
Introdução
O Mapa que poderia ter sido redesenhado
Em 1947, a comunidade internacional dividiu a Palestina para criar o Estado de Israel. Trinta e cinco anos antes, porém, uma proposta silenciada pelos manuais escolares esteve a ponto de tornar esse conflito irrelevante.
Em 1912, a Primeira República Portuguesa ofereceu à Jewish Territorial Organization (ITO) uma área do tamanho da Bélgica no Planalto de Benguela, em Angola, para estabelecer um “lar nacional judaico”. A proposta foi aprovada no Parlamento em Lisboa, mas recusada em Londres pelos líderes do movimento territorialista. Se tivesse sido aceite, o mapa político e cultural do século XX seria hoje irreconhecível.
O que se segue é uma viagem por essa história esquecida e uma exploração rigorosa do mundo alternativo que dela poderia ter nascido.
1. A proposta esquecida (1912)
1.1. O contexto político e financeiro de Portugal
O contexto da oferta portuguesa é tão crucial quanto obscuro. Recém implantada, após a queda da monarquia (1910), a Primeira República via-se financeiramente exangue e incapaz de ocupar eficazmente as suas colónias africanas. A solução colonial encontrada foi a mais “pragmática” possível: ceder terra a troco de colonização privada.
1.2. Os termos do Acordo (Bill 159)
O projecto de lei Bill 159[1], aprovado em Lisboa, concedia à ITO de Israel Zangwill[2]condições notavelmente amplas:
- Extensão: 30 000 km² no Planalto de Benguela (actuais províncias do Huambo e Bié), com clima temperado e terras férteis.
- Autonomia: escolas, hospitais e administração local próprios, com os colonos a receberem cidadania portuguesa à chegada.
- Condição: a soberania permaneceria portuguesa; a defesa e as relações externas seriam decididas em Lisboa.
1.3. A recusa da ITO e o fim do sonho lusófono
A ITO, contudo, recusou. Israel Zangwill considerou a distância para a Europa um obstáculo intransponível e exigiu uma autonomia política total que Portugal não estava disposto a conceder. A oportunidade histórica perdeu-se, e com ela, a hipótese de um “Israel lusófono” em África.
2. O cenário contrafactual:
Se a proposta tivesse sido aceite?
Imaginemos o cenário contrário: a ITO diz sim, e os primeiros milhares de colonos judeus chegam a Benguela em 1914. O que mudaria?
2.1. Impacto no Médio OrienteSem pressão migratória: sem a pressão migratória organizada para a Palestina, o Mandato Britânico (1920-1948) teria provavelmente evoluído para um Estado árabe independente, palestiniano e maioritariamente muçulmano.
- Declaração Balfour esvaziada: a Declaração Balfour (1917), que prometia um “lar nacional judeu” na Palestina, perderia o seu principal destinatário, sendo reduzida a uma nota de rodapé diplomática.
- Conflito inexistente: o conflito israelo-palestiniano, que moldou a segunda metade do século XX, nunca teria existido.
2.2. Impacto em Portugal e no seu império
- Modernização económica: o influxo de capitais e know-how agrícola judeu teria modernizado o Planalto de Benguela, criando uma região próspera num império português maioritariamente pobre.
- Consequências políticas: o Estado Novo (1926-1974) poderia nunca ter surgido, pois a estabilidade económica e a legitimidade internacional trazidas pela colónia judaica poderiam ter fortalecido a Primeira República.
- Reconfiguração das guerras coloniais: as guerras coloniais (1961-1974) teriam um cenário distinto. Se o planalto de Benguela se tornasse um território próspero e leal a Lisboa, os movimentos de libertação nacional angolanos enfrentariam um adversário mais rico e melhor armado.
2.3. Impacto na identidade judaica mundial
- Língua: o iídiche, língua franca do movimento territorialista, teria sobrevivido como língua nacional do novo Estado, em vez de ser substituído pelo hebraico.
- Pós-Holocausto: o Holocausto (1939-1945) teria o mesmo desfecho trágico, mas o pós-guerra seria muito diferente. Os sobreviventes teriam um destino africano já pronto, evitando os campos de Chipre e os navios bloqueados na Palestina.
