobrevive ao dólar. Sobrevive à inflação. Sobrevive aos impostos. Sobrevive às promessas.
E ainda encontra forças para comprar uma grade, fazer uma kizaca com peixe seco assado, ligar uma coluna Bluetooth e gritar:
— A vida continua!
E continua mesmo.
Porque Angola é aquele país onde a esperança nunca morre. Mas também nunca sai da fila. Está sempre ali, de senha na mão, sentada num banco de plástico partido, à espera de ser atendida. E enquanto espera, conversa com a paciência, toma uma gasosa com a resignação e joga damas com o destino.
Talvez um dia chegue a sua vez. Talvez a fila ande. Talvez o balcão abra. Talvez o sistema não esteja em baixo.
Até lá, seguimos todos juntos, entre mujimbos, gargalhadas, kandongas, promessas e muito improviso. Porque ser angolano é exactamente isso: viver de esperança em esperança, rir para não chorar e transformar cada dificuldade numa anedota nacional. E se houver alguma dúvida sobre a resistência deste povo, basta olhar para as filas. Elas mudam de lugar. Mudam de tamanho. Mudam de nome. Mas o angolano continua lá: firme; paciente; bem-disposto. E com a esperança na mão. À espera da sua vez desde 1975.
De tanto esperar, os putos apelidam a dona Domingas do Dangereux, de “Tia Esperança de Sá Nunca”.
Bandeiras!
*Menga-Ma-Kimfumu