- Perfil do “Estado Judeu de Benguela”: seria, hoje, um país de língua portuguesa, com uma economia forte (agro-indústria, diamantes) e uma relação especial com os EUA.
3. Angola no cenário alternativo:
Conflitos, apartheid e identidade
Numa narrativa contrafactual, torna-se extraordinariamente difícil explanar com certezas. Ao transportar a lógica do conflito israelo-palestiniano para um cenário onde “Israel” estaria em Angola, é inevitável projectar tensões étnicas, guerras por recursos e dinâmicas de apartheid.
3.1. A questão central: apartheid ou conflito assimétrico?
Diferentemente da Palestina, onde a terra era habitada por uma população árabe que nunca saiu, o Planalto de Benguela em 1912 era esparsamente povoado pelos Ovimbundu (grupo étnico maioritário de Angola). Isto muda tudo: não haveria uma Naqba[3] em 1948, mas sim um processo gradual de expropriação e segregação.
O cenário mais provável seria um modelo de apartheid à sul-africana ou rodesiana, com nuances:
- Décadas de 1910-1950: colonos judeus europeus chegam e ocupam as melhores terras. Os Ovimbundu tornam-se trabalhadores migrantes nas suas próprias terras.
- Década de 1960: com a independência de Angola (real, 1975), o “Estado Judeu de Benguela” declara independência unilateral de Portugal, tornando-se um estado soberano de maioria judaica (talvez 60% judeus, 40% Ovimbundu e outros).
- Décadas de 1970-1990: instala-se um sistema de bantustões (territórios rurais para os Ovimbundu, nominalmente autónomos, mas economicamente dependentes).
A grande diferença para a África do Sul e Rodésia seria a legitimidade internacional: o “Estado Judeu” teria apoio dos EUA e da Europa como um “baluarte contra o comunismo” na Guerra Fria.
3.2. A guerra civil angolana (1975-2002) reconfigurada
Angola teve uma guerra civil entre o MPLA (apoiado por Cuba e URSS) e a UNITA (apoiada pelos EUA e África do Sul). No cenário alternativo:
- O Planalto de Benguela (Estado Judeu) seria um terceiro actor, rico, armado e aliado muito próximo dos EUA.
- O MPLA controlaria Luanda e o litoral, a UNITA o Leste, e o Estado Judeu o centro-sul. Quanto ao Norte, tudo dependeria da implantação e apoio externo da FNLA.
- As guerras não seriam apenas ideológicas, mas também étnico-religiosas: judeus vs. Ovimbundu vs. outros angolanos.
- Cuba apoiaria os movimentos de libertação Ovimbundu, criando uma versão africana da Guerra do Yom Kippur[4].
Resultado: Angola tornar-se-ia um conflito permanente, com ataques suicidas, muros de separação e colonatos fortificados, ou seja, uma cópia da Cisjordânia, mas em África.
3.3. A economia: diamantes, petróleo e o “Milagre de Benguela”
O Planalto de Benguela é rico em diamantes aluviais e terras agrícolas de alto valor. O Estado Judeu rapidamente se tornaria:
- O centro tecnológico e financeiro da África Austral.
- Parceiro privilegiado da África do Sul e Rodésia do apartheid.
- Exportador de armas, software de vigilância e tecnologia de irrigação.
O êxito económico, porém, viria à custa da exclusão dos Ovimbundu. O fosso entre o “primeiro mundo judaico” e o “terceiro mundo Ovimbundu” seria escandaloso.
3.4. O paradoxo no Médio Oriente: mais estável, mas não pacífico
Este é o ponto mais contraintuitivo: sem Israel na Palestina, o Médio Oriente seria mais estável, mas não pacífico:
- Sem conflito israelo-palestiniano: não haveria Naqba (1948), nem Guerra dos Seis Dias (1967), nem Yom Kippur (1973).
- Jordânia: manteria a Cisjordânia, tornando-se um Estado maioritariamente palestiniano.
- Egipto: sem a derrota humilhante de 1967, Nasser talvez não caísse, e o islamismo político cresceria de forma diferente.
- Líbano: não teria a Guerra Civil (1975-1990) aparentemente desencadeada pela presença da OLP.
- Irão: não teria o antagonismo a Israel como bandeira; a Revolução Islâmica (1979) seria contra os EUA e a Arábia Saudita.
O Médio Oriente continuaria instável devido ao petróleo e às rivalidades regionais, mas sem o elemento catalisador do conflito com Israel.
3.5. O “Estado Judeu Africano” como laboratório brutal

3.6. A grande ironia: o Sul da África sem o apartheid?
O mais curioso é que o Sul da África, que conheceu o apartheid até 1994, poderia nunca ter visto esse sistema terminar tão cedo, porque:
- O Estado Judeu de Benguela, rico e militarmente forte, teria sido o aliado número um da África do Sul e da Rodésia brancas.
- Juntos, teriam formado um bloco de resistência à descolonização mais poderoso.
- A pressão internacional para acabar com o apartheid teria sido menor, pois os EUA precisariam destes aliados contra o que apelidavam de “luta contra o comunismo”.
- Consequência: o apartheid no Sul de África poderia ter sobrevivido até aos dias de hoje.
4. Esclarecimento: o mito do secretário de Estado
O leitor atento notará uma discrepância: o título promete um secretário de Estado americano, mas a narrativa fala de um ministro britânico (Sir Arthur Hardinge).
A razão é simples: na investigação disponível, não há registo de qualquer secretário de Estado dos EUA a referir publicamente a proposta de 1912. O rosto americano do territorialismo foi Henry Morgenthau, embaixador dos EUA no Império Otomano (1913-1916), que apoiou publicamente planos de colonização judaica fora da Palestina, mas nunca especificamente a oferta portuguesa.
A confusão é compreensível: nos anos 40, os EUA pressionaram Portugal pelos Açores, e figuras como o General George Marshall (secretário de Estado entre 1947-1949) debateram o destino dos refugiados judeus. Mas a “oferta angolana” já tinha morrido três décadas antes.
5. Porque falhou o “Israel Angolano”?
A tensão entre territorialistas e sionistas
A recusa da ITO em 1912 não foi um mero acaso. Revelou as tensões centrais do movimento judaico do século XX:

Quando Zangwill recusou Benguela, a ITO perdeu o seu último grande projecto. O sionismo triunfou, e com ele, a ideia de que “Israel” só podia nascer em Jerusalém.
Conclusão: o peso de uma decisão
A proposta de 1912 é um dos maiores “e se” da história contemporânea. Se tivesse sido aceite:
- Não haveria conflito israelo-palestiniano.
- O português seria uma das línguas oficiais do mundo judaico.
- Angola teria hoje, potencialmente, uma região “mais rica” de África.
- O Holocausto deixaria de ser o argumento final para a criação de Israel, passando a ser o argumento para o incremento da colonização de África.
Em síntese, a Angola de 2026 neste cenário alternativo seria:

O que falhou em 1912 não foi uma oportunidade perdida: foi uma visão alternativa do que o judaísmo poderia ter sido. O Estado que nunca se ergueu lembra-nos que a História não é feita apenas dos que vencem, mas também dos que decidem dizer “não”.
[1] Projecto de Lei 159 para conceder terras em Angola a colonos judeus em troca de apoio para fortalecer a presença de Portugal na região.
[2] Israel Zangwill foi um escritor britânico da vanguarda do sionismo.
[3]Catástrofe, referindo-se ao deslocamento forçado e à desapropriação de cerca de 750 palestinianos durante a guerra israelo-árabe de 1948.
[4] Guerra israelo-árabe de 1973, entre 6 e 26 de Outubro.
[5] Boicote, Desenvolvimento, Sanções.
Fontes principais
- Arquivo Histórico Parlamentar Português (Bill 159, 1912).
- Zangwill, I. (1914). The Voice of Jerusalem.
- Alroey, G. (2011). Bread to Eat and Clothes to Wear: Jewish Territorialism.










